Gentileza sob o Sol
30.04.02
Não consigo me livrar de você sob o sol. Por mais que tente, você contra o carro, o ar de desolação, o olhar no nada persistem. São a marca de um jogo encerrado. Ou outro – muito menos agradável – que começa. Você brilhando ao sol marcou o início do pior dos jogos: gentileza.
Sei que não era para mim que você estava lá. Que não era nenhum comunicado de fatos, mas a simples constatação de um estado em especial, sem se importar com quem assistia. Desolação ou vertigem, a razão não era importante. Mas era algo que não deveria ter visto.
Sabia que – de todos – era o único proibido de me aproximar. As regras da gentileza são muito claras, apesar de impossíveis de serem seguidas. Sufocar a curiosidade, ignorar a humanidade, tentar me desfazer do carinho. Fingir desprezar sua imagem sob o sol.
Tudo em nome do bom tom, do correto: das regras da gentileza.
30.4.02
15.4.02
Parábola I
Em 15.04.02
Há muito, Chuang Tzu tinha um discípulo que procurava no corpo a chave do espírito e na luta o caminho da paz. Ele sabia que estaria pronto quando fosse capaz de, com um golpe do seu punho, parar por um momento todo o rio Amarelo.
Chuang Tzu só permitiu a ele uma chance de tentar, pois sabia que o mundo não pode ser a vítima da vaidade do homem.
Depois de anos, o discípulo foi até o mestre, dizendo estar pronto para o teste. O mestre assentiu: ele estava pronto.
O discípulo andou até a margem do rio e desferiu seu golpe.
Nada. Era como se o golpe nunca tivesse sido recebido.
O discípulo foi até Chuang Tzu, sabendo que havia desperdiçado toda a sua vida. "Mas o senhor não julgou que eu estava pronto, mestre", foi a pergunta.
"Estar pronto não significa vencer," disse Chuang Tzu.
Em 15.04.02
Há muito, Chuang Tzu tinha um discípulo que procurava no corpo a chave do espírito e na luta o caminho da paz. Ele sabia que estaria pronto quando fosse capaz de, com um golpe do seu punho, parar por um momento todo o rio Amarelo.
Chuang Tzu só permitiu a ele uma chance de tentar, pois sabia que o mundo não pode ser a vítima da vaidade do homem.
Depois de anos, o discípulo foi até o mestre, dizendo estar pronto para o teste. O mestre assentiu: ele estava pronto.
O discípulo andou até a margem do rio e desferiu seu golpe.
Nada. Era como se o golpe nunca tivesse sido recebido.
O discípulo foi até Chuang Tzu, sabendo que havia desperdiçado toda a sua vida. "Mas o senhor não julgou que eu estava pronto, mestre", foi a pergunta.
"Estar pronto não significa vencer," disse Chuang Tzu.
11.4.02
Reciprocidade
Em 11.04.02
Tudo que eu queria era reciprocidade.
De qualquer tipo, de todos os tipos. Claro que, inicialmente, dos sentimentos positivos. Reciprocidade de curiosidades, de olhares, de interesses. A ansiedade pelo momento em que ele me olharia como há tempos eu já o via em segredo. O processo lento de torná-lo meu, até que ele achasse que se apaixonou por mim – pela simplicidade sem sentido que ele teima em enxergar – e se aproximasse.
Foi assim que, por um tempo, aconteceu. Ele acreditou que tinha encontrado sua história simples : “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. A história que ele tanto repetia para mim, como um elogio. Ele nunca soube, mas me ofendia a cada vez que ele repetia o slogan. “Nada demais”, dizia, no fim das contas.
Mas era recíproco. Ele me amava e era suficiente. Por todas as razões erradas, mas era o suficiente. Ele me amava por ficar quieta, por não entender, por cozinhar e mil outras coisa. Mas, mais que tudo, por deixá-lo em paz. Por não ser ela.
Hoje penso se não fiz e enxerguei tudo errado nele. Sempre busquei reciprocidade, manter os dois sem dívidas entre nós, sem raivas, sem nada que pudesse desfazer o equilíbrio. Demorei tempo demais para descobrir que ele não funciona assim. Que ninguém além de mim funciona assim. Quando percebi que estávamos perto demais de só existir indiferença, acabei com um saldo que acabou com tudo. Não consegui não sentir nada por ele.
Mesmo agora, quando não há mais nada, continuo sentindo coisas demais por ele. Raiva, saudades, pena... Até amor. E nada. Nenhuma reciprocidade.
Nem no telefone.
Em 11.04.02
Tudo que eu queria era reciprocidade.
De qualquer tipo, de todos os tipos. Claro que, inicialmente, dos sentimentos positivos. Reciprocidade de curiosidades, de olhares, de interesses. A ansiedade pelo momento em que ele me olharia como há tempos eu já o via em segredo. O processo lento de torná-lo meu, até que ele achasse que se apaixonou por mim – pela simplicidade sem sentido que ele teima em enxergar – e se aproximasse.
