Sonho II
em 09.02.03
O azul do mar - exatamente seu tom favorito - não é nada natural. E a água não costumava ir até ali, até a calçada, ou ser tão parada. Sentado ali, na beira da piscina que ultrapassa o horizonte, você percebe que há algo errado. Como se o mundo tivesse mudado de repente enquanto você não prestava atenção. Mesmo assim, o sol se pondo causa uma certa paz.
Um bebê ou uma criança se aproxima, falando algo que você não consegue entender, mas é muito importante. Se ela parasse de desaparecer quando você se concentra nela, seria muito mais fácil entender. Ela fita seus olhos com uma piedade que destrói você e pula na água. A criança afunda devagar até o fundo e é possível vê-la durante todo o percurso, apesar das águas escuras. Você percebe que a criança precisa de ajuda e mergulha atrás dela.
No fundo, há restos bem conservados de uma cidade vagamente grega, mas cheia das imagens da vida moderna. Se não fosse o peso diferente e uns cardumes aqui e ali, você nunca perceberia que está sob a água. Procurando pela criança, você encontra um amor antigo, chorando tranqüila - lágrimas distintas da água. Você se aproxima, limpa uma lágrima e pergunta se está tudo bem. Ela responde e você se beijam.
Você percebe que precisa respirar e a convida para ir com você. Ela diz que não pode, mas você deve ir assim mesmo. "Nos vemos depois", você ouve enquanto flutua numa velocidade absurda. O impulso é suficiente para jogá-lo metros acima da água, como os saltos dos golfinhos. Enquanto enche os pulmões, você enxerga o bebê, voando ao longe. Enquanto desce, você procura pela mulher que deixou no fundo. A água vai ficando cada vez mais escura, os pulmões vão ardendo e você não consegue encontrá-la.
9.2.03
2.1.03
Diálogo Recursivo IV: Clichês
em 02.01.03
- Não é você. Sou eu.
- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.
- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.
- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?
- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.
- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.
- Eu também vou sentir saudades de você.
- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.
- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.
- Eu ficaria menos chateado se tentasse.
- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.
- O nome disso é "seduzir".
- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.
- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.
- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.
- Como se me importasse sua vida e suas complicações.
- Como é?
- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.
- É. Os motivos para você desistir.
- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.
- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.
- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.
- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.
- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.
- Vamos ver.
- Você vai ver.
- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.
- Eu não vou desistir de você ainda.
- Só não vai adiantar.
- Então tá. Até.
- Ah, vem cá.
em 02.01.03
- Não é você. Sou eu.
- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.
- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.
- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?
- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.
- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.
- Eu também vou sentir saudades de você.
- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.
- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.
- Eu ficaria menos chateado se tentasse.
- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.
- O nome disso é "seduzir".
- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.
- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.
- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.
- Como se me importasse sua vida e suas complicações.
- Como é?
- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.
- É. Os motivos para você desistir.
- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.
- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.
- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.
- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.
- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.
- Vamos ver.
- Você vai ver.
- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.
- Eu não vou desistir de você ainda.
- Só não vai adiantar.
- Então tá. Até.
- Ah, vem cá.
17.12.02
Sonho I
em 17.12.02
A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.
Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.
Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.
Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.
Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.
Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.
em 17.12.02
A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.
Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.
Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.
Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.
Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.
Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.
9.12.02
Girls as a Memetica Infection V
em 09.11.02
Tudo se tornava ficção com ela por perto.
Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.
E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.
A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.
Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.
Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.
Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.
Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.
Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.
Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.
em 09.11.02
Tudo se tornava ficção com ela por perto.
Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.
E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.
A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.
Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.
Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.
Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.
Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.
Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.
Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.
2.12.02
Diálogo Recursivo III - Déjà Vu
em 02.12.02
- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?
- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.
- É?
- Não há mais nada que você não saiba.
- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.
- Seria óbvio, se prestasse atenção.
- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!
- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.
- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.
- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.
- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!
- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.
- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?
- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.
- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.
- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.
em 02.12.02
- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?
- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.
- É?
- Não há mais nada que você não saiba.
- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.
- Seria óbvio, se prestasse atenção.
- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!
- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.
- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.
- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.
- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!
- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.
- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?
- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.
- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.
- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.
15.11.02
Girls as a Memetic Infection IV
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
2.11.02
Escritores são um porre e falam uma língua bastante particular, mas às vezes é divertido escrever sobre eles. Reúni as três partes de Pulp Hack em um negócio que pretende ser impresso. Se você quer uma cópia, me escreva com seu endereço postal.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
29.10.02
Parábola III
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
28.9.02
25 Fatos Inventados - e Não-Contraditórios - Sobre Mim Mesmo
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
19.9.02
13.9.02
Diálogo Recursivo II - Delectatio Morosa
em 13.09.02
- Gostou?
- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.
- Ah! O filme é legal.
- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.
- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!
- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!
- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.
- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.
- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?
- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.
- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?
- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.
- O que você queria dizer, então?
- Que eu queria uma história simples.
- Como "simples"?
- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.
- Você ainda está falando do filme?
- Ah! Sei lá.
em 13.09.02
- Gostou?
- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.
- Ah! O filme é legal.
- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.
- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!
- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!
- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.
- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.
- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?
- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.
- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?
- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.
- O que você queria dizer, então?
- Que eu queria uma história simples.
- Como "simples"?
- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.
- Você ainda está falando do filme?
- Ah! Sei lá.
5.9.02
26.8.02
Girls as a Memetic Infection III
em 26.08.02
Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.
Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.
Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.
Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.
Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.
Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.
Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.
Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.
Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.
(continua)
em 26.08.02
Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.
Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.
Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.
Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.
Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.
Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.
Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.
Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.
Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.
(continua)
19.8.02
7.8.02
Girls as a Memetic Infection II
em 07.08.02 - (com meus cumprimentos a Grant Morrison)
Achavam que era amor. Mas não passava de ficção científica. Não que se pudesse notar a diferença. Essa era a idéia desde os planos, quando foi pensada para ser uma musa.
A idéia de criá-la foi de um diretor num departamento literário de um desses complexos de entretenimento. Sua linha de trabalho não permitia que criasse uma única “estrela”. Mesmo com a mudança de foco cada vez mais acentuada dos escritos para o escritor, vender livros ainda não era a mesma coisa que vender um filme ou a mais nova banda de J-Pop. Ter a aparência e estar carregado dos memes corretos não adianta muita coisa quando a maior parte do trabalho é feita num quarto fechado.
As técnicas do engenheiros meméticos eram muito eficientes em criar hype, mas não funcionavam muito bem para escrever livros. Individualmente, cada uma das idéias circulava bastante. Só que a história não funcionava e isso era tão perceptível que os memes nem chegam a se multiplicar. Pior ainda: eles ganhavam – como são criados para fazer – vida própria e deixavam o livro para trás.
O tal diretor percebeu o que eles precisavam: um meme que atraísse escritores.
Na verdade, um único meme não iria funcionar. Depois dos cursos de escrita de ficção, normalmente vinculados aos de crítica literária, qualquer escritor que juntasse três sentenças direitinho era capaz de desmontar um único meme em segundos. Além disso, técnicas de defesa memética começaram a se tornar corriqueiras justamente entre o perfil de consumo dos escritores.
A solução para o problema era clássica: o Cavalo de Tróia. Os memes viriam embalados em algo indispensável. Nem foi preciso pesquisa de mercado para decidir qual seria o veículo.
Claro, as primeiras meninas levariam anos para ficar prontas – no mínimo uns 15, com tratamentos hormonais e tudo. Mas, se as coisas dessem certo, elas seriam as máquinas perfeitas para identificar escritores e poetas. Além, de um jeito ou outro, garantir suas fidelidades aos seus editores.
Em retrospecto, tudo foi muito mais simples do que deveria ter sido. Não foi mais complicado criar as dez meninas do que seria criar qualquer outro grupo de crianças. O isolamento relativo no qual elas cresceram ajudou, do mesmo modo que as técnicas roubadas do exército, e a seleção dos embriões com as características desejáveis evitou revoltas ou tentativas de fuga. Afinal, elas não sabiam muito bem o que era planejado para elas.
Neurolinguística. Técnicas de meditação. Etiqueta corporativa. Mensagens subliminares. Tantra. Semiótica. Modulação de voz. Dança. A dose certa de musculação. Os cuidados com a pele. As experiências certas nas ruas. As memórias implantadas de estupros e paixões não correspondidas. As doses certas de Sol. Futilidade planejada. A quantidade exata de atenção e indiferença...
Milhares de anos de pesquisa. Milhões de dólares em tecnologia. Tudo para criar uma tropa de meninas fofas.
Os coitados não tiveram nenhuma chance.
(continua)
em 07.08.02 - (com meus cumprimentos a Grant Morrison)
Achavam que era amor. Mas não passava de ficção científica. Não que se pudesse notar a diferença. Essa era a idéia desde os planos, quando foi pensada para ser uma musa.
A idéia de criá-la foi de um diretor num departamento literário de um desses complexos de entretenimento. Sua linha de trabalho não permitia que criasse uma única “estrela”. Mesmo com a mudança de foco cada vez mais acentuada dos escritos para o escritor, vender livros ainda não era a mesma coisa que vender um filme ou a mais nova banda de J-Pop. Ter a aparência e estar carregado dos memes corretos não adianta muita coisa quando a maior parte do trabalho é feita num quarto fechado.
As técnicas do engenheiros meméticos eram muito eficientes em criar hype, mas não funcionavam muito bem para escrever livros. Individualmente, cada uma das idéias circulava bastante. Só que a história não funcionava e isso era tão perceptível que os memes nem chegam a se multiplicar. Pior ainda: eles ganhavam – como são criados para fazer – vida própria e deixavam o livro para trás.
O tal diretor percebeu o que eles precisavam: um meme que atraísse escritores.
Na verdade, um único meme não iria funcionar. Depois dos cursos de escrita de ficção, normalmente vinculados aos de crítica literária, qualquer escritor que juntasse três sentenças direitinho era capaz de desmontar um único meme em segundos. Além disso, técnicas de defesa memética começaram a se tornar corriqueiras justamente entre o perfil de consumo dos escritores.
A solução para o problema era clássica: o Cavalo de Tróia. Os memes viriam embalados em algo indispensável. Nem foi preciso pesquisa de mercado para decidir qual seria o veículo.
Claro, as primeiras meninas levariam anos para ficar prontas – no mínimo uns 15, com tratamentos hormonais e tudo. Mas, se as coisas dessem certo, elas seriam as máquinas perfeitas para identificar escritores e poetas. Além, de um jeito ou outro, garantir suas fidelidades aos seus editores.
Em retrospecto, tudo foi muito mais simples do que deveria ter sido. Não foi mais complicado criar as dez meninas do que seria criar qualquer outro grupo de crianças. O isolamento relativo no qual elas cresceram ajudou, do mesmo modo que as técnicas roubadas do exército, e a seleção dos embriões com as características desejáveis evitou revoltas ou tentativas de fuga. Afinal, elas não sabiam muito bem o que era planejado para elas.
Neurolinguística. Técnicas de meditação. Etiqueta corporativa. Mensagens subliminares. Tantra. Semiótica. Modulação de voz. Dança. A dose certa de musculação. Os cuidados com a pele. As experiências certas nas ruas. As memórias implantadas de estupros e paixões não correspondidas. As doses certas de Sol. Futilidade planejada. A quantidade exata de atenção e indiferença...
Milhares de anos de pesquisa. Milhões de dólares em tecnologia. Tudo para criar uma tropa de meninas fofas.
Os coitados não tiveram nenhuma chance.
(continua)
5.8.02
Fragmento a ser encaixado em algum lugar
em 05.08.02
O problema em transformar biografia em ficção é que a realidade é muito mais recursiva que qualquer história. Cedo ou tarde, o autor se vê novamente em algo escrito por ele e, em lugar de viver o momento, pensa em revisar os escritos.
em 05.08.02
O problema em transformar biografia em ficção é que a realidade é muito mais recursiva que qualquer história. Cedo ou tarde, o autor se vê novamente em algo escrito por ele e, em lugar de viver o momento, pensa em revisar os escritos.
31.7.02
A Verdadeira Origem da Internet
em 31.07.02
Um dia um general se fez a seguinte pergunta:
-Se tiver uma guerra nuclear, vamos ficar presos aqui sem mulher. Não passará muito tempo e nossa pornografia estratégica será totalmente consumida pelo uso. Como podemos resolver esse problema?
O resto vocês já sabem.
em 31.07.02
Um dia um general se fez a seguinte pergunta:
-Se tiver uma guerra nuclear, vamos ficar presos aqui sem mulher. Não passará muito tempo e nossa pornografia estratégica será totalmente consumida pelo uso. Como podemos resolver esse problema?
O resto vocês já sabem.
19.7.02
Girls as a Memetic Infection I
em 26.06.02
“Você tem que esquecer essa mulher.”
Já estava cansado de ouvir a frase. Amigos, pais, conhecidos e amigas disponíveis e dispostas não cansavam de repetir o que ele já sabia. Mas não era só a repetição que incomodava. O fato é que esquecer a tal mulher não era nada simples.
Não era culpa dele, do seu comportamento obsessivo e muito menos de paixão. Era uma constatação simples e óbvia a respeito dela e do efeito que ela fora planejada para causar naquela fatia do mercado na qual ele se encaixava. Mais que uma pessoa, ela era um meme.
Chamá-la de meme era a maneira preferida dele falar sobre quem tirava seu sono por esses dias. Principalmente pela economia: grande parte do seu círculo já estava familiarizado com o termo e suas implicações. Cerca de metade das pessoas que diziam para ele sair, ver um filme, ficar com outra – enfim, pensar em outra coisa – balançavam a cabeça para o que acreditavam ser uma desculpa esfarrapada. Uns poucos, que acreditavam e não se interessavam por esses assuntos, misturavam pena à reprovação.
Outros – principalmente seus pais – debochavam da idéia. Perguntavam seguidamente o que é esse negócio de – “como é mesmo, meu filho?” – meme, preferencialmente naquelas reuniões familiares chatas a que era obrigado a comparecer. O chacoalhar de cabeças após as explicações era o mesmo, quase sempre seguido de algum comentário sobre como esses jovens ficam inventando nome novo para tudo.
Os poucos que sobravam eram seus preferidos. Eram aqueles que entendiam dessas coisas e faziam a pergunta que ele se coçava para ouvir: “como assim?”. Mesmo com a repulsa profunda que sentia por si mesmo ao se transformar num marionete das idéias que a construíram, era um prazer imenso falar sobre ela. Os participantes ligavam suas semióticas, estéticas, psicologias e teorias da percepção, enquanto em algum lugar um engenheiro memético gritava bingo.
Mesmo longe ela continuava se espalhando. Era uma obra-prima.
(continua)
em 26.06.02
“Você tem que esquecer essa mulher.”
Já estava cansado de ouvir a frase. Amigos, pais, conhecidos e amigas disponíveis e dispostas não cansavam de repetir o que ele já sabia. Mas não era só a repetição que incomodava. O fato é que esquecer a tal mulher não era nada simples.
Não era culpa dele, do seu comportamento obsessivo e muito menos de paixão. Era uma constatação simples e óbvia a respeito dela e do efeito que ela fora planejada para causar naquela fatia do mercado na qual ele se encaixava. Mais que uma pessoa, ela era um meme.
Chamá-la de meme era a maneira preferida dele falar sobre quem tirava seu sono por esses dias. Principalmente pela economia: grande parte do seu círculo já estava familiarizado com o termo e suas implicações. Cerca de metade das pessoas que diziam para ele sair, ver um filme, ficar com outra – enfim, pensar em outra coisa – balançavam a cabeça para o que acreditavam ser uma desculpa esfarrapada. Uns poucos, que acreditavam e não se interessavam por esses assuntos, misturavam pena à reprovação.
Outros – principalmente seus pais – debochavam da idéia. Perguntavam seguidamente o que é esse negócio de – “como é mesmo, meu filho?” – meme, preferencialmente naquelas reuniões familiares chatas a que era obrigado a comparecer. O chacoalhar de cabeças após as explicações era o mesmo, quase sempre seguido de algum comentário sobre como esses jovens ficam inventando nome novo para tudo.
Os poucos que sobravam eram seus preferidos. Eram aqueles que entendiam dessas coisas e faziam a pergunta que ele se coçava para ouvir: “como assim?”. Mesmo com a repulsa profunda que sentia por si mesmo ao se transformar num marionete das idéias que a construíram, era um prazer imenso falar sobre ela. Os participantes ligavam suas semióticas, estéticas, psicologias e teorias da percepção, enquanto em algum lugar um engenheiro memético gritava bingo.
Mesmo longe ela continuava se espalhando. Era uma obra-prima.
(continua)
Diálogo Recursivo I
em 19.07.02, com desculpas a todos os envolvidos
- Nem tudo é biografia, sabia?
- Como se nada fosse...
- Muito pouco é. E nunca é a melhor parte. As coisas interessantes são interessantes de serem vividas, não necessariamente narradas. Soam clichê, remix, dèjá vu...
- Você não fala de outra coisa a não ser de nós. Mesmo quando não fala de nós, está falando. Está lá: mas elipses, na frase quase dita.
- Eu não falo de nada além de mim. Você é ocasional. E você deveria me conhecer melhor. Você sabe o que está acontecendo. Sempre sabe. Ou eu pelo menos espero que saiba. Sou muito claro e óbvio para você. Ou me sinto assim, pelo menos.
- Há muito tempo você não é claro para mim. Queria que ainda fosse.
- Eu não. Detesto a sensação de estar em suas mãos. Queria que você ainda entendesse, mas gosto de sua incerteza. Da simetria.
- É difícil não ler aquilo que você escreve como biografia. É estranho aceitar que as histórias vêm do nada.