Foi assim que, por um tempo, aconteceu. Ele acreditou que tinha encontrado sua história simples : “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. A história que ele tanto repetia para mim, como um elogio. Ele nunca soube, mas me ofendia a cada vez que ele repetia o slogan. “Nada demais”, dizia, no fim das contas.
Mas era recíproco. Ele me amava e era suficiente. Por todas as razões erradas, mas era o suficiente. Ele me amava por ficar quieta, por não entender, por cozinhar e mil outras coisa. Mas, mais que tudo, por deixá-lo em paz. Por não ser ela.
Hoje penso se não fiz e enxerguei tudo errado nele. Sempre busquei reciprocidade, manter os dois sem dívidas entre nós, sem raivas, sem nada que pudesse desfazer o equilíbrio. Demorei tempo demais para descobrir que ele não funciona assim. Que ninguém além de mim funciona assim. Quando percebi que estávamos perto demais de só existir indiferença, acabei com um saldo que acabou com tudo. Não consegui não sentir nada por ele.
Mesmo agora, quando não há mais nada, continuo sentindo coisas demais por ele. Raiva, saudades, pena... Até amor. E nada. Nenhuma reciprocidade.
Nem no telefone.
3.4.02
Pulp Hack
Barato, barato. Como um romance de banca. Muito barato. Sujo e sujando os dedos, como todas as coisas que vendiam nas bancas de revista da cidade. Como a própria cidade. Era assim que o escritor queria se sentir, martelando na máquina de escrever. Nada de computadores. Computadores são limpos como hospitais, frios como a noite e várias outras metáforas que ele ficava tentando se convencer que eram verdadeiras enquanto os dedos doíam, nas pancadas fortes para compensar a fita gasta.
As coisas se complicavam ao se somar o whisky que teimava em beber para parecer mais barato. A bebida travava em sua garganta e dava trabalho de botar na garrafinha de metal, mas era isso que seus heróis dentro e fora dos livros bebiam e diziam beber. Não importava o preço. Pagaria o quanto fosse necessário pela bebida barata como as putas que ele pensava de modo meio distante em contratar algum dia. Já tinha até feito as contas. As putas baratas corretas iam custar ainda mais caro que a bebida barata correta. O vestido anos 40, o chapéu e os cigarros sem dúvida seriam cobrados como um fetiche.
Bebia, bebia e martelava na máquina. Tentava escorrer a consciência como o sangue e as metáforas baratas nas ruas da cidade nua. Mas não conseguia desligar suas neuroses pós-industriais. E o calor, que o fazia suar como um dedo-duro dentro da cadeia, como devia suar na Califórnia.
Martelava, prendia os dedos e dava ânsias a cada gole, mas não conseguia ser pulp. Era impossível ser barato. Conseguiu se escorar até o banheiro, se desviando das luzes que colocou pelo caminho para conseguir a iluminação correta. Vomitou e desmaiou ao lado da privada, sabendo que nunca seria pulp. No mínimo um Raymond Chandler.
E teria que viver com isso.
Barato, barato. Como um romance de banca. Muito barato. Sujo e sujando os dedos, como todas as coisas que vendiam nas bancas de revista da cidade. Como a própria cidade. Era assim que o escritor queria se sentir, martelando na máquina de escrever. Nada de computadores. Computadores são limpos como hospitais, frios como a noite e várias outras metáforas que ele ficava tentando se convencer que eram verdadeiras enquanto os dedos doíam, nas pancadas fortes para compensar a fita gasta.
As coisas se complicavam ao se somar o whisky que teimava em beber para parecer mais barato. A bebida travava em sua garganta e dava trabalho de botar na garrafinha de metal, mas era isso que seus heróis dentro e fora dos livros bebiam e diziam beber. Não importava o preço. Pagaria o quanto fosse necessário pela bebida barata como as putas que ele pensava de modo meio distante em contratar algum dia. Já tinha até feito as contas. As putas baratas corretas iam custar ainda mais caro que a bebida barata correta. O vestido anos 40, o chapéu e os cigarros sem dúvida seriam cobrados como um fetiche.
Bebia, bebia e martelava na máquina. Tentava escorrer a consciência como o sangue e as metáforas baratas nas ruas da cidade nua. Mas não conseguia desligar suas neuroses pós-industriais. E o calor, que o fazia suar como um dedo-duro dentro da cadeia, como devia suar na Califórnia.
Martelava, prendia os dedos e dava ânsias a cada gole, mas não conseguia ser pulp. Era impossível ser barato. Conseguiu se escorar até o banheiro, se desviando das luzes que colocou pelo caminho para conseguir a iluminação correta. Vomitou e desmaiou ao lado da privada, sabendo que nunca seria pulp. No mínimo um Raymond Chandler.
E teria que viver com isso.
16.3.02
Perfeição
em 16.03.02
Eu queria perfeição.
Procurei tanto por perfeição, alguém sem excessos ou faltas. Para isso. O pior é que desta vez eu achei mesmo que havia encontrado perfeição. Ou, melhor, que experimentaria - possuiria - perfeição. E não posso reclamar que foi mais um engano. É a primeira vez que me decepciono assim. Um sentimento novo, pelo menos. Como se eu precisasse.
A idéia de perfeição sempre foi algo maior que uma preocupação. Ou foi minha principal preocupação. Desde que posso me lembrar, as fotos nas revistas de moda, nas propagandas de produtos de beleza, nas pinturas renascentistas... Tudo isso me causava uma angústia profunda. Estava certo que nunca me encontraria com aquela perfeição. Até porque nunca me iludi a respeito dos poderes de maquiagens e uma boa iluminação. Mesmo assim nunca me livrei da idéia de experimentar a perfeição. Não para mim, claro, mas em alguém. As pessoas perfeitas não são necessariamente as mais interessantes, pelo pouco que pude perceber nas poucas que conheci. Minhas imperfeições realçam meu caráter.
"Pessoas", como se fosse isso que me interessasse. É idiotice minha tentar me enganar, é de corpos que estou falando. A casca, a embalagem perfeita. Não é tão fácil de encontrar quanto parece à primeira vista. Corpos incluem rostos, vozes, posturas, maneiras de falar, tons, roupas. Variáveis demais para serem conseguidas em academias e caras demais para mesas de operações. A maioria das pessoas não quer perfeição, harmonia - mas o nariz da novela, a barriga da revista, as roupas da moda.
Na maioria das outras poucas vezes que encontrei pessoas perfeitas - e minha profissão se presta a isso - elas tinham um defeito que prejudicava suas posturas e vozes. Elas sabiam que eram perfeitas. Falavam alto demais, ou naquela voz pateticamente arroucada de quem quer seduzir todos ao redor, ficavam com o nariz empinado, atrapalhando a posição natural dos músculos faciais perfeitos. Claro, encontrei uma ou duas outras perfeições, mas elas não demonstraram interesse em minhas propostas veladas.
Até hoje não tinha encontrado a perfeição ideal - ignorante de si e disposta. Quando a encontrei, sabia que seria minha melhor chance, mesmo que levasse - como levou - tempo. Claro, a pele não era do tom ideal, mas era absurdamente bem feita e uniforme. Como vinil, o contraste ideal. E o tato correspondia.
Eu odeio saber que o toque final que me permitiu experimentá-la foi o que trincou sua perfeição. O braço machucado estava errado, algo que contaminou a pele de todo o corpo. Me preocupei mais em não encontrar outro daqueles que em sentir.
Claro que agora posso contar com replays, mas replays disso. Não há mais a possibilidade de perfeição aqui.
E eu queria só perfeição.
em 16.03.02
Eu queria perfeição.
Procurei tanto por perfeição, alguém sem excessos ou faltas. Para isso. O pior é que desta vez eu achei mesmo que havia encontrado perfeição. Ou, melhor, que experimentaria - possuiria - perfeição. E não posso reclamar que foi mais um engano. É a primeira vez que me decepciono assim. Um sentimento novo, pelo menos. Como se eu precisasse.
A idéia de perfeição sempre foi algo maior que uma preocupação. Ou foi minha principal preocupação. Desde que posso me lembrar, as fotos nas revistas de moda, nas propagandas de produtos de beleza, nas pinturas renascentistas... Tudo isso me causava uma angústia profunda. Estava certo que nunca me encontraria com aquela perfeição. Até porque nunca me iludi a respeito dos poderes de maquiagens e uma boa iluminação. Mesmo assim nunca me livrei da idéia de experimentar a perfeição. Não para mim, claro, mas em alguém. As pessoas perfeitas não são necessariamente as mais interessantes, pelo pouco que pude perceber nas poucas que conheci. Minhas imperfeições realçam meu caráter.
"Pessoas", como se fosse isso que me interessasse. É idiotice minha tentar me enganar, é de corpos que estou falando. A casca, a embalagem perfeita. Não é tão fácil de encontrar quanto parece à primeira vista. Corpos incluem rostos, vozes, posturas, maneiras de falar, tons, roupas. Variáveis demais para serem conseguidas em academias e caras demais para mesas de operações. A maioria das pessoas não quer perfeição, harmonia - mas o nariz da novela, a barriga da revista, as roupas da moda.
Na maioria das outras poucas vezes que encontrei pessoas perfeitas - e minha profissão se presta a isso - elas tinham um defeito que prejudicava suas posturas e vozes. Elas sabiam que eram perfeitas. Falavam alto demais, ou naquela voz pateticamente arroucada de quem quer seduzir todos ao redor, ficavam com o nariz empinado, atrapalhando a posição natural dos músculos faciais perfeitos. Claro, encontrei uma ou duas outras perfeições, mas elas não demonstraram interesse em minhas propostas veladas.
Até hoje não tinha encontrado a perfeição ideal - ignorante de si e disposta. Quando a encontrei, sabia que seria minha melhor chance, mesmo que levasse - como levou - tempo. Claro, a pele não era do tom ideal, mas era absurdamente bem feita e uniforme. Como vinil, o contraste ideal. E o tato correspondia.