- Não vêm do nada. Vêm de outras histórias, de idéias que circulam, das frases que ouvi.
- E por que todas elas se parecem? Por que todas me dizem algo sobre você?
- Porque eu escrevo sobre mim, de uma ou outra forma. Biografia é a menor das preocupações. Você já devia saber que o importante é o imaginário, não os correlativos objetivos. Os eventos que aconteceram ou deixaram de acontecer são só circunstanciais.
- E como vou saber quando são só idéias ou ser algo realmente aconteceu?
- Basta perguntar.
- Isto aqui aconteceu?
- Mais ou menos. Quem se importa? Agora é ficção. Nem eu, nem você, nem ninguém participou desta conversa.
em 19.07.02, com desculpas a todos os envolvidos
- Nem tudo é biografia, sabia?
- Como se nada fosse...
- Muito pouco é. E nunca é a melhor parte. As coisas interessantes são interessantes de serem vividas, não necessariamente narradas. Soam clichê, remix, dèjá vu...
- Você não fala de outra coisa a não ser de nós. Mesmo quando não fala de nós, está falando. Está lá: mas elipses, na frase quase dita.
- Eu não falo de nada além de mim. Você é ocasional. E você deveria me conhecer melhor. Você sabe o que está acontecendo. Sempre sabe. Ou eu pelo menos espero que saiba. Sou muito claro e óbvio para você. Ou me sinto assim, pelo menos.
- Há muito tempo você não é claro para mim. Queria que ainda fosse.
- Eu não. Detesto a sensação de estar em suas mãos. Queria que você ainda entendesse, mas gosto de sua incerteza. Da simetria.
- É difícil não ler aquilo que você escreve como biografia. É estranho aceitar que as histórias vêm do nada.
- Não vêm do nada. Vêm de outras histórias, de idéias que circulam, das frases que ouvi.
- E por que todas elas se parecem? Por que todas me dizem algo sobre você?
- Porque eu escrevo sobre mim, de uma ou outra forma. Biografia é a menor das preocupações. Você já devia saber que o importante é o imaginário, não os correlativos objetivos. Os eventos que aconteceram ou deixaram de acontecer são só circunstanciais.
- E como vou saber quando são só idéias ou ser algo realmente aconteceu?
- Basta perguntar.
- Isto aqui aconteceu?
- Mais ou menos. Quem se importa? Agora é ficção. Nem eu, nem você, nem ninguém participou desta conversa.
Álcool
em 23.10.01
Era o momento de decidir como enfrentaria a crise que se apresentava. Uma crise menor - já havia passado por outras bem mais graves antes e sabia disso -, mas uma crise de qualquer modo. E era ali, na frente da cristaleira cheia de bebidas que tinha que decidir como lidaria com os eventos recentes. Uísque ou vinho?
A decisão mais importante já havia sido tomada. Na verdade, nem era uma decisão. Era mais um hábito: se embebedar era quase uma obrigação após cada decepção amorosa. A questão era que tipo de bebida tomar. Isso determinava todo o resto.
A avaliação era feita a partir de uma série de variáveis mais ou menos objetivas que incluíam desde o estoque de bebidas no bar até o que realmente acreditava que sentia pela decepção em questão.
Para o caso em questão, inicialmente, pensou em beber martinis - que queriam dizer que ele ligaria para um daqueles interesses recorrentes e em recorrentes suspensões, procurando se consolar e fazendo de conta que as semanas anteriores não importavam nada. A trilha sonora seria cool jazz. Desistiu ao perceber que a vodka na garrafa não daria para mais que um drink e teria que mudar tudo - sentimentos, músicas e roupas - ou sair para comprar mais. Ambas as idéias pareciam igualmente repugnantes.
As escolhas, então se reduziam a duas: Uísque ou vinho?
em 23.10.01
Era o momento de decidir como enfrentaria a crise que se apresentava. Uma crise menor - já havia passado por outras bem mais graves antes e sabia disso -, mas uma crise de qualquer modo. E era ali, na frente da cristaleira cheia de bebidas que tinha que decidir como lidaria com os eventos recentes. Uísque ou vinho?
A decisão mais importante já havia sido tomada. Na verdade, nem era uma decisão. Era mais um hábito: se embebedar era quase uma obrigação após cada decepção amorosa. A questão era que tipo de bebida tomar. Isso determinava todo o resto.
A avaliação era feita a partir de uma série de variáveis mais ou menos objetivas que incluíam desde o estoque de bebidas no bar até o que realmente acreditava que sentia pela decepção em questão.
Para o caso em questão, inicialmente, pensou em beber martinis - que queriam dizer que ele ligaria para um daqueles interesses recorrentes e em recorrentes suspensões, procurando se consolar e fazendo de conta que as semanas anteriores não importavam nada. A trilha sonora seria cool jazz. Desistiu ao perceber que a vodka na garrafa não daria para mais que um drink e teria que mudar tudo - sentimentos, músicas e roupas - ou sair para comprar mais. Ambas as idéias pareciam igualmente repugnantes.
As escolhas, então se reduziam a duas: Uísque ou vinho?
13.7.02
11.7.02
Pulp Hack III
em 03.07.02
Encarando a fotografia emoldurada, percebeu que a culpa por não ser pulp era dela. Não da foto, mas na mulher nela. Pelo menos nisso era noir: a culpa de sua desgraça era de uma mulher. Nada mais apropriado que ela ser sua namorada e amor da sua vida no momento. Era culpada, mas não o suficiente.
Ela era linda, o escritor tinha que admitir dando uma tragada mais profunda nos cigarros caros cigarros baratos corretos e preparava-se para outra dose de autopiedade. Mais que linda, ele acredita que ela era perfeita, mas não do jeito certo. Depois de muitos erros, tinha finalmente acertado. Pelo menos era nisso que queria acreditar, examinando de longe a pilha de cadernos baratos cheios de poemas e letras e músicas da pomposa dor adolescente que ele relutantemente deixava para trás.
Olhando os cadernos e pensando na tranqüilidade que ela causava, se perguntava por que as coisas tinham que dar tão certo agora. Precisava de uma desilusão adolescente, de uma paixão sem parâmetros. Daquelas que duram as três semanas que precisaria para escrever um romance. De preferência envolvendo uma loira macia, alcoólica, com algum plano secreto incompreensível, mas que sem dúvida nenhuma envolve você e alguma vingança. Ou aquele outro tipo clássico, lânguida, pálida e frágil, mas que domina todos os homens ao redor sem fazer muito esforço.
Era de uma dessas que o escritor precisava para ser pulp. Uma mulher que causasse agonia e infelicidade. Ele precisava ser misógino - palavra que só Marlowe, entre todos os detetives, conheceria. E não importava quanto whisky barato bebesse, não ia conseguir isso. Abaixo dos trópicos, o ódio às mulheres vinha com pinga, desemprego e sinuca. E desses nenhum combinava com o noir que precisava escrever.
Claro, podia mudar dali. Deixar a mulher que atrapalhava sua infelicidade para trás. Ir para uma cidade mais urbana, mais plana e com o mais sujo. Mas - tanto quanto o medo de ficar sem ela - eram as dúvidas se isso funcionaria. Claro, beberia muito - até gim, quem sabe - mas sabia que a ausência dela seria uma mudança de foco. Ele precisava temer uma mulher, odiá-la ao mesmo tempo que a desejasse. Tinha certeza que dela só sentiria saudades.
E nem a pau iria voltar para aquela choradeira indie.
em 03.07.02
Encarando a fotografia emoldurada, percebeu que a culpa por não ser pulp era dela. Não da foto, mas na mulher nela. Pelo menos nisso era noir: a culpa de sua desgraça era de uma mulher. Nada mais apropriado que ela ser sua namorada e amor da sua vida no momento. Era culpada, mas não o suficiente.
Ela era linda, o escritor tinha que admitir dando uma tragada mais profunda nos cigarros caros cigarros baratos corretos e preparava-se para outra dose de autopiedade. Mais que linda, ele acredita que ela era perfeita, mas não do jeito certo. Depois de muitos erros, tinha finalmente acertado. Pelo menos era nisso que queria acreditar, examinando de longe a pilha de cadernos baratos cheios de poemas e letras e músicas da pomposa dor adolescente que ele relutantemente deixava para trás.
Olhando os cadernos e pensando na tranqüilidade que ela causava, se perguntava por que as coisas tinham que dar tão certo agora. Precisava de uma desilusão adolescente, de uma paixão sem parâmetros. Daquelas que duram as três semanas que precisaria para escrever um romance. De preferência envolvendo uma loira macia, alcoólica, com algum plano secreto incompreensível, mas que sem dúvida nenhuma envolve você e alguma vingança. Ou aquele outro tipo clássico, lânguida, pálida e frágil, mas que domina todos os homens ao redor sem fazer muito esforço.
Era de uma dessas que o escritor precisava para ser pulp. Uma mulher que causasse agonia e infelicidade. Ele precisava ser misógino - palavra que só Marlowe, entre todos os detetives, conheceria. E não importava quanto whisky barato bebesse, não ia conseguir isso. Abaixo dos trópicos, o ódio às mulheres vinha com pinga, desemprego e sinuca. E desses nenhum combinava com o noir que precisava escrever.
Claro, podia mudar dali. Deixar a mulher que atrapalhava sua infelicidade para trás. Ir para uma cidade mais urbana, mais plana e com o mais sujo. Mas - tanto quanto o medo de ficar sem ela - eram as dúvidas se isso funcionaria. Claro, beberia muito - até gim, quem sabe - mas sabia que a ausência dela seria uma mudança de foco. Ele precisava temer uma mulher, odiá-la ao mesmo tempo que a desejasse. Tinha certeza que dela só sentiria saudades.
E nem a pau iria voltar para aquela choradeira indie.
10.7.02
Luto
em 06.06.02
“Agora que tudo começa.” Era só isso que conseguia pensar ao chegar na casa mais vazia que o habitual. Depois de tudo feito, todas as providências tomadas, o instante em que abriu a porta e não sentiu nenhum movimento lá dentro. Ali tudo começou a pesar.
Não sabia por que voltara para lá. Não entendia por que não ia embora. Uma esperança vaga que não fosse tão difícil quanto sabia que seria, uma ilusão de que ainda estaria ali. Ilusões que se desfizeram ao abrir a porta.
Estava acostumado a ficar sozinho, ao silêncio. Passava dias sem falar com ela. Não tinha motivos: a vida passava sem acontecimentos. Mas sabia que ela estaria ali quando algo acontecesse, quando tivesse uma história para contar, ou precisasse de um olhar de carinho ou reprovação.
Mas transformaram tudo em impossibilidade.
em 06.06.02
“Agora que tudo começa.” Era só isso que conseguia pensar ao chegar na casa mais vazia que o habitual. Depois de tudo feito, todas as providências tomadas, o instante em que abriu a porta e não sentiu nenhum movimento lá dentro. Ali tudo começou a pesar.
Não sabia por que voltara para lá. Não entendia por que não ia embora. Uma esperança vaga que não fosse tão difícil quanto sabia que seria, uma ilusão de que ainda estaria ali. Ilusões que se desfizeram ao abrir a porta.
Estava acostumado a ficar sozinho, ao silêncio. Passava dias sem falar com ela. Não tinha motivos: a vida passava sem acontecimentos. Mas sabia que ela estaria ali quando algo acontecesse, quando tivesse uma história para contar, ou precisasse de um olhar de carinho ou reprovação.
Mas transformaram tudo em impossibilidade.
4.7.02
Pulp Hack II
em 01.07.02
O escritor pensava, enquanto tentava se levantar, em como era difícil conciliar seus desejos e gêneros literários. Queria ser pulp, não tinha dúvidas disso, mas faltava a inspiração adequada. Claro, tinha a cidade sórdida e corrupta à vista sob sua varanda, mas não se sentia tocado pela sordidez. E não era só pela altura do apartamento ou dos muros que o cercavam. Podia ver a cidade nua, mas como um voyer, Nunca com um participante. Claro que foi isso que o tornou um escritor, em primeiro lugar.
"Não é assim que deve ser", concluía, enquanto cuspia os restos na boca nos menos afortunados na calçada. Sua relação com as distâncias eram complicadas. Tentava colocar espaços entre ele e tudo aquilo que escrevia, ao mesmo tempo que se esforçava para abraçar os simulacros absurdos que construía ao seu redor. Afinal, sua cidade não era nem Los Angeles nem Nova York. Não tinha nem de longe o estilo necessário: ninguém nesse buraco tomava martinis ou bourbons. E noir com cachaça não dá.
Mas seu maior problema era de outra natureza.
Queria ser pulp, queria ser barato, mas mesmo com a cabeça martelando na ressaca e os dedos doloridos da máquina de escrever, não conseguia se sentir assim. Perdido sua reencenação de Pierre Mainard, não conseguia entender as razões enquanto vasculhava suas estantes. Tudo que deveria ler estava lá, devidamente lido. Todos os escritores que sobreviveram, todos os escritores que eles leram. Até os livros com cada fotograma de Casablanca e O Falcão Maltês. Mas faltava alguma coisa que não conseguia determinar.
Foi ao acender o primeiro cigarro, sentando em frente à máquina, que percebeu a fotografia sobre a mesa.
em 01.07.02
O escritor pensava, enquanto tentava se levantar, em como era difícil conciliar seus desejos e gêneros literários. Queria ser pulp, não tinha dúvidas disso, mas faltava a inspiração adequada. Claro, tinha a cidade sórdida e corrupta à vista sob sua varanda, mas não se sentia tocado pela sordidez. E não era só pela altura do apartamento ou dos muros que o cercavam. Podia ver a cidade nua, mas como um voyer, Nunca com um participante. Claro que foi isso que o tornou um escritor, em primeiro lugar.
"Não é assim que deve ser", concluía, enquanto cuspia os restos na boca nos menos afortunados na calçada. Sua relação com as distâncias eram complicadas. Tentava colocar espaços entre ele e tudo aquilo que escrevia, ao mesmo tempo que se esforçava para abraçar os simulacros absurdos que construía ao seu redor. Afinal, sua cidade não era nem Los Angeles nem Nova York. Não tinha nem de longe o estilo necessário: ninguém nesse buraco tomava martinis ou bourbons. E noir com cachaça não dá.
Mas seu maior problema era de outra natureza.
Queria ser pulp, queria ser barato, mas mesmo com a cabeça martelando na ressaca e os dedos doloridos da máquina de escrever, não conseguia se sentir assim. Perdido sua reencenação de Pierre Mainard, não conseguia entender as razões enquanto vasculhava suas estantes. Tudo que deveria ler estava lá, devidamente lido. Todos os escritores que sobreviveram, todos os escritores que eles leram. Até os livros com cada fotograma de Casablanca e O Falcão Maltês. Mas faltava alguma coisa que não conseguia determinar.
Foi ao acender o primeiro cigarro, sentando em frente à máquina, que percebeu a fotografia sobre a mesa.
29.6.02
Parábola II
Em 29.06.02
Quando os animais ainda se dignavam a falar com os homens, um monge ouviu do tubarão o segredo para a felicidade. "Nunca pare de nadar. Assim será forte." Percebendo quão sábio era o conselho do peixe, decidiu que não dormiria duas noites em uma mesma cama. E pôs-se a andar.
Passou por muitos lugares, não se afetando por climas ou pessoas, até que seu caminho o levou a uma caverna. Percebendo que não havia outro caminho a não ser aquele já trilhado, ele decidiu explorá-la.
A caverna parecia não ter fim. Se estendia para sempre em profundidade, complexidade e beleza. Passou anos ali, cumprindo seu voto ao mesmo tempo criava um lar. Até que percebeu-se envolvido num canto vago que o chamava para fora da caverna.
Sabendo que ainda tinha muito a explorar e tentando ignorar as belezas da caverna, saiu. E viu as estrelas que tanto sentia falta. Examinou cada constelação até que o sol as expulsou do céu.
Pôs-se a andar de volta para a entrada da caverna. Parou, atingido pela idéia de que dormiria nos mesmos lugares de antes. E concluiu que não poderia mapear a caverna que tanto amava até que conseguisse ignorar o canto das estrelas.
E amaldiçoou sua dualidade.
Em 29.06.02
Quando os animais ainda se dignavam a falar com os homens, um monge ouviu do tubarão o segredo para a felicidade. "Nunca pare de nadar. Assim será forte." Percebendo quão sábio era o conselho do peixe, decidiu que não dormiria duas noites em uma mesma cama. E pôs-se a andar.
Passou por muitos lugares, não se afetando por climas ou pessoas, até que seu caminho o levou a uma caverna. Percebendo que não havia outro caminho a não ser aquele já trilhado, ele decidiu explorá-la.
A caverna parecia não ter fim. Se estendia para sempre em profundidade, complexidade e beleza. Passou anos ali, cumprindo seu voto ao mesmo tempo criava um lar. Até que percebeu-se envolvido num canto vago que o chamava para fora da caverna.
Sabendo que ainda tinha muito a explorar e tentando ignorar as belezas da caverna, saiu. E viu as estrelas que tanto sentia falta. Examinou cada constelação até que o sol as expulsou do céu.
Pôs-se a andar de volta para a entrada da caverna. Parou, atingido pela idéia de que dormiria nos mesmos lugares de antes. E concluiu que não poderia mapear a caverna que tanto amava até que conseguisse ignorar o canto das estrelas.
E amaldiçoou sua dualidade.
9.6.02
Ela nos Livros
em 02.06.02
A ausência dela está por todos os lugares. Nos espaços que ela deveria ocupar e na maior parte daqueles onde não esperava sentir a falta. Quase todos os espaços. Inclusive meus livros.
Nada mais natural. Nos cinco anos de convivência – mais ou menos intensa – os livros foram uma parte importante.