Eu odeio saber que o toque final que me permitiu experimentá-la foi o que trincou sua perfeição. O braço machucado estava errado, algo que contaminou a pele de todo o corpo. Me preocupei mais em não encontrar outro daqueles que em sentir.
Claro que agora posso contar com replays, mas replays disso. Não há mais a possibilidade de perfeição aqui.
E eu queria só perfeição.
27.2.02
Bicicleta
Em 27.02.02
Eu queria uma bicicleta.
Papai Noel não existe. O homem na tv tá sendo preso por que disse que Papai Noel não existe e se Papai Noel existisse ele não ia preso, só ficava sem presente porque tinha mentido. Se Papai Noel não existe ele não vai preso porque não fez nada errado e a polícia não prende quem não fez nada errado e só que faz alguma coisa errada vai preso porque a polícia não é igual a mamãe, que brigou comigo e puxou minha orelha por que o vaso caiu no chão e quebrou e eu nem tava em casa e se estava, tava vendo tv quietinho e a gata que ela diz que não existe que deve ter quebrado se tiver alguém igual à mamãe na polícia nem dá pra saber se Papai Noel existe ou não.
Nem que eu quebrei o vaso. Papai Noel existe senão não tinha visto eu quebrando o vaso e tinha trazido minha bicicleta e não esses bonecos que são legais mas não são uma bicicleta e eu não posso andar na rua e depois tirar a rodinha e pular a rampa e andar com o José que é o menino mais legal por que é grande mas mesmo assim conversa comigo.
Eu só queria uma bicicleta. Mamãe me prometeu que Papai Noel trazia uma bicicleta se eu me comportasse vem, estudasse direitinho, tomasse banho escovasse os dentes e tudo isso. Daí eu fiz e no dia do Natal eu não ganhei a bicicleta, mas uns bonecos e uma roupa que me espeta todo e eu nem queria. Eu vi na tv que Papai Noel não existe, se existisse eu ganhava minha bicicleta e os bonecos e uma roupa que não pinica e não tem botão.
Não preciso mais me comportar se Papai Noel não existe. Só ele sabe de tudo a mamãe não só preciso fazer de conta na frente dela e quando ela presta atenção. Ela diz que o papai me vê o tempo todo lá de onde ele está mas se Papai Noel não me vê não é o papai que vai ver. Então eu posso fazer o que eu quiser se ninguém estiver olhando e ninguém vai me ver.
Vai ser legal fazer tudo que eu quiser se ninguém me ver fazendo mas eu queria mais a bicicleta e que Papai Noel existisse.
Em 27.02.02
Eu queria uma bicicleta.
Papai Noel não existe. O homem na tv tá sendo preso por que disse que Papai Noel não existe e se Papai Noel existisse ele não ia preso, só ficava sem presente porque tinha mentido. Se Papai Noel não existe ele não vai preso porque não fez nada errado e a polícia não prende quem não fez nada errado e só que faz alguma coisa errada vai preso porque a polícia não é igual a mamãe, que brigou comigo e puxou minha orelha por que o vaso caiu no chão e quebrou e eu nem tava em casa e se estava, tava vendo tv quietinho e a gata que ela diz que não existe que deve ter quebrado se tiver alguém igual à mamãe na polícia nem dá pra saber se Papai Noel existe ou não.
Nem que eu quebrei o vaso. Papai Noel existe senão não tinha visto eu quebrando o vaso e tinha trazido minha bicicleta e não esses bonecos que são legais mas não são uma bicicleta e eu não posso andar na rua e depois tirar a rodinha e pular a rampa e andar com o José que é o menino mais legal por que é grande mas mesmo assim conversa comigo.
Eu só queria uma bicicleta. Mamãe me prometeu que Papai Noel trazia uma bicicleta se eu me comportasse vem, estudasse direitinho, tomasse banho escovasse os dentes e tudo isso. Daí eu fiz e no dia do Natal eu não ganhei a bicicleta, mas uns bonecos e uma roupa que me espeta todo e eu nem queria. Eu vi na tv que Papai Noel não existe, se existisse eu ganhava minha bicicleta e os bonecos e uma roupa que não pinica e não tem botão.
Não preciso mais me comportar se Papai Noel não existe. Só ele sabe de tudo a mamãe não só preciso fazer de conta na frente dela e quando ela presta atenção. Ela diz que o papai me vê o tempo todo lá de onde ele está mas se Papai Noel não me vê não é o papai que vai ver. Então eu posso fazer o que eu quiser se ninguém estiver olhando e ninguém vai me ver.
Vai ser legal fazer tudo que eu quiser se ninguém me ver fazendo mas eu queria mais a bicicleta e que Papai Noel existisse.
23.2.02
Digressões Sem Nicotina
Em 22.04.99
Mais uma vez, passei meu dia em casa.
Mais um dia pulando aulas, pensando sobre o tempo, lendo, brincando com imagens... Imagino a imagem de uma câmera além do teto do meu quarto me filmando: eu deitado na cama, de camisa regata, fumando. (Não que eu fume, use camisa regata ou mesmo tenha certeza de que o quarto e corpo na imagem são meus).
Me peguei, durante a tarde, ouvindo discos que não ouvia há algum tempo. E outros que ouço quase demais: o primeiro Garbage, Protection, Lost Highway, os três Cowboy Junkies e até um Suzanne Vega (e não o melhor deles).
Foi ouvindo “Light my Fire”, numa versão do Massive Attack que um pensamento que começou a se formar ontem se calcificou: as músicas que eu amo nos discos raramente são as por quais me apaixono à primeira vista (à perpétua exceção de “The Perfect Drug”).
Troquei “Only Happy When it Rains” por “Fix me Now”. “Teardrop” por “Inertia Creeps”, “Head Like a Hole” por “Down in It”. E, apesar de muitas vezes me esquecer de ouvir “Common Disaster”, paro tudo para ouvir “Bea’s Song” (btw, com licença).
(retornando...)
Esse tipo de bobagem me fez, sei lá por que razões, refletir sobre que coisas vão se tornando permanentes em nossas vidas (mais especificamente, em minha vida). As coisas mais improváveis. E raramente aquelas que esperamos.
Eu esperava ainda acreditar piamente na Ciência, ainda ser amigo de determinadas pessoas, ainda usar cabelo comprido (idéia que hoje coça)...
E esperava já ter me despedido do tesouro sob minha cama, ter esquecido quem é Neil Gaiman, não mais ver Salvador À Noite. E definitivamente, não esperava ver as fuças de alguns de vocês depois de quase (ou mais) de dez anos.
E o que espero hoje? Fingir que sou outra pessoa em alguns sábados por mais dois ou três anos, esperar ansiosamente cada encomenda de quadrinhos por mais umas duas décadas, me formar algum dia...
Não ouso imaginar muito além disso. Não consigo me imaginar sem óculos ou empregado corretamente. Não consigo imaginar meu rosto ou roupas em três anos. Não consigo imaginar nenhum panorama plausível para mim, nem identificar minha cena obrigatória.
Fico pensando em qualquer mundo viver. Eu, imóvel em mim, em vários mundos.
Por que diabos é mais fácil imaginar mundos que nós mesmos?
Às vezes acho que deveria fumar. Mentolados são melhores que pensamentos.
Em 22.04.99
Mais uma vez, passei meu dia em casa.
Mais um dia pulando aulas, pensando sobre o tempo, lendo, brincando com imagens... Imagino a imagem de uma câmera além do teto do meu quarto me filmando: eu deitado na cama, de camisa regata, fumando. (Não que eu fume, use camisa regata ou mesmo tenha certeza de que o quarto e corpo na imagem são meus).
Me peguei, durante a tarde, ouvindo discos que não ouvia há algum tempo. E outros que ouço quase demais: o primeiro Garbage, Protection, Lost Highway, os três Cowboy Junkies e até um Suzanne Vega (e não o melhor deles).
Foi ouvindo “Light my Fire”, numa versão do Massive Attack que um pensamento que começou a se formar ontem se calcificou: as músicas que eu amo nos discos raramente são as por quais me apaixono à primeira vista (à perpétua exceção de “The Perfect Drug”).
Troquei “Only Happy When it Rains” por “Fix me Now”. “Teardrop” por “Inertia Creeps”, “Head Like a Hole” por “Down in It”. E, apesar de muitas vezes me esquecer de ouvir “Common Disaster”, paro tudo para ouvir “Bea’s Song” (btw, com licença).
(retornando...)
Esse tipo de bobagem me fez, sei lá por que razões, refletir sobre que coisas vão se tornando permanentes em nossas vidas (mais especificamente, em minha vida). As coisas mais improváveis. E raramente aquelas que esperamos.
Eu esperava ainda acreditar piamente na Ciência, ainda ser amigo de determinadas pessoas, ainda usar cabelo comprido (idéia que hoje coça)...
E esperava já ter me despedido do tesouro sob minha cama, ter esquecido quem é Neil Gaiman, não mais ver Salvador À Noite. E definitivamente, não esperava ver as fuças de alguns de vocês depois de quase (ou mais) de dez anos.
E o que espero hoje? Fingir que sou outra pessoa em alguns sábados por mais dois ou três anos, esperar ansiosamente cada encomenda de quadrinhos por mais umas duas décadas, me formar algum dia...
Não ouso imaginar muito além disso. Não consigo me imaginar sem óculos ou empregado corretamente. Não consigo imaginar meu rosto ou roupas em três anos. Não consigo imaginar nenhum panorama plausível para mim, nem identificar minha cena obrigatória.
Fico pensando em qualquer mundo viver. Eu, imóvel em mim, em vários mundos.
Por que diabos é mais fácil imaginar mundos que nós mesmos?
Às vezes acho que deveria fumar. Mentolados são melhores que pensamentos.
21.2.02
20.2.02
Algodão Doce
Em 20.02.02
Eu só queria era um algodão doce.