Desde minhas primeiras tentativas de aproximação (me escondendo por trás de histórias em quadrinhos), passando pela maioria dos meus presentes, diversos livros desempenharam um papel significativo. Uma forma de chegar mais perto, de dizer algo ou simplesmente um motivo para ligar quando motivos para ligar eram importantes.
A presença dela não está só nos livros que ela me deu, ou nas dedicatórias. Ela se espalha por quase todos. As marcas estão no livro que ela leu ao meu lado enquanto eu dormia durante um fim de semana especialmente tranqüilo. No livro que ela achou estranho que eu comprasse. Naquele – emprestado – que deixei na casa dela junto com uma flor. No que comprei para lermos juntos e sequer abrimos...
Mais que os filmes, mais até que as músicas. Cada livro mais triste para mim pela distância dela. E todos melhores por ela ter estado aqui.
em 02.06.02
A ausência dela está por todos os lugares. Nos espaços que ela deveria ocupar e na maior parte daqueles onde não esperava sentir a falta. Quase todos os espaços. Inclusive meus livros.
Nada mais natural. Nos cinco anos de convivência – mais ou menos intensa – os livros foram uma parte importante.
Desde minhas primeiras tentativas de aproximação (me escondendo por trás de histórias em quadrinhos), passando pela maioria dos meus presentes, diversos livros desempenharam um papel significativo. Uma forma de chegar mais perto, de dizer algo ou simplesmente um motivo para ligar quando motivos para ligar eram importantes.
A presença dela não está só nos livros que ela me deu, ou nas dedicatórias. Ela se espalha por quase todos. As marcas estão no livro que ela leu ao meu lado enquanto eu dormia durante um fim de semana especialmente tranqüilo. No livro que ela achou estranho que eu comprasse. Naquele – emprestado – que deixei na casa dela junto com uma flor. No que comprei para lermos juntos e sequer abrimos...
Mais que os filmes, mais até que as músicas. Cada livro mais triste para mim pela distância dela. E todos melhores por ela ter estado aqui.
28.5.02
21.5.02
8.5.02
Formatura
em 08.05.02
- Então é isso.
Ela não conseguia pensar em mais nada enquanto passeava pelos corredores do prédio quase vazio. Se procurasse um pouco mais, chegaria à conclusão que o que pensava de fato é "e agora?", mas escondia o medo do futuro em uma falsa saudade.
Na verdade, se importava muito pouco com o prédio, as pessoas ali ou os anos que passou lá. Sempre pensou naquele tempo ali como uma mistura de prisão e ferramenta para seus vôos futuros. E só. Não era nada simpático de admitir, então fazia de conta que ia sentir alguma falta de lá.
O pior é que, passando pelas pessoas que nunca julgou significantes, começava mesmo a sentir saudades. Não delas - ou das poucas que chegaram a ganhar nomes - mas da proteção do lugar. De saber que era melhor que os outros, de saber o lugar que estava na cadeia alimentar através da qual teimava em entender o mundo.
Passou tempo demais pensando em escapar para traçar algum plano. Agora se sentia desprotegida, desorientada e vazia.
O pior é que só conseguia pensar em uma saída: o mestrado.
em 08.05.02
- Então é isso.
Ela não conseguia pensar em mais nada enquanto passeava pelos corredores do prédio quase vazio. Se procurasse um pouco mais, chegaria à conclusão que o que pensava de fato é "e agora?", mas escondia o medo do futuro em uma falsa saudade.
Na verdade, se importava muito pouco com o prédio, as pessoas ali ou os anos que passou lá. Sempre pensou naquele tempo ali como uma mistura de prisão e ferramenta para seus vôos futuros. E só. Não era nada simpático de admitir, então fazia de conta que ia sentir alguma falta de lá.
O pior é que, passando pelas pessoas que nunca julgou significantes, começava mesmo a sentir saudades. Não delas - ou das poucas que chegaram a ganhar nomes - mas da proteção do lugar. De saber que era melhor que os outros, de saber o lugar que estava na cadeia alimentar através da qual teimava em entender o mundo.
Passou tempo demais pensando em escapar para traçar algum plano. Agora se sentia desprotegida, desorientada e vazia.
O pior é que só conseguia pensar em uma saída: o mestrado.
30.4.02
Gentileza sob o Sol
30.04.02
Não consigo me livrar de você sob o sol. Por mais que tente, você contra o carro, o ar de desolação, o olhar no nada persistem. São a marca de um jogo encerrado. Ou outro – muito menos agradável – que começa. Você brilhando ao sol marcou o início do pior dos jogos: gentileza.
Sei que não era para mim que você estava lá. Que não era nenhum comunicado de fatos, mas a simples constatação de um estado em especial, sem se importar com quem assistia. Desolação ou vertigem, a razão não era importante. Mas era algo que não deveria ter visto.
Sabia que – de todos – era o único proibido de me aproximar. As regras da gentileza são muito claras, apesar de impossíveis de serem seguidas. Sufocar a curiosidade, ignorar a humanidade, tentar me desfazer do carinho. Fingir desprezar sua imagem sob o sol.
Tudo em nome do bom tom, do correto: das regras da gentileza.
30.04.02
Não consigo me livrar de você sob o sol. Por mais que tente, você contra o carro, o ar de desolação, o olhar no nada persistem. São a marca de um jogo encerrado. Ou outro – muito menos agradável – que começa. Você brilhando ao sol marcou o início do pior dos jogos: gentileza.
Sei que não era para mim que você estava lá. Que não era nenhum comunicado de fatos, mas a simples constatação de um estado em especial, sem se importar com quem assistia. Desolação ou vertigem, a razão não era importante. Mas era algo que não deveria ter visto.
Sabia que – de todos – era o único proibido de me aproximar. As regras da gentileza são muito claras, apesar de impossíveis de serem seguidas. Sufocar a curiosidade, ignorar a humanidade, tentar me desfazer do carinho. Fingir desprezar sua imagem sob o sol.
Tudo em nome do bom tom, do correto: das regras da gentileza.
15.4.02
Parábola I
Em 15.04.02
Há muito, Chuang Tzu tinha um discípulo que procurava no corpo a chave do espírito e na luta o caminho da paz. Ele sabia que estaria pronto quando fosse capaz de, com um golpe do seu punho, parar por um momento todo o rio Amarelo.
Chuang Tzu só permitiu a ele uma chance de tentar, pois sabia que o mundo não pode ser a vítima da vaidade do homem.
Depois de anos, o discípulo foi até o mestre, dizendo estar pronto para o teste. O mestre assentiu: ele estava pronto.
O discípulo andou até a margem do rio e desferiu seu golpe.
Nada. Era como se o golpe nunca tivesse sido recebido.
O discípulo foi até Chuang Tzu, sabendo que havia desperdiçado toda a sua vida. "Mas o senhor não julgou que eu estava pronto, mestre", foi a pergunta.
"Estar pronto não significa vencer," disse Chuang Tzu.
Em 15.04.02
Há muito, Chuang Tzu tinha um discípulo que procurava no corpo a chave do espírito e na luta o caminho da paz. Ele sabia que estaria pronto quando fosse capaz de, com um golpe do seu punho, parar por um momento todo o rio Amarelo.
Chuang Tzu só permitiu a ele uma chance de tentar, pois sabia que o mundo não pode ser a vítima da vaidade do homem.
Depois de anos, o discípulo foi até o mestre, dizendo estar pronto para o teste. O mestre assentiu: ele estava pronto.
O discípulo andou até a margem do rio e desferiu seu golpe.
Nada. Era como se o golpe nunca tivesse sido recebido.
O discípulo foi até Chuang Tzu, sabendo que havia desperdiçado toda a sua vida. "Mas o senhor não julgou que eu estava pronto, mestre", foi a pergunta.
"Estar pronto não significa vencer," disse Chuang Tzu.
11.4.02
Reciprocidade
Em 11.04.02
Tudo que eu queria era reciprocidade.
De qualquer tipo, de todos os tipos. Claro que, inicialmente, dos sentimentos positivos. Reciprocidade de curiosidades, de olhares, de interesses. A ansiedade pelo momento em que ele me olharia como há tempos eu já o via em segredo. O processo lento de torná-lo meu, até que ele achasse que se apaixonou por mim – pela simplicidade sem sentido que ele teima em enxergar – e se aproximasse.
Foi assim que, por um tempo, aconteceu. Ele acreditou que tinha encontrado sua história simples : “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. A história que ele tanto repetia para mim, como um elogio. Ele nunca soube, mas me ofendia a cada vez que ele repetia o slogan. “Nada demais”, dizia, no fim das contas.
Mas era recíproco. Ele me amava e era suficiente. Por todas as razões erradas, mas era o suficiente. Ele me amava por ficar quieta, por não entender, por cozinhar e mil outras coisa. Mas, mais que tudo, por deixá-lo em paz. Por não ser ela.
Hoje penso se não fiz e enxerguei tudo errado nele. Sempre busquei reciprocidade, manter os dois sem dívidas entre nós, sem raivas, sem nada que pudesse desfazer o equilíbrio. Demorei tempo demais para descobrir que ele não funciona assim. Que ninguém além de mim funciona assim. Quando percebi que estávamos perto demais de só existir indiferença, acabei com um saldo que acabou com tudo. Não consegui não sentir nada por ele.
Mesmo agora, quando não há mais nada, continuo sentindo coisas demais por ele. Raiva, saudades, pena... Até amor. E nada. Nenhuma reciprocidade.
Nem no telefone.
Em 11.04.02
Tudo que eu queria era reciprocidade.
De qualquer tipo, de todos os tipos. Claro que, inicialmente, dos sentimentos positivos. Reciprocidade de curiosidades, de olhares, de interesses. A ansiedade pelo momento em que ele me olharia como há tempos eu já o via em segredo. O processo lento de torná-lo meu, até que ele achasse que se apaixonou por mim – pela simplicidade sem sentido que ele teima em enxergar – e se aproximasse.
Foi assim que, por um tempo, aconteceu. Ele acreditou que tinha encontrado sua história simples : “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. A história que ele tanto repetia para mim, como um elogio. Ele nunca soube, mas me ofendia a cada vez que ele repetia o slogan. “Nada demais”, dizia, no fim das contas.
Mas era recíproco. Ele me amava e era suficiente. Por todas as razões erradas, mas era o suficiente. Ele me amava por ficar quieta, por não entender, por cozinhar e mil outras coisa. Mas, mais que tudo, por deixá-lo em paz. Por não ser ela.
Hoje penso se não fiz e enxerguei tudo errado nele. Sempre busquei reciprocidade, manter os dois sem dívidas entre nós, sem raivas, sem nada que pudesse desfazer o equilíbrio. Demorei tempo demais para descobrir que ele não funciona assim. Que ninguém além de mim funciona assim. Quando percebi que estávamos perto demais de só existir indiferença, acabei com um saldo que acabou com tudo. Não consegui não sentir nada por ele.
Mesmo agora, quando não há mais nada, continuo sentindo coisas demais por ele. Raiva, saudades, pena... Até amor. E nada. Nenhuma reciprocidade.
Nem no telefone.
3.4.02
Pulp Hack
Barato, barato. Como um romance de banca. Muito barato. Sujo e sujando os dedos, como todas as coisas que vendiam nas bancas de revista da cidade. Como a própria cidade. Era assim que o escritor queria se sentir, martelando na máquina de escrever. Nada de computadores. Computadores são limpos como hospitais, frios como a noite e várias outras metáforas que ele ficava tentando se convencer que eram verdadeiras enquanto os dedos doíam, nas pancadas fortes para compensar a fita gasta.
As coisas se complicavam ao se somar o whisky que teimava em beber para parecer mais barato. A bebida travava em sua garganta e dava trabalho de botar na garrafinha de metal, mas era isso que seus heróis dentro e fora dos livros bebiam e diziam beber. Não importava o preço. Pagaria o quanto fosse necessário pela bebida barata como as putas que ele pensava de modo meio distante em contratar algum dia. Já tinha até feito as contas. As putas baratas corretas iam custar ainda mais caro que a bebida barata correta. O vestido anos 40, o chapéu e os cigarros sem dúvida seriam cobrados como um fetiche.
Bebia, bebia e martelava na máquina. Tentava escorrer a consciência como o sangue e as metáforas baratas nas ruas da cidade nua. Mas não conseguia desligar suas neuroses pós-industriais. E o calor, que o fazia suar como um dedo-duro dentro da cadeia, como devia suar na Califórnia.
Martelava, prendia os dedos e dava ânsias a cada gole, mas não conseguia ser pulp. Era impossível ser barato. Conseguiu se escorar até o banheiro, se desviando das luzes que colocou pelo caminho para conseguir a iluminação correta. Vomitou e desmaiou ao lado da privada, sabendo que nunca seria pulp. No mínimo um Raymond Chandler.
E teria que viver com isso.
Barato, barato. Como um romance de banca. Muito barato. Sujo e sujando os dedos, como todas as coisas que vendiam nas bancas de revista da cidade. Como a própria cidade. Era assim que o escritor queria se sentir, martelando na máquina de escrever. Nada de computadores. Computadores são limpos como hospitais, frios como a noite e várias outras metáforas que ele ficava tentando se convencer que eram verdadeiras enquanto os dedos doíam, nas pancadas fortes para compensar a fita gasta.
As coisas se complicavam ao se somar o whisky que teimava em beber para parecer mais barato. A bebida travava em sua garganta e dava trabalho de botar na garrafinha de metal, mas era isso que seus heróis dentro e fora dos livros bebiam e diziam beber. Não importava o preço. Pagaria o quanto fosse necessário pela bebida barata como as putas que ele pensava de modo meio distante em contratar algum dia. Já tinha até feito as contas. As putas baratas corretas iam custar ainda mais caro que a bebida barata correta. O vestido anos 40, o chapéu e os cigarros sem dúvida seriam cobrados como um fetiche.
Bebia, bebia e martelava na máquina. Tentava escorrer a consciência como o sangue e as metáforas baratas nas ruas da cidade nua. Mas não conseguia desligar suas neuroses pós-industriais. E o calor, que o fazia suar como um dedo-duro dentro da cadeia, como devia suar na Califórnia.
Martelava, prendia os dedos e dava ânsias a cada gole, mas não conseguia ser pulp. Era impossível ser barato. Conseguiu se escorar até o banheiro, se desviando das luzes que colocou pelo caminho para conseguir a iluminação correta. Vomitou e desmaiou ao lado da privada, sabendo que nunca seria pulp. No mínimo um Raymond Chandler.
E teria que viver com isso.
16.3.02
Perfeição
em 16.03.02
Eu queria perfeição.
Procurei tanto por perfeição, alguém sem excessos ou faltas. Para isso. O pior é que desta vez eu achei mesmo que havia encontrado perfeição. Ou, melhor, que experimentaria - possuiria - perfeição. E não posso reclamar que foi mais um engano. É a primeira vez que me decepciono assim. Um sentimento novo, pelo menos. Como se eu precisasse.
A idéia de perfeição sempre foi algo maior que uma preocupação. Ou foi minha principal preocupação. Desde que posso me lembrar, as fotos nas revistas de moda, nas propagandas de produtos de beleza, nas pinturas renascentistas... Tudo isso me causava uma angústia profunda. Estava certo que nunca me encontraria com aquela perfeição. Até porque nunca me iludi a respeito dos poderes de maquiagens e uma boa iluminação. Mesmo assim nunca me livrei da idéia de experimentar a perfeição. Não para mim, claro, mas em alguém. As pessoas perfeitas não são necessariamente as mais interessantes, pelo pouco que pude perceber nas poucas que conheci. Minhas imperfeições realçam meu caráter.
"Pessoas", como se fosse isso que me interessasse. É idiotice minha tentar me enganar, é de corpos que estou falando. A casca, a embalagem perfeita. Não é tão fácil de encontrar quanto parece à primeira vista. Corpos incluem rostos, vozes, posturas, maneiras de falar, tons, roupas. Variáveis demais para serem conseguidas em academias e caras demais para mesas de operações. A maioria das pessoas não quer perfeição, harmonia - mas o nariz da novela, a barriga da revista, as roupas da moda.
Na maioria das outras poucas vezes que encontrei pessoas perfeitas - e minha profissão se presta a isso - elas tinham um defeito que prejudicava suas posturas e vozes. Elas sabiam que eram perfeitas. Falavam alto demais, ou naquela voz pateticamente arroucada de quem quer seduzir todos ao redor, ficavam com o nariz empinado, atrapalhando a posição natural dos músculos faciais perfeitos. Claro, encontrei uma ou duas outras perfeições, mas elas não demonstraram interesse em minhas propostas veladas.
Até hoje não tinha encontrado a perfeição ideal - ignorante de si e disposta. Quando a encontrei, sabia que seria minha melhor chance, mesmo que levasse - como levou - tempo. Claro, a pele não era do tom ideal, mas era absurdamente bem feita e uniforme. Como vinil, o contraste ideal. E o tato correspondia.
Eu odeio saber que o toque final que me permitiu experimentá-la foi o que trincou sua perfeição. O braço machucado estava errado, algo que contaminou a pele de todo o corpo. Me preocupei mais em não encontrar outro daqueles que em sentir.
Claro que agora posso contar com replays, mas replays disso. Não há mais a possibilidade de perfeição aqui.
E eu queria só perfeição.
em 16.03.02
Eu queria perfeição.
Procurei tanto por perfeição, alguém sem excessos ou faltas. Para isso. O pior é que desta vez eu achei mesmo que havia encontrado perfeição. Ou, melhor, que experimentaria - possuiria - perfeição. E não posso reclamar que foi mais um engano. É a primeira vez que me decepciono assim. Um sentimento novo, pelo menos. Como se eu precisasse.
A idéia de perfeição sempre foi algo maior que uma preocupação. Ou foi minha principal preocupação. Desde que posso me lembrar, as fotos nas revistas de moda, nas propagandas de produtos de beleza, nas pinturas renascentistas... Tudo isso me causava uma angústia profunda. Estava certo que nunca me encontraria com aquela perfeição. Até porque nunca me iludi a respeito dos poderes de maquiagens e uma boa iluminação. Mesmo assim nunca me livrei da idéia de experimentar a perfeição. Não para mim, claro, mas em alguém. As pessoas perfeitas não são necessariamente as mais interessantes, pelo pouco que pude perceber nas poucas que conheci. Minhas imperfeições realçam meu caráter.
"Pessoas", como se fosse isso que me interessasse. É idiotice minha tentar me enganar, é de corpos que estou falando. A casca, a embalagem perfeita. Não é tão fácil de encontrar quanto parece à primeira vista. Corpos incluem rostos, vozes, posturas, maneiras de falar, tons, roupas. Variáveis demais para serem conseguidas em academias e caras demais para mesas de operações. A maioria das pessoas não quer perfeição, harmonia - mas o nariz da novela, a barriga da revista, as roupas da moda.
Na maioria das outras poucas vezes que encontrei pessoas perfeitas - e minha profissão se presta a isso - elas tinham um defeito que prejudicava suas posturas e vozes. Elas sabiam que eram perfeitas. Falavam alto demais, ou naquela voz pateticamente arroucada de quem quer seduzir todos ao redor, ficavam com o nariz empinado, atrapalhando a posição natural dos músculos faciais perfeitos. Claro, encontrei uma ou duas outras perfeições, mas elas não demonstraram interesse em minhas propostas veladas.
Até hoje não tinha encontrado a perfeição ideal - ignorante de si e disposta. Quando a encontrei, sabia que seria minha melhor chance, mesmo que levasse - como levou - tempo. Claro, a pele não era do tom ideal, mas era absurdamente bem feita e uniforme. Como vinil, o contraste ideal. E o tato correspondia.
Eu odeio saber que o toque final que me permitiu experimentá-la foi o que trincou sua perfeição. O braço machucado estava errado, algo que contaminou a pele de todo o corpo. Me preocupei mais em não encontrar outro daqueles que em sentir.
Claro que agora posso contar com replays, mas replays disso. Não há mais a possibilidade de perfeição aqui.
E eu queria só perfeição.
27.2.02
Bicicleta
Em 27.02.02
Eu queria uma bicicleta.
Papai Noel não existe. O homem na tv tá sendo preso por que disse que Papai Noel não existe e se Papai Noel existisse ele não ia preso, só ficava sem presente porque tinha mentido. Se Papai Noel não existe ele não vai preso porque não fez nada errado e a polícia não prende quem não fez nada errado e só que faz alguma coisa errada vai preso porque a polícia não é igual a mamãe, que brigou comigo e puxou minha orelha por que o vaso caiu no chão e quebrou e eu nem tava em casa e se estava, tava vendo tv quietinho e a gata que ela diz que não existe que deve ter quebrado se tiver alguém igual à mamãe na polícia nem dá pra saber se Papai Noel existe ou não.
Nem que eu quebrei o vaso. Papai Noel existe senão não tinha visto eu quebrando o vaso e tinha trazido minha bicicleta e não esses bonecos que são legais mas não são uma bicicleta e eu não posso andar na rua e depois tirar a rodinha e pular a rampa e andar com o José que é o menino mais legal por que é grande mas mesmo assim conversa comigo.
Eu só queria uma bicicleta. Mamãe me prometeu que Papai Noel trazia uma bicicleta se eu me comportasse vem, estudasse direitinho, tomasse banho escovasse os dentes e tudo isso. Daí eu fiz e no dia do Natal eu não ganhei a bicicleta, mas uns bonecos e uma roupa que me espeta todo e eu nem queria. Eu vi na tv que Papai Noel não existe, se existisse eu ganhava minha bicicleta e os bonecos e uma roupa que não pinica e não tem botão.
Não preciso mais me comportar se Papai Noel não existe. Só ele sabe de tudo a mamãe não só preciso fazer de conta na frente dela e quando ela presta atenção. Ela diz que o papai me vê o tempo todo lá de onde ele está mas se Papai Noel não me vê não é o papai que vai ver. Então eu posso fazer o que eu quiser se ninguém estiver olhando e ninguém vai me ver.
Vai ser legal fazer tudo que eu quiser se ninguém me ver fazendo mas eu queria mais a bicicleta e que Papai Noel existisse.
Em 27.02.02
Eu queria uma bicicleta.
Papai Noel não existe. O homem na tv tá sendo preso por que disse que Papai Noel não existe e se Papai Noel existisse ele não ia preso, só ficava sem presente porque tinha mentido. Se Papai Noel não existe ele não vai preso porque não fez nada errado e a polícia não prende quem não fez nada errado e só que faz alguma coisa errada vai preso porque a polícia não é igual a mamãe, que brigou comigo e puxou minha orelha por que o vaso caiu no chão e quebrou e eu nem tava em casa e se estava, tava vendo tv quietinho e a gata que ela diz que não existe que deve ter quebrado se tiver alguém igual à mamãe na polícia nem dá pra saber se Papai Noel existe ou não.
Nem que eu quebrei o vaso. Papai Noel existe senão não tinha visto eu quebrando o vaso e tinha trazido minha bicicleta e não esses bonecos que são legais mas não são uma bicicleta e eu não posso andar na rua e depois tirar a rodinha e pular a rampa e andar com o José que é o menino mais legal por que é grande mas mesmo assim conversa comigo.
Eu só queria uma bicicleta. Mamãe me prometeu que Papai Noel trazia uma bicicleta se eu me comportasse vem, estudasse direitinho, tomasse banho escovasse os dentes e tudo isso. Daí eu fiz e no dia do Natal eu não ganhei a bicicleta, mas uns bonecos e uma roupa que me espeta todo e eu nem queria. Eu vi na tv que Papai Noel não existe, se existisse eu ganhava minha bicicleta e os bonecos e uma roupa que não pinica e não tem botão.
Não preciso mais me comportar se Papai Noel não existe. Só ele sabe de tudo a mamãe não só preciso fazer de conta na frente dela e quando ela presta atenção. Ela diz que o papai me vê o tempo todo lá de onde ele está mas se Papai Noel não me vê não é o papai que vai ver. Então eu posso fazer o que eu quiser se ninguém estiver olhando e ninguém vai me ver.
Vai ser legal fazer tudo que eu quiser se ninguém me ver fazendo mas eu queria mais a bicicleta e que Papai Noel existisse.
23.2.02
Digressões Sem Nicotina
Em 22.04.99
Mais uma vez, passei meu dia em casa.
Mais um dia pulando aulas, pensando sobre o tempo, lendo, brincando com imagens... Imagino a imagem de uma câmera além do teto do meu quarto me filmando: eu deitado na cama, de camisa regata, fumando. (Não que eu fume, use camisa regata ou mesmo tenha certeza de que o quarto e corpo na imagem são meus).
Me peguei, durante a tarde, ouvindo discos que não ouvia há algum tempo. E outros que ouço quase demais: o primeiro Garbage, Protection, Lost Highway, os três Cowboy Junkies e até um Suzanne Vega (e não o melhor deles).
Foi ouvindo “Light my Fire”, numa versão do Massive Attack que um pensamento que começou a se formar ontem se calcificou: as músicas que eu amo nos discos raramente são as por quais me apaixono à primeira vista (à perpétua exceção de “The Perfect Drug”).
Troquei “Only Happy When it Rains” por “Fix me Now”. “Teardrop” por “Inertia Creeps”, “Head Like a Hole” por “Down in It”. E, apesar de muitas vezes me esquecer de ouvir “Common Disaster”, paro tudo para ouvir “Bea’s Song” (btw, com licença).
(retornando...)
Esse tipo de bobagem me fez, sei lá por que razões, refletir sobre que coisas vão se tornando permanentes em nossas vidas (mais especificamente, em minha vida). As coisas mais improváveis. E raramente aquelas que esperamos.
Eu esperava ainda acreditar piamente na Ciência, ainda ser amigo de determinadas pessoas, ainda usar cabelo comprido (idéia que hoje coça)...
E esperava já ter me despedido do tesouro sob minha cama, ter esquecido quem é Neil Gaiman, não mais ver Salvador À Noite. E definitivamente, não esperava ver as fuças de alguns de vocês depois de quase (ou mais) de dez anos.
E o que espero hoje? Fingir que sou outra pessoa em alguns sábados por mais dois ou três anos, esperar ansiosamente cada encomenda de quadrinhos por mais umas duas décadas, me formar algum dia...
Não ouso imaginar muito além disso. Não consigo me imaginar sem óculos ou empregado corretamente. Não consigo imaginar meu rosto ou roupas em três anos. Não consigo imaginar nenhum panorama plausível para mim, nem identificar minha cena obrigatória.
Fico pensando em qualquer mundo viver. Eu, imóvel em mim, em vários mundos.
Por que diabos é mais fácil imaginar mundos que nós mesmos?
Às vezes acho que deveria fumar. Mentolados são melhores que pensamentos.
Em 22.04.99
Mais uma vez, passei meu dia em casa.
Mais um dia pulando aulas, pensando sobre o tempo, lendo, brincando com imagens... Imagino a imagem de uma câmera além do teto do meu quarto me filmando: eu deitado na cama, de camisa regata, fumando. (Não que eu fume, use camisa regata ou mesmo tenha certeza de que o quarto e corpo na imagem são meus).
Me peguei, durante a tarde, ouvindo discos que não ouvia há algum tempo. E outros que ouço quase demais: o primeiro Garbage, Protection, Lost Highway, os três Cowboy Junkies e até um Suzanne Vega (e não o melhor deles).
Foi ouvindo “Light my Fire”, numa versão do Massive Attack que um pensamento que começou a se formar ontem se calcificou: as músicas que eu amo nos discos raramente são as por quais me apaixono à primeira vista (à perpétua exceção de “The Perfect Drug”).
Troquei “Only Happy When it Rains” por “Fix me Now”. “Teardrop” por “Inertia Creeps”, “Head Like a Hole” por “Down in It”. E, apesar de muitas vezes me esquecer de ouvir “Common Disaster”, paro tudo para ouvir “Bea’s Song” (btw, com licença).
(retornando...)
Esse tipo de bobagem me fez, sei lá por que razões, refletir sobre que coisas vão se tornando permanentes em nossas vidas (mais especificamente, em minha vida). As coisas mais improváveis. E raramente aquelas que esperamos.
Eu esperava ainda acreditar piamente na Ciência, ainda ser amigo de determinadas pessoas, ainda usar cabelo comprido (idéia que hoje coça)...
E esperava já ter me despedido do tesouro sob minha cama, ter esquecido quem é Neil Gaiman, não mais ver Salvador À Noite. E definitivamente, não esperava ver as fuças de alguns de vocês depois de quase (ou mais) de dez anos.
E o que espero hoje? Fingir que sou outra pessoa em alguns sábados por mais dois ou três anos, esperar ansiosamente cada encomenda de quadrinhos por mais umas duas décadas, me formar algum dia...
Não ouso imaginar muito além disso. Não consigo me imaginar sem óculos ou empregado corretamente. Não consigo imaginar meu rosto ou roupas em três anos. Não consigo imaginar nenhum panorama plausível para mim, nem identificar minha cena obrigatória.
Fico pensando em qualquer mundo viver. Eu, imóvel em mim, em vários mundos.
Por que diabos é mais fácil imaginar mundos que nós mesmos?
Às vezes acho que deveria fumar. Mentolados são melhores que pensamentos.
21.2.02
20.2.02
Algodão Doce
Em 20.02.02
Eu só queria era um algodão doce.
Um pouco de açúcar para me animar. Esquecer um pouco da dieta e da alimentação correta. Ando tanto precisando me animar... Salada e peixe grelhado são ótimos; ver a barriga lisinha também – ou tão lisa quanto pode ficar. Pra depois ouvir uma história de simplicidade. Fica sempre faltando alguma coisa. Não é nem o sabor ou o dulçor, é mais a animação.
Dá pra perceber que quem me olha pensa o mesmo que eu: que algodão doce é coisa de criança. Que uma senhora de quase trinta não devia mexer com essas coisas. Dane-se. Eu queria algodão doce justamente por ser coisa de criança. Doce, colorido, impressionante e vazio. Calorias vazias, melhor. Quando eu era criança eles não eram tão grandes assim. Mal comecei a comer e já estou com sede, cansada. Mas não quero água. Quero aquele restinho que fica grudado no palito. Por que não para de me olhar? Ninguém mais entende o prazer de um algodão doce.
Algodão doce é bem melhor que chocolate. Chocolate é coisa de mulher largada, de trintona triste e me nego a assumir qualquer um dos dois papéis. Ficar assistindo filmes água com açúcar e chorando na frente da TV, bebendo vinho por faltar coragem pra beber algo que funcione... Tudo muito clichê. Se é pra encher a cara de açúcar, melhor algodão doce. Muito mais divertido, muito mais simples e bem menos arriscado. Afinal, cedo ou tarde o vendedor vai ter que ir embora. Eu podia passar a noite toda comendo chocolate. Mas depois de um algodão doce quem é que vai querer saber de açúcar?
Esse negócio dá mais sede do que eu lembrava. Também, deve ter quase dez vezes o tamanho do último que eu comi. Aliás, quando foi isso? Deve ter mais de dez anos, eu nem estava com ele ainda. Eles não tinham essas cores tão bonitas. Ou acho que estava. Foi aquela vez no parque de diversões? Lembro de ficar com o rosto grudado, sem um banheiro para poder lavar. Que coisa mais clichê ir namorar em roda gigante. Não, acho que foi maçã-do-amor. Mas eu nem gosto de maçã!
Eu devo estar muito engraçada, toda suja. Dá pra sentir os pedacinhos de algodão colados no rosto. Eu devia ir lavar, mas combinei de encontrar ela aqui. E ainda tenho muito chão pela frente, só dá pra ver o palito na pontinha. Então nada de dois beijinhos. Não suporto mesmo. Coisa mais sem graça, igual a outra lá. “Simplicidade”. E isso lá é motivo? Por que ele não admite logo que quer alguém mais nova e menos neurótica? E precisava me chamar de neurótica? Ele quer é uma mulherzinha clichê igual ela, que cozinhe e limpe e tenha filhos por ser a coisa a se fazer. Eu disse que ele vai se arrepender. Eu sei que vai. Deixa só eu terminar meu algodão doce.
Em 20.02.02
Eu só queria era um algodão doce.
Um pouco de açúcar para me animar. Esquecer um pouco da dieta e da alimentação correta. Ando tanto precisando me animar... Salada e peixe grelhado são ótimos; ver a barriga lisinha também – ou tão lisa quanto pode ficar. Pra depois ouvir uma história de simplicidade. Fica sempre faltando alguma coisa. Não é nem o sabor ou o dulçor, é mais a animação.
Dá pra perceber que quem me olha pensa o mesmo que eu: que algodão doce é coisa de criança. Que uma senhora de quase trinta não devia mexer com essas coisas. Dane-se. Eu queria algodão doce justamente por ser coisa de criança. Doce, colorido, impressionante e vazio. Calorias vazias, melhor. Quando eu era criança eles não eram tão grandes assim. Mal comecei a comer e já estou com sede, cansada. Mas não quero água. Quero aquele restinho que fica grudado no palito. Por que não para de me olhar? Ninguém mais entende o prazer de um algodão doce.
Algodão doce é bem melhor que chocolate. Chocolate é coisa de mulher largada, de trintona triste e me nego a assumir qualquer um dos dois papéis. Ficar assistindo filmes água com açúcar e chorando na frente da TV, bebendo vinho por faltar coragem pra beber algo que funcione... Tudo muito clichê. Se é pra encher a cara de açúcar, melhor algodão doce. Muito mais divertido, muito mais simples e bem menos arriscado. Afinal, cedo ou tarde o vendedor vai ter que ir embora. Eu podia passar a noite toda comendo chocolate. Mas depois de um algodão doce quem é que vai querer saber de açúcar?
Esse negócio dá mais sede do que eu lembrava. Também, deve ter quase dez vezes o tamanho do último que eu comi. Aliás, quando foi isso? Deve ter mais de dez anos, eu nem estava com ele ainda. Eles não tinham essas cores tão bonitas. Ou acho que estava. Foi aquela vez no parque de diversões? Lembro de ficar com o rosto grudado, sem um banheiro para poder lavar. Que coisa mais clichê ir namorar em roda gigante. Não, acho que foi maçã-do-amor. Mas eu nem gosto de maçã!
Eu devo estar muito engraçada, toda suja. Dá pra sentir os pedacinhos de algodão colados no rosto. Eu devia ir lavar, mas combinei de encontrar ela aqui. E ainda tenho muito chão pela frente, só dá pra ver o palito na pontinha. Então nada de dois beijinhos. Não suporto mesmo. Coisa mais sem graça, igual a outra lá. “Simplicidade”. E isso lá é motivo? Por que ele não admite logo que quer alguém mais nova e menos neurótica? E precisava me chamar de neurótica? Ele quer é uma mulherzinha clichê igual ela, que cozinhe e limpe e tenha filhos por ser a coisa a se fazer. Eu disse que ele vai se arrepender. Eu sei que vai. Deixa só eu terminar meu algodão doce.