Um pouco de açúcar para me animar. Esquecer um pouco da dieta e da alimentação correta. Ando tanto precisando me animar... Salada e peixe grelhado são ótimos; ver a barriga lisinha também – ou tão lisa quanto pode ficar. Pra depois ouvir uma história de simplicidade. Fica sempre faltando alguma coisa. Não é nem o sabor ou o dulçor, é mais a animação.
Dá pra perceber que quem me olha pensa o mesmo que eu: que algodão doce é coisa de criança. Que uma senhora de quase trinta não devia mexer com essas coisas. Dane-se. Eu queria algodão doce justamente por ser coisa de criança. Doce, colorido, impressionante e vazio. Calorias vazias, melhor. Quando eu era criança eles não eram tão grandes assim. Mal comecei a comer e já estou com sede, cansada. Mas não quero água. Quero aquele restinho que fica grudado no palito. Por que não para de me olhar? Ninguém mais entende o prazer de um algodão doce.
Algodão doce é bem melhor que chocolate. Chocolate é coisa de mulher largada, de trintona triste e me nego a assumir qualquer um dos dois papéis. Ficar assistindo filmes água com açúcar e chorando na frente da TV, bebendo vinho por faltar coragem pra beber algo que funcione... Tudo muito clichê. Se é pra encher a cara de açúcar, melhor algodão doce. Muito mais divertido, muito mais simples e bem menos arriscado. Afinal, cedo ou tarde o vendedor vai ter que ir embora. Eu podia passar a noite toda comendo chocolate. Mas depois de um algodão doce quem é que vai querer saber de açúcar?
Esse negócio dá mais sede do que eu lembrava. Também, deve ter quase dez vezes o tamanho do último que eu comi. Aliás, quando foi isso? Deve ter mais de dez anos, eu nem estava com ele ainda. Eles não tinham essas cores tão bonitas. Ou acho que estava. Foi aquela vez no parque de diversões? Lembro de ficar com o rosto grudado, sem um banheiro para poder lavar. Que coisa mais clichê ir namorar em roda gigante. Não, acho que foi maçã-do-amor. Mas eu nem gosto de maçã!
Eu devo estar muito engraçada, toda suja. Dá pra sentir os pedacinhos de algodão colados no rosto. Eu devia ir lavar, mas combinei de encontrar ela aqui. E ainda tenho muito chão pela frente, só dá pra ver o palito na pontinha. Então nada de dois beijinhos. Não suporto mesmo. Coisa mais sem graça, igual a outra lá. “Simplicidade”. E isso lá é motivo? Por que ele não admite logo que quer alguém mais nova e menos neurótica? E precisava me chamar de neurótica? Ele quer é uma mulherzinha clichê igual ela, que cozinhe e limpe e tenha filhos por ser a coisa a se fazer. Eu disse que ele vai se arrepender. Eu sei que vai. Deixa só eu terminar meu algodão doce.
Em 20.02.02
Eu só queria era um algodão doce.
Um pouco de açúcar para me animar. Esquecer um pouco da dieta e da alimentação correta. Ando tanto precisando me animar... Salada e peixe grelhado são ótimos; ver a barriga lisinha também – ou tão lisa quanto pode ficar. Pra depois ouvir uma história de simplicidade. Fica sempre faltando alguma coisa. Não é nem o sabor ou o dulçor, é mais a animação.
Dá pra perceber que quem me olha pensa o mesmo que eu: que algodão doce é coisa de criança. Que uma senhora de quase trinta não devia mexer com essas coisas. Dane-se. Eu queria algodão doce justamente por ser coisa de criança. Doce, colorido, impressionante e vazio. Calorias vazias, melhor. Quando eu era criança eles não eram tão grandes assim. Mal comecei a comer e já estou com sede, cansada. Mas não quero água. Quero aquele restinho que fica grudado no palito. Por que não para de me olhar? Ninguém mais entende o prazer de um algodão doce.
Algodão doce é bem melhor que chocolate. Chocolate é coisa de mulher largada, de trintona triste e me nego a assumir qualquer um dos dois papéis. Ficar assistindo filmes água com açúcar e chorando na frente da TV, bebendo vinho por faltar coragem pra beber algo que funcione... Tudo muito clichê. Se é pra encher a cara de açúcar, melhor algodão doce. Muito mais divertido, muito mais simples e bem menos arriscado. Afinal, cedo ou tarde o vendedor vai ter que ir embora. Eu podia passar a noite toda comendo chocolate. Mas depois de um algodão doce quem é que vai querer saber de açúcar?
Esse negócio dá mais sede do que eu lembrava. Também, deve ter quase dez vezes o tamanho do último que eu comi. Aliás, quando foi isso? Deve ter mais de dez anos, eu nem estava com ele ainda. Eles não tinham essas cores tão bonitas. Ou acho que estava. Foi aquela vez no parque de diversões? Lembro de ficar com o rosto grudado, sem um banheiro para poder lavar. Que coisa mais clichê ir namorar em roda gigante. Não, acho que foi maçã-do-amor. Mas eu nem gosto de maçã!
Eu devo estar muito engraçada, toda suja. Dá pra sentir os pedacinhos de algodão colados no rosto. Eu devia ir lavar, mas combinei de encontrar ela aqui. E ainda tenho muito chão pela frente, só dá pra ver o palito na pontinha. Então nada de dois beijinhos. Não suporto mesmo. Coisa mais sem graça, igual a outra lá. “Simplicidade”. E isso lá é motivo? Por que ele não admite logo que quer alguém mais nova e menos neurótica? E precisava me chamar de neurótica? Ele quer é uma mulherzinha clichê igual ela, que cozinhe e limpe e tenha filhos por ser a coisa a se fazer. Eu disse que ele vai se arrepender. Eu sei que vai. Deixa só eu terminar meu algodão doce.
7.2.02
Sen-ryu Pré-Carnaval
em 07.02.02
Me pego observando,
Da janela do ônibus,
Que não sei participar
em 07.02.02
Me pego observando,
Da janela do ônibus,
Que não sei participar
22.1.02
Non-sequitur
em 20.03.00
Lost my love. Got a job. Got a haircut. Lost my mind. Lost my focus. Got some freedom? Found my rage. Lost my peace. Just want to sleep. Can't sleep. Want to run away. There's no place. Lost my dreams. Lost in dreams. Found some power. Lost the will. Caught a cold. Found my doubts. Lost any happiness. Was betrayed. Throwed punches. Heard lies. Spoke the truth. Cried a lot. I still do. Feel so lonely. Can't look up. Can't fight. Lost my power. Found my words. An old love. Lost my reason. Never had one. Fell from grace. From her arms. Lost my pride. Begged so much. Feel so righteous. Feel so much. Made mistakes. Always do. Forgave errors. Always do. Was my best. Not enough. Feel so lonely. The world went away. Falling so fast. Just want to go. Have some rest. Want to fight. Draw some blood. Can't hurt her. Albeit I should. I can't wait. Can't fight. Can't fight time. Everything is tainted by her touch. She's all I want. Miss her so much. Can't go out. Feel afraid. Can't stay in. Stalemate. Lost so much. Never did before. Had nothing before. Still don't. She made me better. Found something I can't hide. Lost so much on her tears. Lost her. Lost myself. Where to go to? What to do? Miss my records. Touch her pictures looking for her. Can't wait. She won't come back. Have my life. Have myself. "Just want something I can never have". Feel like nothing. Want nothing. Be nothing. But I can't. Want to hide. Want something that matters. Can't see any. Nothing to do. No place to go. Feel afraid. Doubt everything. Doubt I can write. Doubt you'll read. Doubt I'll like. Want to go back to her. To her arms. To her face. To her dreams. Dreamt of her lots of times. Sex was false, I could tell. Kisses and words were not true enough. Wake up crying. With dreams I can't cope with. Want to hate. I'm trying to. Don't think I can. Her, I never could. And had reasons. Letdowns. I still believe. Don't know why. Never thought love could be like this. I know I was good. In everything. Can't carry her. Did I try to? If I could, I'd heal me. I'd heal her. She knows that, I hope. But just can't wait. I'll be fit. I'll be fine. I'll work. I'll be better, in everything. Break my shackles. Break my love. Surprise her. She still wants my love. Doesn't want me. Love her so much. Want to hate. Want her back. Want me safe. Thought she had changed. I see the same girl. So there is love still. It was good to say goodbye. Heard things she had never said. Good and bad. Got to hold on to the bad things. So I can let her go. But the good ones are still hangin' around. I want to run. Away from here. Away from her. Away from me. To her. Still don't know what to do. Don't know what I need. Don't know what I want. Don't know what she needs. Don't know what she wants. Just don't know.
Non-sequitur.
em 20.03.00
Lost my love. Got a job. Got a haircut. Lost my mind. Lost my focus. Got some freedom? Found my rage. Lost my peace. Just want to sleep. Can't sleep. Want to run away. There's no place. Lost my dreams. Lost in dreams. Found some power. Lost the will. Caught a cold. Found my doubts. Lost any happiness. Was betrayed. Throwed punches. Heard lies. Spoke the truth. Cried a lot. I still do. Feel so lonely. Can't look up. Can't fight. Lost my power. Found my words. An old love. Lost my reason. Never had one. Fell from grace. From her arms. Lost my pride. Begged so much. Feel so righteous. Feel so much. Made mistakes. Always do. Forgave errors. Always do. Was my best. Not enough. Feel so lonely. The world went away. Falling so fast. Just want to go. Have some rest. Want to fight. Draw some blood. Can't hurt her. Albeit I should. I can't wait. Can't fight. Can't fight time. Everything is tainted by her touch. She's all I want. Miss her so much. Can't go out. Feel afraid. Can't stay in. Stalemate. Lost so much. Never did before. Had nothing before. Still don't. She made me better. Found something I can't hide. Lost so much on her tears. Lost her. Lost myself. Where to go to? What to do? Miss my records. Touch her pictures looking for her. Can't wait. She won't come back. Have my life. Have myself. "Just want something I can never have". Feel like nothing. Want nothing. Be nothing. But I can't. Want to hide. Want something that matters. Can't see any. Nothing to do. No place to go. Feel afraid. Doubt everything. Doubt I can write. Doubt you'll read. Doubt I'll like. Want to go back to her. To her arms. To her face. To her dreams. Dreamt of her lots of times. Sex was false, I could tell. Kisses and words were not true enough. Wake up crying. With dreams I can't cope with. Want to hate. I'm trying to. Don't think I can. Her, I never could. And had reasons. Letdowns. I still believe. Don't know why. Never thought love could be like this. I know I was good. In everything. Can't carry her. Did I try to? If I could, I'd heal me. I'd heal her. She knows that, I hope. But just can't wait. I'll be fit. I'll be fine. I'll work. I'll be better, in everything. Break my shackles. Break my love. Surprise her. She still wants my love. Doesn't want me. Love her so much. Want to hate. Want her back. Want me safe. Thought she had changed. I see the same girl. So there is love still. It was good to say goodbye. Heard things she had never said. Good and bad. Got to hold on to the bad things. So I can let her go. But the good ones are still hangin' around. I want to run. Away from here. Away from her. Away from me. To her. Still don't know what to do. Don't know what I need. Don't know what I want. Don't know what she needs. Don't know what she wants. Just don't know.