7.2.02
Sen-ryu Pré-Carnaval
em 07.02.02
Me pego observando,
Da janela do ônibus,
Que não sei participar
em 07.02.02
Me pego observando,
Da janela do ônibus,
Que não sei participar
22.1.02
Non-sequitur
em 20.03.00
Lost my love. Got a job. Got a haircut. Lost my mind. Lost my focus. Got some freedom? Found my rage. Lost my peace. Just want to sleep. Can't sleep. Want to run away. There's no place. Lost my dreams. Lost in dreams. Found some power. Lost the will. Caught a cold. Found my doubts. Lost any happiness. Was betrayed. Throwed punches. Heard lies. Spoke the truth. Cried a lot. I still do. Feel so lonely. Can't look up. Can't fight. Lost my power. Found my words. An old love. Lost my reason. Never had one. Fell from grace. From her arms. Lost my pride. Begged so much. Feel so righteous. Feel so much. Made mistakes. Always do. Forgave errors. Always do. Was my best. Not enough. Feel so lonely. The world went away. Falling so fast. Just want to go. Have some rest. Want to fight. Draw some blood. Can't hurt her. Albeit I should. I can't wait. Can't fight. Can't fight time. Everything is tainted by her touch. She's all I want. Miss her so much. Can't go out. Feel afraid. Can't stay in. Stalemate. Lost so much. Never did before. Had nothing before. Still don't. She made me better. Found something I can't hide. Lost so much on her tears. Lost her. Lost myself. Where to go to? What to do? Miss my records. Touch her pictures looking for her. Can't wait. She won't come back. Have my life. Have myself. "Just want something I can never have". Feel like nothing. Want nothing. Be nothing. But I can't. Want to hide. Want something that matters. Can't see any. Nothing to do. No place to go. Feel afraid. Doubt everything. Doubt I can write. Doubt you'll read. Doubt I'll like. Want to go back to her. To her arms. To her face. To her dreams. Dreamt of her lots of times. Sex was false, I could tell. Kisses and words were not true enough. Wake up crying. With dreams I can't cope with. Want to hate. I'm trying to. Don't think I can. Her, I never could. And had reasons. Letdowns. I still believe. Don't know why. Never thought love could be like this. I know I was good. In everything. Can't carry her. Did I try to? If I could, I'd heal me. I'd heal her. She knows that, I hope. But just can't wait. I'll be fit. I'll be fine. I'll work. I'll be better, in everything. Break my shackles. Break my love. Surprise her. She still wants my love. Doesn't want me. Love her so much. Want to hate. Want her back. Want me safe. Thought she had changed. I see the same girl. So there is love still. It was good to say goodbye. Heard things she had never said. Good and bad. Got to hold on to the bad things. So I can let her go. But the good ones are still hangin' around. I want to run. Away from here. Away from her. Away from me. To her. Still don't know what to do. Don't know what I need. Don't know what I want. Don't know what she needs. Don't know what she wants. Just don't know.
Non-sequitur.
em 20.03.00
Lost my love. Got a job. Got a haircut. Lost my mind. Lost my focus. Got some freedom? Found my rage. Lost my peace. Just want to sleep. Can't sleep. Want to run away. There's no place. Lost my dreams. Lost in dreams. Found some power. Lost the will. Caught a cold. Found my doubts. Lost any happiness. Was betrayed. Throwed punches. Heard lies. Spoke the truth. Cried a lot. I still do. Feel so lonely. Can't look up. Can't fight. Lost my power. Found my words. An old love. Lost my reason. Never had one. Fell from grace. From her arms. Lost my pride. Begged so much. Feel so righteous. Feel so much. Made mistakes. Always do. Forgave errors. Always do. Was my best. Not enough. Feel so lonely. The world went away. Falling so fast. Just want to go. Have some rest. Want to fight. Draw some blood. Can't hurt her. Albeit I should. I can't wait. Can't fight. Can't fight time. Everything is tainted by her touch. She's all I want. Miss her so much. Can't go out. Feel afraid. Can't stay in. Stalemate. Lost so much. Never did before. Had nothing before. Still don't. She made me better. Found something I can't hide. Lost so much on her tears. Lost her. Lost myself. Where to go to? What to do? Miss my records. Touch her pictures looking for her. Can't wait. She won't come back. Have my life. Have myself. "Just want something I can never have". Feel like nothing. Want nothing. Be nothing. But I can't. Want to hide. Want something that matters. Can't see any. Nothing to do. No place to go. Feel afraid. Doubt everything. Doubt I can write. Doubt you'll read. Doubt I'll like. Want to go back to her. To her arms. To her face. To her dreams. Dreamt of her lots of times. Sex was false, I could tell. Kisses and words were not true enough. Wake up crying. With dreams I can't cope with. Want to hate. I'm trying to. Don't think I can. Her, I never could. And had reasons. Letdowns. I still believe. Don't know why. Never thought love could be like this. I know I was good. In everything. Can't carry her. Did I try to? If I could, I'd heal me. I'd heal her. She knows that, I hope. But just can't wait. I'll be fit. I'll be fine. I'll work. I'll be better, in everything. Break my shackles. Break my love. Surprise her. She still wants my love. Doesn't want me. Love her so much. Want to hate. Want her back. Want me safe. Thought she had changed. I see the same girl. So there is love still. It was good to say goodbye. Heard things she had never said. Good and bad. Got to hold on to the bad things. So I can let her go. But the good ones are still hangin' around. I want to run. Away from here. Away from her. Away from me. To her. Still don't know what to do. Don't know what I need. Don't know what I want. Don't know what she needs. Don't know what she wants. Just don't know.
Non-sequitur.
18.1.02
15.1.02
Simplicidade
Em 14.01.02
Eu queria simplicidade.
Nada das complicações da mulher com que passei tanto tempo. Linda, brilhante, louca e cheia de neuroses reais e inventadas, que pagavam as prestações do carro do analista. Nada das nossas complicações acumuladas com o passar dos anos e anos juntos e das complexidades e mágoas que obrigatoriamente acompanham. Mais nada daquilo. Algo simples: “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. Tão sem complicações, volteios ou floreados que não serviria de roteiro para a mais insossa das comédias românticas. Bem diferente do que eu tive com ela.
E foi mais ou menos isso que aconteceu. Algo simples, com uma pessoa simples de prazeres simples. Nada de passar noites brigando, realmente achando importante se aquelazinha do livro traiu ou não traiu, ou sussurrando idéias no escuro no lugar das jurinhas de amor com que se ocupava a maioria. Não era mais isso que queria, como estava acostumado. Mas simplicidade. Acho que foi isso que me fascinou na outra lá.
Havia uma promessa de simplicidade em torno dela. Algo que dizia que tudo seria tranqüilo com ela. Um ar quase pastoril, com aqueles olhos pacientes. Sem complicações, ela se apaixonaria e eu me renderia, mais fascinado pela promessa de nada demais que realmente interessado. Exatamente como aconteceu. Ela não era linda ou brilhante ou louca – eu nem mesmo a achava capaz de alguma neurose. Para simplificar ainda mais as coisas, não era nem pobre nem rica e ganhava mais ou menos o mesmo que eu.
Não era só a simplicidade de alguma coisa nova, a falta de bagagem comum que nós tínhamos. Na verdade o mérito era todo dela. Ela era simples. Algo impossível de explicar. O máximo que poderia iluminar é dizer que ela é sem sofisticação, mas normalmente isso implica em falta de educação ou ignorância; não era o caso. Ela sabia o suficiente, nada além. Não adianta. Ela era simples e pronto.
Com o tempo, descobri que ela foi simples desde que nasceu. Os próprios pais dela se espantavam com isso. A mãe, nada simples, acrescentava bobagens orientais à mistura de corujice e decepção tentando explicar de onde vinha a simplicidade da filha. “Às vezes parece uma santa”. Mas ela nunca parecia uma santa. Acho que nunca conheci ninguém tão humano. O estranho que a simplicidade dela nunca se traduziu em leveza. Para mim, ela trazia a impressão de algo que se arrastava, que nunca acordava, alguma criatura imensa dormindo no fundo do mar. Estranho que é mais fácil explicar isso que simplicidade.
Na verdade, faltava alguma coisa nela. Ou antes muitas coisas. Era por isso que ela se arrastava, era por isso que ela pesava. Por isso que nunca me apaixonei por ela. Ela não era simples por ter deixado de lado aquilo que era excesso, que não servia mais, que não era dela. Ela era simples como o desenho da casinha acompanhada de arvorezinha e nuvenzinha que as crianças fases: uma coisa que ainda não se tornou nada que possa ser realmente julgado.
E nunca foi isso que eu quis. Não sei como pude confundir as duas coisas. Como pude confundir incompletude com perfeição, falta com minimalismo. E não sei quando me dei conta do meu erro. Acho que não houve nenhuma revelação, nenhum momento onde as coisas ficaram claras. Mas sim aquela progressão cretina, onde as pistas vão se acumulando até que você chega no final do filme e se sente uma besta de não ter percebido quem era o assassinato na metade. Todas as pistas estavam lá. Nas histórias sem graça, nas memórias adolescentes sem desequilíbrios, na vontade de lavar a louça e cozinhar porque é assim que ela devia fazer. Eu nem sei mais quando as coisas terminaram.
O pior é perceber, num encontro aleatório, quem atingiu a simplicidade que eu procurava. Pós-louca, pós-prestações do carro do analista, pós-eu. Ela se livrou dos excessos. E eu nem completei minhas faltas.
Em 14.01.02
Eu queria simplicidade.
Nada das complicações da mulher com que passei tanto tempo. Linda, brilhante, louca e cheia de neuroses reais e inventadas, que pagavam as prestações do carro do analista. Nada das nossas complicações acumuladas com o passar dos anos e anos juntos e das complexidades e mágoas que obrigatoriamente acompanham. Mais nada daquilo. Algo simples: “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. Tão sem complicações, volteios ou floreados que não serviria de roteiro para a mais insossa das comédias românticas. Bem diferente do que eu tive com ela.
E foi mais ou menos isso que aconteceu. Algo simples, com uma pessoa simples de prazeres simples. Nada de passar noites brigando, realmente achando importante se aquelazinha do livro traiu ou não traiu, ou sussurrando idéias no escuro no lugar das jurinhas de amor com que se ocupava a maioria. Não era mais isso que queria, como estava acostumado. Mas simplicidade. Acho que foi isso que me fascinou na outra lá.
Havia uma promessa de simplicidade em torno dela. Algo que dizia que tudo seria tranqüilo com ela. Um ar quase pastoril, com aqueles olhos pacientes. Sem complicações, ela se apaixonaria e eu me renderia, mais fascinado pela promessa de nada demais que realmente interessado. Exatamente como aconteceu. Ela não era linda ou brilhante ou louca – eu nem mesmo a achava capaz de alguma neurose. Para simplificar ainda mais as coisas, não era nem pobre nem rica e ganhava mais ou menos o mesmo que eu.
Não era só a simplicidade de alguma coisa nova, a falta de bagagem comum que nós tínhamos. Na verdade o mérito era todo dela. Ela era simples. Algo impossível de explicar. O máximo que poderia iluminar é dizer que ela é sem sofisticação, mas normalmente isso implica em falta de educação ou ignorância; não era o caso. Ela sabia o suficiente, nada além. Não adianta. Ela era simples e pronto.
Com o tempo, descobri que ela foi simples desde que nasceu. Os próprios pais dela se espantavam com isso. A mãe, nada simples, acrescentava bobagens orientais à mistura de corujice e decepção tentando explicar de onde vinha a simplicidade da filha. “Às vezes parece uma santa”. Mas ela nunca parecia uma santa. Acho que nunca conheci ninguém tão humano. O estranho que a simplicidade dela nunca se traduziu em leveza. Para mim, ela trazia a impressão de algo que se arrastava, que nunca acordava, alguma criatura imensa dormindo no fundo do mar. Estranho que é mais fácil explicar isso que simplicidade.
Na verdade, faltava alguma coisa nela. Ou antes muitas coisas. Era por isso que ela se arrastava, era por isso que ela pesava. Por isso que nunca me apaixonei por ela. Ela não era simples por ter deixado de lado aquilo que era excesso, que não servia mais, que não era dela. Ela era simples como o desenho da casinha acompanhada de arvorezinha e nuvenzinha que as crianças fases: uma coisa que ainda não se tornou nada que possa ser realmente julgado.
E nunca foi isso que eu quis. Não sei como pude confundir as duas coisas. Como pude confundir incompletude com perfeição, falta com minimalismo. E não sei quando me dei conta do meu erro. Acho que não houve nenhuma revelação, nenhum momento onde as coisas ficaram claras. Mas sim aquela progressão cretina, onde as pistas vão se acumulando até que você chega no final do filme e se sente uma besta de não ter percebido quem era o assassinato na metade. Todas as pistas estavam lá. Nas histórias sem graça, nas memórias adolescentes sem desequilíbrios, na vontade de lavar a louça e cozinhar porque é assim que ela devia fazer. Eu nem sei mais quando as coisas terminaram.
O pior é perceber, num encontro aleatório, quem atingiu a simplicidade que eu procurava. Pós-louca, pós-prestações do carro do analista, pós-eu. Ela se livrou dos excessos. E eu nem completei minhas faltas.
9.1.02
Amores Fugidios IV: Despertar
Despertaram aconchegados - de modo inocente - como irmãos, não amantes. A cama era grande, proporcional ao quarto de paredes brancas na manhã de domingo. Ficaram desorientados até que o constrangimento os acordou por completo.
Ela e ele, desorientados e preguiçosos, iam fazendo sentido das coisas. Lembrando onde estavas, da festa de sábado dos drinks em copos bonitos e de fragmentos de conversa. E percebendo as roupas fechadas, batom e cabelos relativamente no lugar.
Atrasaram o primeiro olhar, a primeira palavra, estudados de modo a criar distância e pedir desculpas. Falharam. Algo em seus olhos sonolentos os entregava. Convidaram-se para o café na copa bagunçada.
Após os restos, se esgueiraram pela casa, mal contendo o riso pela situação. Um voltou para a cama, o outro para casa. O telefone dela ficou no guardanapo, sobre a mesa.
Despertaram aconchegados - de modo inocente - como irmãos, não amantes. A cama era grande, proporcional ao quarto de paredes brancas na manhã de domingo. Ficaram desorientados até que o constrangimento os acordou por completo.
Ela e ele, desorientados e preguiçosos, iam fazendo sentido das coisas. Lembrando onde estavas, da festa de sábado dos drinks em copos bonitos e de fragmentos de conversa. E percebendo as roupas fechadas, batom e cabelos relativamente no lugar.
Atrasaram o primeiro olhar, a primeira palavra, estudados de modo a criar distância e pedir desculpas. Falharam. Algo em seus olhos sonolentos os entregava. Convidaram-se para o café na copa bagunçada.
Após os restos, se esgueiraram pela casa, mal contendo o riso pela situação. Um voltou para a cama, o outro para casa. O telefone dela ficou no guardanapo, sobre a mesa.
5.1.02
Amores Mortos IV: Detalhes
Ele não podia ter descoberto num momento pior. Ficava na cama do hotel, se forçando ao silêncio e ouvindo com nojo a respiração. Queria estar em casa - lá, ele a teria acordado para uma nova discussão.
Em vez disso ficava deitado na cama, em sensações indefinidas. O desejo de ir se confundia com o de ficar e torturá-la até que entendesse. A culpa era dela, afinal - se não tivesse segredos ou soubesse mantê-los, ele dormiria mais profundamente que ela.
Ficava ali, na cama apertada pelo monte que não queria tocar. Bebia e ouvia música com fones, sem escutar ou sentir nada além do peso no peito e na respiração. Ela podia dormir tranqüila: não saberia da descoberta dele até o fim da viagem.
Ele se sentia desolado pela impressão que a culpa era sua, que sua preocupação com a precisão das palavras causara a descoberta. Se acusava de paranóia, tentando dormir. Com outra palavra, ela confirmou tudo, ainda no aeroporto.
Ele não podia ter descoberto num momento pior. Ficava na cama do hotel, se forçando ao silêncio e ouvindo com nojo a respiração. Queria estar em casa - lá, ele a teria acordado para uma nova discussão.
Em vez disso ficava deitado na cama, em sensações indefinidas. O desejo de ir se confundia com o de ficar e torturá-la até que entendesse. A culpa era dela, afinal - se não tivesse segredos ou soubesse mantê-los, ele dormiria mais profundamente que ela.
Ficava ali, na cama apertada pelo monte que não queria tocar. Bebia e ouvia música com fones, sem escutar ou sentir nada além do peso no peito e na respiração. Ela podia dormir tranqüila: não saberia da descoberta dele até o fim da viagem.
Ele se sentia desolado pela impressão que a culpa era sua, que sua preocupação com a precisão das palavras causara a descoberta. Se acusava de paranóia, tentando dormir. Com outra palavra, ela confirmou tudo, ainda no aeroporto.
2.1.02
Amores Sonhados IV: Névoa
Sabia que os efeitos dela sobre ele eram evidentes. Se sentia transparente e óbvio diante do riso infantil e dos olhos azuis. Se esforçava profundamente para evitar os tremores que ela provocava.
Ele odiava as poucas ocasiões em que a encontrava, apesar de esperá-las ansiosamente. Se sentia uma presa inocente, envolto de forma inequívoca em sua névoa. A cada vez que, entre suspiros, pensava tinha mais certeza: ela era só névoa e olhos azuis.
Ela sabia de seus efeitos sobre ele e fazia de tudo para dispará-los. Usava de toques e risos breves e frases soltas e - acima de tudo - piscava os olhos de serpente. Ele sabia que não podia confiar naqueles olhos, mas adorava a falsa atenção azul.
O pior - e por isso mesmo mais doce - eram os sonhos. A cada encontro era inevitável: sabia com quem iria sonhar. Adorava a névoa neles que o impedia de respirar.
Sabia que os efeitos dela sobre ele eram evidentes. Se sentia transparente e óbvio diante do riso infantil e dos olhos azuis. Se esforçava profundamente para evitar os tremores que ela provocava.
Ele odiava as poucas ocasiões em que a encontrava, apesar de esperá-las ansiosamente. Se sentia uma presa inocente, envolto de forma inequívoca em sua névoa. A cada vez que, entre suspiros, pensava tinha mais certeza: ela era só névoa e olhos azuis.
Ela sabia de seus efeitos sobre ele e fazia de tudo para dispará-los. Usava de toques e risos breves e frases soltas e - acima de tudo - piscava os olhos de serpente. Ele sabia que não podia confiar naqueles olhos, mas adorava a falsa atenção azul.
O pior - e por isso mesmo mais doce - eram os sonhos. A cada encontro era inevitável: sabia com quem iria sonhar. Adorava a névoa neles que o impedia de respirar.
29.12.01
Amores Irreais III: Cartas
Ela não era muito de escrever cartas. Escrever - qualquer coisa, por mais insignificante - a incomodava. Seus amigos recebiam livros sem dedicatórias e cartões com assinaturas solitárias. Detestava a permanência das palavras.
Tudo mudou quando ele desapareceu. Saiu um dia e não voltou, inexplicavelmente. A ausência foi preenchida por uma vontade enorme de escrever para ele. As cartas mentiam uma vida roubada.
Escrevia por horas, até suas mãos não agüentarem, quando passava a adicionar acessórios de todo o tipo. As páginas - sempre muitas - falavam tão pouco que poderiam ser simples exercícios de estilo. Ela mesma pensava assim ao postá-las para o distante endereço inexistente.
Continuou por centenas de semanas, com o resultado esperado. Cansou, desistiu e não foi ao correio. "Sinto sua falta", dizia o telegrama.
Ela não era muito de escrever cartas. Escrever - qualquer coisa, por mais insignificante - a incomodava. Seus amigos recebiam livros sem dedicatórias e cartões com assinaturas solitárias. Detestava a permanência das palavras.
Tudo mudou quando ele desapareceu. Saiu um dia e não voltou, inexplicavelmente. A ausência foi preenchida por uma vontade enorme de escrever para ele. As cartas mentiam uma vida roubada.
Escrevia por horas, até suas mãos não agüentarem, quando passava a adicionar acessórios de todo o tipo. As páginas - sempre muitas - falavam tão pouco que poderiam ser simples exercícios de estilo. Ela mesma pensava assim ao postá-las para o distante endereço inexistente.
Continuou por centenas de semanas, com o resultado esperado. Cansou, desistiu e não foi ao correio. "Sinto sua falta", dizia o telegrama.
26.12.01
Amores Mortos III: Espaços Vazios
Ela acordou por conta do sol, já reclamando da cortina aberta. Sem o som do banho ou o cheiro do café, se lembrou. O peso da cama vazia a esmagou: ela deixara a cortina aberta.
Um telefonema não atentido impediu que dormisse. Ficou remoendo tudo o que passara enquanto procurava o leite na geladeira vazia. Ligou a tv, sentou e tentou se convencer que gostava do espaço extra na cama.
Seus dedos começavam repetidamente número dele, sendo impedidos sempre antes de o completar. Passaria uma tarde com seus discos de jazz. O sax ao fundo do pôr-do-sol a convencia que não passaria por aquilo de novo.
Foi ao cinema, sem pensar no título. Não dividiu a pipoca ou o espaço até que se encher do filme e da cadeira vazia a seu lado. Engoliu as lágrimas, só aumentando a vontade de chorar.
As ruas vazias a deixaram com um frio insuportável. Correu para casa e o frio cresceu ao não encontrá-lo. Sentou na cama e decidiu uma vingança: contaria a ele como adora o espaço extra na cama.
Ela acordou por conta do sol, já reclamando da cortina aberta. Sem o som do banho ou o cheiro do café, se lembrou. O peso da cama vazia a esmagou: ela deixara a cortina aberta.
Um telefonema não atentido impediu que dormisse. Ficou remoendo tudo o que passara enquanto procurava o leite na geladeira vazia. Ligou a tv, sentou e tentou se convencer que gostava do espaço extra na cama.
Seus dedos começavam repetidamente número dele, sendo impedidos sempre antes de o completar. Passaria uma tarde com seus discos de jazz. O sax ao fundo do pôr-do-sol a convencia que não passaria por aquilo de novo.
Foi ao cinema, sem pensar no título. Não dividiu a pipoca ou o espaço até que se encher do filme e da cadeira vazia a seu lado. Engoliu as lágrimas, só aumentando a vontade de chorar.
As ruas vazias a deixaram com um frio insuportável. Correu para casa e o frio cresceu ao não encontrá-lo. Sentou na cama e decidiu uma vingança: contaria a ele como adora o espaço extra na cama.
22.12.01
Amores Sonhados III: Inversão
Ela não podia - mesmo que do modo mais tênue - existir. Suas asas, cabelos de prata, tom de pele e olhos negros sem pupilas eram uma total impossibilidade. Seu povo partira dali há muito, mesmo assim ela esperava toda noite por seu amado.
Ele, mortal e entediante, fugia dela em seus sonhos. Tudo nela o perturbava, principalmente os risos quase inaudíveis que o monstro dava enquanto voava ao seu redor. Se desesperava com a insistência das torturas dela naquela terra estranha.
Tentou, com medo, parar de dormir, mas isso se mostrou impossível. Passou por toda uma farmacopéia que só adicionava uma ressaca enorme ao acordar. Estava quase conformado em ser eternamente assombrado quando encontrou um livro sobre como controlar seus sonhos.
Ela se surpreendeu ao ver que ela não fugia, mostrando uma hesitação típica de quem tem algo a dizer. Ao ouvir as palavras equivocadas, não pôde deixar de chorar. Ou de notar outro sonhador nas bordas daquele fim.
Ela não podia - mesmo que do modo mais tênue - existir. Suas asas, cabelos de prata, tom de pele e olhos negros sem pupilas eram uma total impossibilidade. Seu povo partira dali há muito, mesmo assim ela esperava toda noite por seu amado.
Ele, mortal e entediante, fugia dela em seus sonhos. Tudo nela o perturbava, principalmente os risos quase inaudíveis que o monstro dava enquanto voava ao seu redor. Se desesperava com a insistência das torturas dela naquela terra estranha.
Tentou, com medo, parar de dormir, mas isso se mostrou impossível. Passou por toda uma farmacopéia que só adicionava uma ressaca enorme ao acordar. Estava quase conformado em ser eternamente assombrado quando encontrou um livro sobre como controlar seus sonhos.
Ela se surpreendeu ao ver que ela não fugia, mostrando uma hesitação típica de quem tem algo a dizer. Ao ouvir as palavras equivocadas, não pôde deixar de chorar. Ou de notar outro sonhador nas bordas daquele fim.
19.12.01
Amores Perfeitos II: Tristezas
Estavam desesperados, ou naquela situação que vem logo depois do desespero. Era o momento de tentar algum tipo de recomeço. Não que realmente desejassem.
Ela foi, mais ou menos, abandonada sem explicações. Ele, traído e as poucas explicações nada convincentes. Estupefatos e tristes, vagavam procurando algo que os distraísse.
Já se conheciam antes - não se gostavam muito. Mas o espelho de sua tristeza no outro os atraia. Cada um queria curar o outro, na tentativa de curar a si.
Se viram - de repente - nos braços um do outro. Antes do primeiro beijo disseram, ao mesmo tempo, "nunca daremos certo". Era tudo que precisavam ouvir.
Estavam desesperados, ou naquela situação que vem logo depois do desespero. Era o momento de tentar algum tipo de recomeço. Não que realmente desejassem.
Ela foi, mais ou menos, abandonada sem explicações. Ele, traído e as poucas explicações nada convincentes. Estupefatos e tristes, vagavam procurando algo que os distraísse.
Já se conheciam antes - não se gostavam muito. Mas o espelho de sua tristeza no outro os atraia. Cada um queria curar o outro, na tentativa de curar a si.
Se viram - de repente - nos braços um do outro. Antes do primeiro beijo disseram, ao mesmo tempo, "nunca daremos certo". Era tudo que precisavam ouvir.
15.12.01
Amores Complexos II: Atritos
Era a terceira briga pública na semana. Claro que a semana provocara, com jantares e festas demais. Muitos caroços de azeitonas para se livrarem, censurarem e se lembrarem da falta de consideração, da humilhação e do "você não me ama mais!! Nunca amou!".
Não era verdade. Eles se amavam mais do que a maioria daqueles casais de pombinhos cheios de "môs" e "benhês". Suas agressões - e tolerância em suportá-las - eram a maior prova disso.
Estranhavam quando não se agrediam. Torciam para que os gritos começassem e quebrassem o isolamento que sentiam. Aumentavam a intensidade - dos gritos e dos insultos - conforme aumentava o desespero de que no outro não existisse mais amor.
Tentaram se salvar com um romantismo que não funcionava para eles. Brigaram ainda no jantar, algo sobre a cor das velas não combinar com a toalha. Terminaram satisfeitos e nus, brigando no chão.
Era a terceira briga pública na semana. Claro que a semana provocara, com jantares e festas demais. Muitos caroços de azeitonas para se livrarem, censurarem e se lembrarem da falta de consideração, da humilhação e do "você não me ama mais!! Nunca amou!".
Não era verdade. Eles se amavam mais do que a maioria daqueles casais de pombinhos cheios de "môs" e "benhês". Suas agressões - e tolerância em suportá-las - eram a maior prova disso.
Estranhavam quando não se agrediam. Torciam para que os gritos começassem e quebrassem o isolamento que sentiam. Aumentavam a intensidade - dos gritos e dos insultos - conforme aumentava o desespero de que no outro não existisse mais amor.
Tentaram se salvar com um romantismo que não funcionava para eles. Brigaram ainda no jantar, algo sobre a cor das velas não combinar com a toalha. Terminaram satisfeitos e nus, brigando no chão.
12.12.01
Amores Fugidios III: Trem
Foi a voz que chamou sua atenção para o vestido florido e os cabelos avermelhados sem rosto no grupo de meninas. Pensou em se aproximar, mas a estação vazia não oferecia cobertura. Decidiu que haveria tempo no trem, e foi tomar um café.
Ela entrara no trem antes dele, protegida pelo grupo. Amaldiçoou a sonolência da caixa ao não encontrar lugar próximo a onde imaginava ela estaria. Ignorou a paisagem que saíra de casa para ver e ficou passeando pelo trem, tentando vê-la por inteiro.
Como que por mágica, seu rosto se escondia dele. Voltou ao seu lugar, tentando construir um rosto para os pedaços de queixo e nariz que viu, sem sucesso. Decidiu deixar de rodeios e ir - mais que ver - falar com aquele rosto.
Tocou timidamente na alça infantil do vestido, perto de um túnel. A escuridão chegou antes que ela se virasse, enquanto ele refletia sobre o papel ridículo que estava fazendo. Ela ainda pensa no leve toque fugidio sobre seu ombro no trem.
Foi a voz que chamou sua atenção para o vestido florido e os cabelos avermelhados sem rosto no grupo de meninas. Pensou em se aproximar, mas a estação vazia não oferecia cobertura. Decidiu que haveria tempo no trem, e foi tomar um café.
Ela entrara no trem antes dele, protegida pelo grupo. Amaldiçoou a sonolência da caixa ao não encontrar lugar próximo a onde imaginava ela estaria. Ignorou a paisagem que saíra de casa para ver e ficou passeando pelo trem, tentando vê-la por inteiro.
Como que por mágica, seu rosto se escondia dele. Voltou ao seu lugar, tentando construir um rosto para os pedaços de queixo e nariz que viu, sem sucesso. Decidiu deixar de rodeios e ir - mais que ver - falar com aquele rosto.
Tocou timidamente na alça infantil do vestido, perto de um túnel. A escuridão chegou antes que ela se virasse, enquanto ele refletia sobre o papel ridículo que estava fazendo. Ela ainda pensa no leve toque fugidio sobre seu ombro no trem.
8.12.01
Amores Irreais II: Asilo
Sabia que tinha um amor longe, ou achava que tinha. Tinha dúvidas quanto a realidade dos cabelos e sorriso brilhantes dela. Talvez as pílulas coloridas tivessem algo a ver com a nuvem em sua cabeça.
Ela vinha de vez em quando, talvez com uma certa regularidade. A cada vez estava diferente, cores diferente, achava. Ele não se lembrava bem quando ela vinha.
Ela falava algo sobre um pai falso morto. Ele quase se lembrava disso e de uma casa numa praia quente. Ele ficava esperando por ela, mesmo sem ter certeza sobre quem era ela.
Ela contou algo sobre um primeiro dia na escola, sem choro nem nada. De algum modo ele sabia que isso era importante. Mas menos que o sorriso da cor das paredes macias.
Sabia que tinha um amor longe, ou achava que tinha. Tinha dúvidas quanto a realidade dos cabelos e sorriso brilhantes dela. Talvez as pílulas coloridas tivessem algo a ver com a nuvem em sua cabeça.
Ela vinha de vez em quando, talvez com uma certa regularidade. A cada vez estava diferente, cores diferente, achava. Ele não se lembrava bem quando ela vinha.
Ela falava algo sobre um pai falso morto. Ele quase se lembrava disso e de uma casa numa praia quente. Ele ficava esperando por ela, mesmo sem ter certeza sobre quem era ela.
Ela contou algo sobre um primeiro dia na escola, sem choro nem nada. De algum modo ele sabia que isso era importante. Mas menos que o sorriso da cor das paredes macias.
5.12.01
Amores Mortos II: Mapa
Não podia mais andar pela cidade depois dela. Pelo menos não sem lembrar a cada poucos passos, o que causava quase efeito pior que de uma proibição. Tudo em que pousava os olhos - de algum modo - fazia parte da história dos dois.
Num breve passeio de ônibus, encontrou diversos lugares e ânimos. Da clínica veterinária em que segurou o gato dela dentro de uma bacia à coffee shop onde costumavam "tomar café" às duas da tarde aos domingos. Incomodou particularmente - por conta de uma avenida deslocada - o lugar onde, entre bebidinhas e vendedores chatos, ela elogiou seu beijo.
Diante de tantos lugares - quase todos os lugares - resolveu ficar em casa. Mas sofás, quartos, salas, banheiros, cozinhas e todo o resto o lembravam de uma história, um momento. Queria fugir, mas não sabia para onde.
Mas o pior era pensar no mapa dela. Em como as nódoas novas se sobrepunham às coisas que escreveram juntos. No medo se ter seus grifos esquecidos.
Não podia mais andar pela cidade depois dela. Pelo menos não sem lembrar a cada poucos passos, o que causava quase efeito pior que de uma proibição. Tudo em que pousava os olhos - de algum modo - fazia parte da história dos dois.
Num breve passeio de ônibus, encontrou diversos lugares e ânimos. Da clínica veterinária em que segurou o gato dela dentro de uma bacia à coffee shop onde costumavam "tomar café" às duas da tarde aos domingos. Incomodou particularmente - por conta de uma avenida deslocada - o lugar onde, entre bebidinhas e vendedores chatos, ela elogiou seu beijo.
Diante de tantos lugares - quase todos os lugares - resolveu ficar em casa. Mas sofás, quartos, salas, banheiros, cozinhas e todo o resto o lembravam de uma história, um momento. Queria fugir, mas não sabia para onde.
Mas o pior era pensar no mapa dela. Em como as nódoas novas se sobrepunham às coisas que escreveram juntos. No medo se ter seus grifos esquecidos.
1.12.01
Amores Perfeitos I: Vácuo
Ele era de um carisma extremo. Frases espirituosas e as piadas certas pulavam de sua boca quase sem pensar. Todos, até os invejosos, sabiam que era impossível não gostar dele.
Seus amigos se intrigavam dele não ter uma namorada. Era só escolher uma das solteiras disponíveis e seus talentos naturais cuidariam do resto. Alguns se interrogavam se ele não seria gay, mas um ou dois corações partidos entre os amigos diziam que não.
Ele sabia - e se envergonhava - da verdade. Tinha medo de ser ofuscado pela mulher que o apaixonaria. Procurava alguém sem as qualidades que admirava, mas que ainda assim guardasse algum interesse.
Encontrou sua felicidade em cabelos descoloridos, horas de malhação, calorias contadas e silicone. Ela era pouco mais que um objeto. E ele a amava justamente por isso.
Ele era de um carisma extremo. Frases espirituosas e as piadas certas pulavam de sua boca quase sem pensar. Todos, até os invejosos, sabiam que era impossível não gostar dele.
Seus amigos se intrigavam dele não ter uma namorada. Era só escolher uma das solteiras disponíveis e seus talentos naturais cuidariam do resto. Alguns se interrogavam se ele não seria gay, mas um ou dois corações partidos entre os amigos diziam que não.
Ele sabia - e se envergonhava - da verdade. Tinha medo de ser ofuscado pela mulher que o apaixonaria. Procurava alguém sem as qualidades que admirava, mas que ainda assim guardasse algum interesse.
Encontrou sua felicidade em cabelos descoloridos, horas de malhação, calorias contadas e silicone. Ela era pouco mais que um objeto. E ele a amava justamente por isso.
28.11.01
Amores Sonhados II: Divisões
Ela se apaixonava fácil. Não a cada dois passos, onde só encontrava interesses. Mas com uma freqüência e intensidade que a incomodavam mais que a seu namorado.
Não que ele soubesse das paixões além dos momentos em que ela terminava tudo, para sempre, mas percebia uma ameaça constante além do horizonte. A cada separação, encolhia os ombros resignado, sabendo que ela retornaria. Afinal, era o homem da vida dela.
Ela vivia se dividindo entre os jogos e excitações de suas novidades e seu desejo de permanência e segurança. Mas a divisão não durava muito tempo. Afinal, que tipo de segurança seria uma para qual não se pode voltar?
Numa de suas distrações, descobriu como poderia ter as duas coisas. Sem ter que escolher, sem se privar. Sonharia com suas paixões todas as noites, corrigindo os momentos de que se arrependia.
Se sentia feliz e completa em seu sucesso. Seus sonhos a permitiam viver tudo. Até que o acúmulo de um terceiro amor destruiu a perfeição de sua simultaneidade.
Ela se apaixonava fácil. Não a cada dois passos, onde só encontrava interesses. Mas com uma freqüência e intensidade que a incomodavam mais que a seu namorado.
Não que ele soubesse das paixões além dos momentos em que ela terminava tudo, para sempre, mas percebia uma ameaça constante além do horizonte. A cada separação, encolhia os ombros resignado, sabendo que ela retornaria. Afinal, era o homem da vida dela.
Ela vivia se dividindo entre os jogos e excitações de suas novidades e seu desejo de permanência e segurança. Mas a divisão não durava muito tempo. Afinal, que tipo de segurança seria uma para qual não se pode voltar?
Numa de suas distrações, descobriu como poderia ter as duas coisas. Sem ter que escolher, sem se privar. Sonharia com suas paixões todas as noites, corrigindo os momentos de que se arrependia.
Se sentia feliz e completa em seu sucesso. Seus sonhos a permitiam viver tudo. Até que o acúmulo de um terceiro amor destruiu a perfeição de sua simultaneidade.
24.11.01
Amores Fugidios II: Ônibus
Se arrependia de não ter nada para ler no arrastar do engarrafamento. Costumava enjoar nos passeios de ônibus, mas não havia movimento suficiente nem para isso. E o maldito discman esgotou as pilhas antes de terminar uma música.
Ele fora percebido no instante que sentara, mais pelo livro na mão - um dos favoritos dela - que por sua aparência. Os olhos indecisos ricocheteavam entre ele e o livro. Procurava alguma reação, mas era um daqueles livros de efeitos perniciosos e cumulativos.
Decidira que queria ser apanhada, mas mesmo assim desviava os olhos a cada possibilidade de contato. Faltava o que dizer, a palavra que iniciaria a conversa. Ele disse a primeira palavra, totalmente incongruente, ao pegar os olhos dela nos seus.
Ele deu um sorriso estrategicamente sem graça quando ela explicou o significado. A partir daí a conversa fluiu fácil - e o trânsito rápido demais. Ela ainda se arrepende de ter não ter retribuído o pedido de telefone feito por ele.
Se arrependia de não ter nada para ler no arrastar do engarrafamento. Costumava enjoar nos passeios de ônibus, mas não havia movimento suficiente nem para isso. E o maldito discman esgotou as pilhas antes de terminar uma música.
Ele fora percebido no instante que sentara, mais pelo livro na mão - um dos favoritos dela - que por sua aparência. Os olhos indecisos ricocheteavam entre ele e o livro. Procurava alguma reação, mas era um daqueles livros de efeitos perniciosos e cumulativos.
Decidira que queria ser apanhada, mas mesmo assim desviava os olhos a cada possibilidade de contato. Faltava o que dizer, a palavra que iniciaria a conversa. Ele disse a primeira palavra, totalmente incongruente, ao pegar os olhos dela nos seus.
Ele deu um sorriso estrategicamente sem graça quando ela explicou o significado. A partir daí a conversa fluiu fácil - e o trânsito rápido demais. Ela ainda se arrepende de ter não ter retribuído o pedido de telefone feito por ele.
21.11.01
Amores Complexos I: Xadrez
Jogavam xadrez à distância, um de cada lado do oceano. Suas cartas continham, entre confissões de erros e declarações de saudades, suas jogadas. Nem sempre as melhores, fato.
O xadrez os colocara juntos, ainda nos tempos de escola. Adversários bons eram difíceis de serem encontrados. Adversários agradáveis ainda mais.
Algo mais que uma amizade evoluiu daí. Escondiam isso um do outro da mesma forma óbvia com que escondiam as coisas no tabuleiro. Ao fim de um jogo longo, não havia mais nada a esconder.
Marcaram um último jogo, antes de partirem. O interromperam no meio, forma óbvia de manter contato. Nas cartas, os movimentos nunca importavam.
Jogavam xadrez à distância, um de cada lado do oceano. Suas cartas continham, entre confissões de erros e declarações de saudades, suas jogadas. Nem sempre as melhores, fato.
O xadrez os colocara juntos, ainda nos tempos de escola. Adversários bons eram difíceis de serem encontrados. Adversários agradáveis ainda mais.
Algo mais que uma amizade evoluiu daí. Escondiam isso um do outro da mesma forma óbvia com que escondiam as coisas no tabuleiro. Ao fim de um jogo longo, não havia mais nada a esconder.
Marcaram um último jogo, antes de partirem. O interromperam no meio, forma óbvia de manter contato. Nas cartas, os movimentos nunca importavam.
17.11.01
Amores Irreais I: Planos
Ela era, sem a mínima sombra de dúvida, a mulher mais perfeita que ele já vira. Não, pensava ele, a coisa mais perfeita que ele já vira ou sobre a qual tinha conhecimento. Ele não cansava de olhá-la furtivamente, para não levantar suspeitas.
Tudo nela era perfeito. A cor e textura dos cabelos e pele, o formato e rubor dos lábios e rosto. Era sua mulher ideal, mesmo que só tivesse seis anos.
Seu fascínio - e fantasias - por ela o perturbavam profundamente. Nunca se sentira atraído desse modo por nenhuma criança. Acordava à beira das lágrimas cada vez que sonhava com a garotinha no fim da rua.
O que o perturbava mais que tudo eram seus cálculos. Faltavam dez anos até a data que marcara para cortejá-la como achava apropriado. Nunca algo tão planejado pareceria tão repentino.
Ela era, sem a mínima sombra de dúvida, a mulher mais perfeita que ele já vira. Não, pensava ele, a coisa mais perfeita que ele já vira ou sobre a qual tinha conhecimento. Ele não cansava de olhá-la furtivamente, para não levantar suspeitas.
Tudo nela era perfeito. A cor e textura dos cabelos e pele, o formato e rubor dos lábios e rosto. Era sua mulher ideal, mesmo que só tivesse seis anos.
Seu fascínio - e fantasias - por ela o perturbavam profundamente. Nunca se sentira atraído desse modo por nenhuma criança. Acordava à beira das lágrimas cada vez que sonhava com a garotinha no fim da rua.
O que o perturbava mais que tudo eram seus cálculos. Faltavam dez anos até a data que marcara para cortejá-la como achava apropriado. Nunca algo tão planejado pareceria tão repentino.
14.11.01
Amores Mortos I: Enterro
Ele morrera de repente, mas não tão rápido a ponto do pior ser a surpresa. Dores de cabeça, um tumor enorme que esperou pouco para estourar. Houve o tempo para o desespero em beber tudo que tinham a se oferecer.
Ela via o tempo como insuficiente. Principalmente agora, enquanto assistia o rosto lindo e branco entre as flores amarelas. Ele sempre ficou melhor sem óculos, mesmo que teimasse em não usar lentes.
Ele desejava ser cremado, disse várias vezes que se apavorava com a idéia dos mortos sob a terra. Ela não conseguiu respeitar isso. Não poderia destruí-lo irreversívelmente desse modo.
Pensava em desenterrá-lo breve (como pensara em comer suas cinzas). Sabia que não faria isso. Mesmo assim a pá no carro a confortava.
Ele morrera de repente, mas não tão rápido a ponto do pior ser a surpresa. Dores de cabeça, um tumor enorme que esperou pouco para estourar. Houve o tempo para o desespero em beber tudo que tinham a se oferecer.
Ela via o tempo como insuficiente. Principalmente agora, enquanto assistia o rosto lindo e branco entre as flores amarelas. Ele sempre ficou melhor sem óculos, mesmo que teimasse em não usar lentes.
Ele desejava ser cremado, disse várias vezes que se apavorava com a idéia dos mortos sob a terra. Ela não conseguiu respeitar isso. Não poderia destruí-lo irreversívelmente desse modo.
Pensava em desenterrá-lo breve (como pensara em comer suas cinzas). Sabia que não faria isso. Mesmo assim a pá no carro a confortava.
10.11.01
Amores Sonhados I: Encanto
Sentia algo importante escorrer entre seus dedos ao acordar. Ignorava se era um sonho ou uma lembrança. Percorreu sua memória durante todo o dia, mas as bagatelas do cotidiano o resgatavam com freqüência.
Na noite, corria por imagens sem rumo, percebendo que - em momentos que não conseguia definir - a película entre seu sonho e sua memória enfraquecia. Agora, com sono, acreditava que fora um sonho que causara sua inquietude agridoce.
Teve a certeza finalmente ao adormecer. Sonhou, enquanto ainda não adormecido propriamente, o mesmo sonho. Breve, fugidio, real.
Acordou assustado, lembrando-se das mãos improváveis de um perene e difícil fascínio deslizando por seus cabelos. Acreditava ser uma memória. No calor do quarto escuro, repetia o nome dela como um encanto.
Sentia algo importante escorrer entre seus dedos ao acordar. Ignorava se era um sonho ou uma lembrança. Percorreu sua memória durante todo o dia, mas as bagatelas do cotidiano o resgatavam com freqüência.
Na noite, corria por imagens sem rumo, percebendo que - em momentos que não conseguia definir - a película entre seu sonho e sua memória enfraquecia. Agora, com sono, acreditava que fora um sonho que causara sua inquietude agridoce.
Teve a certeza finalmente ao adormecer. Sonhou, enquanto ainda não adormecido propriamente, o mesmo sonho. Breve, fugidio, real.
Acordou assustado, lembrando-se das mãos improváveis de um perene e difícil fascínio deslizando por seus cabelos. Acreditava ser uma memória. No calor do quarto escuro, repetia o nome dela como um encanto.
Amores Fugidios I: Pizza
Ela sempre abria a porta para ele e a calabresa de todo domingo. Sempre bonita - arrumada demais para uma noite de domingo - e apressada para sair. Ele sempre se perguntava onde ela iria.
Ele tinha certeza que ela nunca comeu das pizzas que ele trouxe. Elas normalmente pulavam para crianças falando "mamãe". Recém-divorciada, sempre pagava em dinheiro: nada de nomes.
Ela era só mais uma cliente bonita em que pensar. Até que - chegando em dez, não quinze, minutos - ela abriu a porta escovando os dentes. E - sem idéia do motivo - surge uma paixão sem sentido.
Ele imaginava os olhos constrangidos dela ao passar pela rua. A placa "vende-se" quase o derruba. A lista telefônica não é de nenhuma ajuda.
Ela sempre abria a porta para ele e a calabresa de todo domingo. Sempre bonita - arrumada demais para uma noite de domingo - e apressada para sair. Ele sempre se perguntava onde ela iria.
Ele tinha certeza que ela nunca comeu das pizzas que ele trouxe. Elas normalmente pulavam para crianças falando "mamãe". Recém-divorciada, sempre pagava em dinheiro: nada de nomes.
Ela era só mais uma cliente bonita em que pensar. Até que - chegando em dez, não quinze, minutos - ela abriu a porta escovando os dentes. E - sem idéia do motivo - surge uma paixão sem sentido.
Ele imaginava os olhos constrangidos dela ao passar pela rua. A placa "vende-se" quase o derruba. A lista telefônica não é de nenhuma ajuda.
9.11.01
Ninguém tem passado
Amor real não guarda pó
Escrevi isso com palavras coladas em ímãs. Acho que se procurasse mais palavras, saia algo melhor. Mas o exercício é muito interessante.
Amor real não guarda pó
Escrevi isso com palavras coladas em ímãs. Acho que se procurasse mais palavras, saia algo melhor. Mas o exercício é muito interessante.
30.10.01
Senryu: Sorriso em rua cheia
em 28.03.00
A menina, sem notar,
Vira um pescoço,
Despertando meu sorriso.
em 28.03.00
A menina, sem notar,
Vira um pescoço,
Despertando meu sorriso.
21.10.01
Senryu no trem
em 26.12.99
Num instante de escuridão,
Um rápido beijo
Roubado de um rosto em branco
em 26.12.99
Num instante de escuridão,
Um rápido beijo
Roubado de um rosto em branco
17.10.01
Hai-kai na janela I
em 17.10.01
Da minha janela
Não vejo quase que nada:
Cortina fechada
(Fiz esse para o Janelas do Mundo, projeto do professor André Lemos)
em 17.10.01
Da minha janela
Não vejo quase que nada:
Cortina fechada
(Fiz esse para o Janelas do Mundo, projeto do professor André Lemos)
16.10.01
Dos Diários de Ulisses VII
em 14.02.01
Há muito não conto com a gentileza de Apolo. Sabia que seria
desprezado depois de Tróia - mas nunca imaginei que o Sol sairia
de seu caminho para interferir em meus sonhos. O deus me
amaldiçoou com a benção da profecia perfeita.
Todos os presságios presentes e passados passam por mim. Há
mil mundos em meus sonhos, mais idéias do que posso contar.
Mais vidas do que posso viver.
E contra sonhos não há luta.
em 14.02.01
Há muito não conto com a gentileza de Apolo. Sabia que seria
desprezado depois de Tróia - mas nunca imaginei que o Sol sairia
de seu caminho para interferir em meus sonhos. O deus me
amaldiçoou com a benção da profecia perfeita.
Todos os presságios presentes e passados passam por mim. Há
mil mundos em meus sonhos, mais idéias do que posso contar.
Mais vidas do que posso viver.
E contra sonhos não há luta.
28.9.01
Na Madrugada
em 28.09.01
"Ela tinha razão."
Era só o que ele conseguia pensar enquanto escutava o disco. Agora, enquanto tentava ouvi-lo apenas como algo relaxante para que pudesse dormir, não conseguia evitar a opressão estocada ali.
"Não ouço música quando estou triste. Deito e choro. Já perdi vários discos assim, ouvindo música nas horas erradas. Quando paro para pensar, acho que fico mais triste pelos discos que pelos motivos originais das tristezas."
Ele se via obrigado a concordar - apesar da veemência com que discordou originalmente. E ter que reconhecer que ela tinha razão só piorava a situação: a recordação da conversa e de estar lá lembravam outros momentos, outros erros.
Chegou a uma conclusão. Nada de Folk para dormir: Ambient.
em 28.09.01
"Ela tinha razão."
Era só o que ele conseguia pensar enquanto escutava o disco. Agora, enquanto tentava ouvi-lo apenas como algo relaxante para que pudesse dormir, não conseguia evitar a opressão estocada ali.
"Não ouço música quando estou triste. Deito e choro. Já perdi vários discos assim, ouvindo música nas horas erradas. Quando paro para pensar, acho que fico mais triste pelos discos que pelos motivos originais das tristezas."
Ele se via obrigado a concordar - apesar da veemência com que discordou originalmente. E ter que reconhecer que ela tinha razão só piorava a situação: a recordação da conversa e de estar lá lembravam outros momentos, outros erros.
Chegou a uma conclusão. Nada de Folk para dormir: Ambient.
22.9.01
En Chassant l'Idée
em 22.09.01
Passeava pelo conto com sofreguidão, narrando sua própria leitura. Sabia que havia encontrado uma idéia ali. E - como acontecia toda semana - a perdeu ali também, algumas palavras mais pra lá, um pouco depois da esquina.
Entrada em cada frase, cada palavra, como deve-se percorrer os textos divinatórios. Cada palavra se oferecia em várias direções, mas nunca como ele queria. Fingiu até abraçar uma das novas idéias que encontrou, esperando que a outra aparecesse na porta e pedisse explicações.
Nada.
Desistiu, quase de verdade. Aquela idéia era só mais uma sentada num café: uma possibilidade que não resistiria ao tempo.
em 22.09.01
Passeava pelo conto com sofreguidão, narrando sua própria leitura. Sabia que havia encontrado uma idéia ali. E - como acontecia toda semana - a perdeu ali também, algumas palavras mais pra lá, um pouco depois da esquina.
Entrada em cada frase, cada palavra, como deve-se percorrer os textos divinatórios. Cada palavra se oferecia em várias direções, mas nunca como ele queria. Fingiu até abraçar uma das novas idéias que encontrou, esperando que a outra aparecesse na porta e pedisse explicações.
Nada.
Desistiu, quase de verdade. Aquela idéia era só mais uma sentada num café: uma possibilidade que não resistiria ao tempo.
14.9.01
Uma Alternativa Datada
em 28.10.99
Conversas em mezaninos e varandas. O tilintar de taças. Olhares furtivos para o horizonte e não tão furtivos por entre decotes. Relógios checados a cada minuto, em busca de mais tempo. Inexiste mais tempo. Uma resignação quase alegre se mistura no ar com a música e os muitos perfumes.
Tudo começa a se definir no horizonte, tão impossível de impedir ou adiar quanto de não se maravilhar. Fascínio e civilidade. Nenhuma descrença ou desespero. Os últimos brindes, beijos e palavras. A última música, a lembrança de algo que deveria ter
sido feito...
Uma última olhada no relógio confirma: tudo bem a tempo.
em 28.10.99
Conversas em mezaninos e varandas. O tilintar de taças. Olhares furtivos para o horizonte e não tão furtivos por entre decotes. Relógios checados a cada minuto, em busca de mais tempo. Inexiste mais tempo. Uma resignação quase alegre se mistura no ar com a música e os muitos perfumes.
Tudo começa a se definir no horizonte, tão impossível de impedir ou adiar quanto de não se maravilhar. Fascínio e civilidade. Nenhuma descrença ou desespero. Os últimos brindes, beijos e palavras. A última música, a lembrança de algo que deveria ter
sido feito...
Uma última olhada no relógio confirma: tudo bem a tempo.
31.8.01
Prozac Pulp
em 26.10.99
É noite na Cidade. Uma noite quente, daquelas em que ter ou não ter um ventilador não faz a mínima diferença. E mesmo assim não consigo me desfazer do chapéu e do sobretudo. Maldito Bogart. Tirá-los me deixa tão vazio e desprotegido...
E não posso parecer vazio e desprotegido na minha linha de trabalho. Principalmente depois da demissão. Fiz o possível para ser demitido, os direitos trabalhistas compensavam. (Se meu pai me visse agora, comprando meus mentolados com o dinheiro do contribuinte...) Meu analista acha que foi uma péssima jogada falar sobre os Arcontes. Mas o que posso fazer. É a mais pura verdade. Ou um dos dois aparentes lados da Moebius do real.
Nada me entretém nessa noite. Nem o rádio que toca Blue Moon, nem brincar com meu zippo, nem as revistas pornográficas. Por que diabos as comprei? Não consigo me livrar da fascinação mórbida que me tomou depois de ver o que os servos dos Arcontes tinham que fazer com as garotas antes de alimentar o Filho da Lua. Ainda posso ver a imagem atrás dos meus olhos. Toda pornografia precisa de degradação, mas agora vejo tudo degradado. (Será só desejo essa inquietação?)
Não agüento mais ficar acordado nesse escritório infernal. É estranho ver o olho na porta. Principalmente depois de anos correndo na frente de policiais e de meus hoje colegas para perguntar o que esperavam ver já tendo as fotos no filme. Eu devia ter corrido menos naquele dia. E devia ter jogado o filme fora. Não que faça diferença para Eles que eu saiba ou não. Mas faz para mim. Eu gostaria de poder ignorar o que tenho em mãos.
Me pego mais uma vez perto da porta, olhando para as fotos novamente expostas no varal. A porta já estava aberta. Estranho como me sinto sentado ainda (novamente?)... Mas não posso, por mais que deseje, sair. A Célula espera me encontrar aqui. Chang disse que só os riscos de giz me protegem Deles. Há dois dias não tenho coragem de tentar sair do círculo. Chinês maldito. Sempre sabe de tudo. Definitivamente ele não aprovaria o uso de whisky ou coca agora.
O barulho da chuva me atrai até a janela. O vento se apressando e os pingos cada vez maiores e mais frios quase acabam com minha infelicidade tão cultivada. Ainda bem que a pílula amarela e azul de que tanto preciso acabou de escorregar para a rua.
A espera acaba de aumentar.
em 26.10.99
É noite na Cidade. Uma noite quente, daquelas em que ter ou não ter um ventilador não faz a mínima diferença. E mesmo assim não consigo me desfazer do chapéu e do sobretudo. Maldito Bogart. Tirá-los me deixa tão vazio e desprotegido...
E não posso parecer vazio e desprotegido na minha linha de trabalho. Principalmente depois da demissão. Fiz o possível para ser demitido, os direitos trabalhistas compensavam. (Se meu pai me visse agora, comprando meus mentolados com o dinheiro do contribuinte...) Meu analista acha que foi uma péssima jogada falar sobre os Arcontes. Mas o que posso fazer. É a mais pura verdade. Ou um dos dois aparentes lados da Moebius do real.
Nada me entretém nessa noite. Nem o rádio que toca Blue Moon, nem brincar com meu zippo, nem as revistas pornográficas. Por que diabos as comprei? Não consigo me livrar da fascinação mórbida que me tomou depois de ver o que os servos dos Arcontes tinham que fazer com as garotas antes de alimentar o Filho da Lua. Ainda posso ver a imagem atrás dos meus olhos. Toda pornografia precisa de degradação, mas agora vejo tudo degradado. (Será só desejo essa inquietação?)
Não agüento mais ficar acordado nesse escritório infernal. É estranho ver o olho na porta. Principalmente depois de anos correndo na frente de policiais e de meus hoje colegas para perguntar o que esperavam ver já tendo as fotos no filme. Eu devia ter corrido menos naquele dia. E devia ter jogado o filme fora. Não que faça diferença para Eles que eu saiba ou não. Mas faz para mim. Eu gostaria de poder ignorar o que tenho em mãos.
Me pego mais uma vez perto da porta, olhando para as fotos novamente expostas no varal. A porta já estava aberta. Estranho como me sinto sentado ainda (novamente?)... Mas não posso, por mais que deseje, sair. A Célula espera me encontrar aqui. Chang disse que só os riscos de giz me protegem Deles. Há dois dias não tenho coragem de tentar sair do círculo. Chinês maldito. Sempre sabe de tudo. Definitivamente ele não aprovaria o uso de whisky ou coca agora.
O barulho da chuva me atrai até a janela. O vento se apressando e os pingos cada vez maiores e mais frios quase acabam com minha infelicidade tão cultivada. Ainda bem que a pílula amarela e azul de que tanto preciso acabou de escorregar para a rua.
A espera acaba de aumentar.
28.8.01
21.8.01
Necrópole Pessoal - 3 de ?
em algum momento de 2000
Ele andava só pelas ruas, mesmo depois do acidente. Vestia um terno desbotado e um chapéu amassado, vagava de ponto em ponto carregando um sorriso e o violão.
A rotina dele era bastante semelhante à de um grande período da sua vida: entrava pela porta da frente, tirava o chapéu numa reverência enquanto sussurrava boa noite, dizia o nome de uma música e começava a tocar.
A diferença maior começava nesse momento. Às vezes com sorrisos sem motivo, outras com beijos apaixonados, poucas - com o ônibus particularmente vazio e silencioso - gritos assustados. Mas sempre era notado. E - de um modo que justificava a insistência - aplaudido.
em algum momento de 2000
Ele andava só pelas ruas, mesmo depois do acidente. Vestia um terno desbotado e um chapéu amassado, vagava de ponto em ponto carregando um sorriso e o violão.
A rotina dele era bastante semelhante à de um grande período da sua vida: entrava pela porta da frente, tirava o chapéu numa reverência enquanto sussurrava boa noite, dizia o nome de uma música e começava a tocar.
A diferença maior começava nesse momento. Às vezes com sorrisos sem motivo, outras com beijos apaixonados, poucas - com o ônibus particularmente vazio e silencioso - gritos assustados. Mas sempre era notado. E - de um modo que justificava a insistência - aplaudido.
15.8.01
Necrópole Pessoal - 2 de ?
em algum momento de 2000
Há muito tempo, segundo o próprio, ele vinha sendo assombrado por um amor antigo. Na maior parte do tempo, era fácil ignorar. Bastava se concentrar em outra pessoa e as coisas transcorriam sem muitos problemas.
Mas, ultimamente, tudo vinha se complicando. Ele tinha encontrado uma nova paixão. Mas, em momentos cada vez mais freqüentes, ele enxergava nela seu antigo amor. Os indícios iam se acumulando aos poucos. Num dia, o mesmo número na tintura de cabelo. Noutra noite, a mesma combinação de velas, música, taças e talheres de anos passados.
Não que ele desgostasse da situação: tinha saudades daquele amor morto. Mas já o tinha - dizia - enterrado. Mas queria viver o amor novo. Mesmo que só pelos medos dos erros antigos.
O fantasma distante foi dominando a situação atual a tal ponto que - durante algumas semanas - o amor do momento é que era a memória etérea.
Uma tarde de domingo assistiu, entre gemidos e corpos suados, o fantasma partir. Bastou um nome - certo ou errado - sussurrado uma única vez.
em algum momento de 2000
Há muito tempo, segundo o próprio, ele vinha sendo assombrado por um amor antigo. Na maior parte do tempo, era fácil ignorar. Bastava se concentrar em outra pessoa e as coisas transcorriam sem muitos problemas.
Mas, ultimamente, tudo vinha se complicando. Ele tinha encontrado uma nova paixão. Mas, em momentos cada vez mais freqüentes, ele enxergava nela seu antigo amor. Os indícios iam se acumulando aos poucos. Num dia, o mesmo número na tintura de cabelo. Noutra noite, a mesma combinação de velas, música, taças e talheres de anos passados.
Não que ele desgostasse da situação: tinha saudades daquele amor morto. Mas já o tinha - dizia - enterrado. Mas queria viver o amor novo. Mesmo que só pelos medos dos erros antigos.
O fantasma distante foi dominando a situação atual a tal ponto que - durante algumas semanas - o amor do momento é que era a memória etérea.
Uma tarde de domingo assistiu, entre gemidos e corpos suados, o fantasma partir. Bastou um nome - certo ou errado - sussurrado uma única vez.
4.8.01
Torpor
Em 08.11.99
na noite, sozinho
sonhava com o torpor
de seu narguilé
Em 08.11.99
na noite, sozinho
sonhava com o torpor
de seu narguilé
1.8.01
Dos Diários de Ulisses VI
em 10.10.00
Não consigo mais lembrar todas as aventuras por que passei. Desde
de Ítaca, perdi a conta das vezes que vi ao largo o Barqueiro e
coloquei um óbulo em minha boca. Entre os poucos achados e
muitos perdidos, a única constância foi esse diário.
No último desequilíbrio da Fortuna, houve um momento que pude
escolher entre meu arco e estas notas. Mas salvar o diário era todo
o importante. Mesmo ao pensar - faminto - na minha arquearia, não
consigo me arrepender.
As notas são minha imortalidade.
em 10.10.00
Não consigo mais lembrar todas as aventuras por que passei. Desde
de Ítaca, perdi a conta das vezes que vi ao largo o Barqueiro e
coloquei um óbulo em minha boca. Entre os poucos achados e
muitos perdidos, a única constância foi esse diário.
No último desequilíbrio da Fortuna, houve um momento que pude
escolher entre meu arco e estas notas. Mas salvar o diário era todo
o importante. Mesmo ao pensar - faminto - na minha arquearia, não
consigo me arrepender.
As notas são minha imortalidade.
28.7.01
Da natureza do Mal
em 28.07.01
Após conhecer o Mal, tudo perde seu significado e se transforma. Cada rosto e lugar, sobretudo os mais familiares, se tornam outra coisa. Há um peso que perdura durante muito tempo, mesmo que a escolha tenha sido não abraçar o Mal: paga-se do mesmo jeito. Castigos não escolhem seus culpados pela razão.
E corre-se por longos corredores, por ruas escuras e escadas sem fim, perseguido por um algoz invisível, contra o qual não há nada a fazer. Há a certeza que a qualquer momento o Mal se fará presente e há a ansiedade de encontrá-lo. Por fim à fuga, às punições e confrontar ou abraçar o terror provocado por ele.
Os anos passam em fuga, na certeza de que o Mal é terrível. Até o acaso colocá-los lado a lado. E vê-se que não há motivo para temer, que os poderes do oponente se desfizeram há muito. Que não há nada mais lá.
Até que se acorda gritando, sabendo onde o Mal se instalou.
em 28.07.01
Após conhecer o Mal, tudo perde seu significado e se transforma. Cada rosto e lugar, sobretudo os mais familiares, se tornam outra coisa. Há um peso que perdura durante muito tempo, mesmo que a escolha tenha sido não abraçar o Mal: paga-se do mesmo jeito. Castigos não escolhem seus culpados pela razão.
E corre-se por longos corredores, por ruas escuras e escadas sem fim, perseguido por um algoz invisível, contra o qual não há nada a fazer. Há a certeza que a qualquer momento o Mal se fará presente e há a ansiedade de encontrá-lo. Por fim à fuga, às punições e confrontar ou abraçar o terror provocado por ele.
Os anos passam em fuga, na certeza de que o Mal é terrível. Até o acaso colocá-los lado a lado. E vê-se que não há motivo para temer, que os poderes do oponente se desfizeram há muito. Que não há nada mais lá.
Até que se acorda gritando, sabendo onde o Mal se instalou.
25.7.01
Dos Diários de Ulisses V
em 25.09.00
Lembro agora de Cassandra, pouco antes de ser arrastado para Tróia.
Uma voz fantasma a recitar o futuro, presa em transe. Ela tentou nos
dissuadir da guerra, mas seu tagarelar de futuros exatos a tornava
incapaz de convencimento. Um espelho preso numa cela.
Voltando sua atenção para eu onde deveria estar, Cassandra desfiou
cada detalhe de minha viagem. Do cavalo ao naufrágio, cada momento
foi descrito com uma rapidez e precisão impossível. E é isso que a
torna a profetisa perfeita: os futuros ocorrem por não serem
lembrados até serem já.
Me apavora não lembrar os erros que vou cometer.
em 25.09.00
Lembro agora de Cassandra, pouco antes de ser arrastado para Tróia.
Uma voz fantasma a recitar o futuro, presa em transe. Ela tentou nos
dissuadir da guerra, mas seu tagarelar de futuros exatos a tornava
incapaz de convencimento. Um espelho preso numa cela.
Voltando sua atenção para eu onde deveria estar, Cassandra desfiou
cada detalhe de minha viagem. Do cavalo ao naufrágio, cada momento
foi descrito com uma rapidez e precisão impossível. E é isso que a
torna a profetisa perfeita: os futuros ocorrem por não serem
lembrados até serem já.
Me apavora não lembrar os erros que vou cometer.
19.7.01
Dos diários de Ulisses IV
em 17.04.00
Nâo decidi se as noites no Argos me agradam. Nas noites há paz para
pensar e fazer anotações em meu diário. Há uma certa tranqülidade -
sem sentido - em não ver as pedras das quais devo desviar.
Estranho como o vento se mantem morno na noite enquanto as cabines
ficam frias. Sinto muitas saudades dos tempos antes de Tróia quando
estou lá. Me sinto mais seguro na proa, como se Posseidon quisesse
minha companhia.
Talvez por isso ele me mantenha longe de casa.
em 17.04.00
Nâo decidi se as noites no Argos me agradam. Nas noites há paz para
pensar e fazer anotações em meu diário. Há uma certa tranqülidade -
sem sentido - em não ver as pedras das quais devo desviar.
Estranho como o vento se mantem morno na noite enquanto as cabines
ficam frias. Sinto muitas saudades dos tempos antes de Tróia quando
estou lá. Me sinto mais seguro na proa, como se Posseidon quisesse
minha companhia.
Talvez por isso ele me mantenha longe de casa.
14.7.01
Dos Diários de Ulisses III
em 26.03.00
Tenho pensado muito sobre o Cíclope, sobre a existência. Com seu único
olho e forças e tamanho descomunais, o Cíclope tinha uma existência
perfeita - se julgava perfeito. Devo admitir que - a princípio - me encantei por
ele: nem o Pégaso, nem Aquiles, ele era o maior prodígio que já vira.
Percebi, porém, que o Cíclope nunca seria mais do já que era. Ovelhas e
uns marinheiros aqui e ali eram tudo que ele precisava para se satisfazer.
Diante daquilo que ele poderia ser - caso fizesse o esforço - o Cíclope me
parecia baixo e animalesco.
Foi isso que me forçou a cegá-lo.
em 26.03.00
Tenho pensado muito sobre o Cíclope, sobre a existência. Com seu único
olho e forças e tamanho descomunais, o Cíclope tinha uma existência
perfeita - se julgava perfeito. Devo admitir que - a princípio - me encantei por
ele: nem o Pégaso, nem Aquiles, ele era o maior prodígio que já vira.
Percebi, porém, que o Cíclope nunca seria mais do já que era. Ovelhas e
uns marinheiros aqui e ali eram tudo que ele precisava para se satisfazer.
Diante daquilo que ele poderia ser - caso fizesse o esforço - o Cíclope me
parecia baixo e animalesco.
Foi isso que me forçou a cegá-lo.
11.7.01
Dos diários de Ulisses II
em 15.03.00
Não é Ítaca que me causa saudades. Nem os tempos calmos antes da
Guerra. Dói reconhecer - com vergonha - que Tróia foi só uma
distração de minha tortura.
Nunca percebi quanto o mundo era grande até tentar voltar para
casa. Ele me distrai e me dá algo para tentar esconder meus
pensamentos agora. As Sereias quase me entreteram. Circe e o
Ciclope foram particularmente desafiadores.
Mas nada está além de Penélope
em 15.03.00
Não é Ítaca que me causa saudades. Nem os tempos calmos antes da
Guerra. Dói reconhecer - com vergonha - que Tróia foi só uma
distração de minha tortura.
Nunca percebi quanto o mundo era grande até tentar voltar para
casa. Ele me distrai e me dá algo para tentar esconder meus
pensamentos agora. As Sereias quase me entreteram. Circe e o
Ciclope foram particularmente desafiadores.
Mas nada está além de Penélope
Dos diários de Ulisses
11.01.00
Se uma sereia fosse isolada de seu mar - apesar de continuar com
sua beleza pouco prática - seu canto perderia o efeito. Não só
pela saudade que sentiria de suas companheiras ou pela
complicada cacofonia do grupo.
Mas por que lhe faltaria o fundo da canção. Sem o som das ondas
e a acústica do local, o canto se torna excessivamente agudo.
belo, mas difícil aos ouvidos.
É tudo que tenho a dizer sobre as sereias.
11.01.00
Se uma sereia fosse isolada de seu mar - apesar de continuar com
sua beleza pouco prática - seu canto perderia o efeito. Não só
pela saudade que sentiria de suas companheiras ou pela
complicada cacofonia do grupo.
Mas por que lhe faltaria o fundo da canção. Sem o som das ondas
e a acústica do local, o canto se torna excessivamente agudo.
belo, mas difícil aos ouvidos.
É tudo que tenho a dizer sobre as sereias.
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