Non-sequitur.
18.1.02
15.1.02
Simplicidade
Em 14.01.02
Eu queria simplicidade.
Nada das complicações da mulher com que passei tanto tempo. Linda, brilhante, louca e cheia de neuroses reais e inventadas, que pagavam as prestações do carro do analista. Nada das nossas complicações acumuladas com o passar dos anos e anos juntos e das complexidades e mágoas que obrigatoriamente acompanham. Mais nada daquilo. Algo simples: “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. Tão sem complicações, volteios ou floreados que não serviria de roteiro para a mais insossa das comédias românticas. Bem diferente do que eu tive com ela.
E foi mais ou menos isso que aconteceu. Algo simples, com uma pessoa simples de prazeres simples. Nada de passar noites brigando, realmente achando importante se aquelazinha do livro traiu ou não traiu, ou sussurrando idéias no escuro no lugar das jurinhas de amor com que se ocupava a maioria. Não era mais isso que queria, como estava acostumado. Mas simplicidade. Acho que foi isso que me fascinou na outra lá.
Havia uma promessa de simplicidade em torno dela. Algo que dizia que tudo seria tranqüilo com ela. Um ar quase pastoril, com aqueles olhos pacientes. Sem complicações, ela se apaixonaria e eu me renderia, mais fascinado pela promessa de nada demais que realmente interessado. Exatamente como aconteceu. Ela não era linda ou brilhante ou louca – eu nem mesmo a achava capaz de alguma neurose. Para simplificar ainda mais as coisas, não era nem pobre nem rica e ganhava mais ou menos o mesmo que eu.
Não era só a simplicidade de alguma coisa nova, a falta de bagagem comum que nós tínhamos. Na verdade o mérito era todo dela. Ela era simples. Algo impossível de explicar. O máximo que poderia iluminar é dizer que ela é sem sofisticação, mas normalmente isso implica em falta de educação ou ignorância; não era o caso. Ela sabia o suficiente, nada além. Não adianta. Ela era simples e pronto.
Com o tempo, descobri que ela foi simples desde que nasceu. Os próprios pais dela se espantavam com isso. A mãe, nada simples, acrescentava bobagens orientais à mistura de corujice e decepção tentando explicar de onde vinha a simplicidade da filha. “Às vezes parece uma santa”. Mas ela nunca parecia uma santa. Acho que nunca conheci ninguém tão humano. O estranho que a simplicidade dela nunca se traduziu em leveza. Para mim, ela trazia a impressão de algo que se arrastava, que nunca acordava, alguma criatura imensa dormindo no fundo do mar. Estranho que é mais fácil explicar isso que simplicidade.
Na verdade, faltava alguma coisa nela. Ou antes muitas coisas. Era por isso que ela se arrastava, era por isso que ela pesava. Por isso que nunca me apaixonei por ela. Ela não era simples por ter deixado de lado aquilo que era excesso, que não servia mais, que não era dela. Ela era simples como o desenho da casinha acompanhada de arvorezinha e nuvenzinha que as crianças fases: uma coisa que ainda não se tornou nada que possa ser realmente julgado.
E nunca foi isso que eu quis. Não sei como pude confundir as duas coisas. Como pude confundir incompletude com perfeição, falta com minimalismo. E não sei quando me dei conta do meu erro. Acho que não houve nenhuma revelação, nenhum momento onde as coisas ficaram claras. Mas sim aquela progressão cretina, onde as pistas vão se acumulando até que você chega no final do filme e se sente uma besta de não ter percebido quem era o assassinato na metade. Todas as pistas estavam lá. Nas histórias sem graça, nas memórias adolescentes sem desequilíbrios, na vontade de lavar a louça e cozinhar porque é assim que ela devia fazer. Eu nem sei mais quando as coisas terminaram.
O pior é perceber, num encontro aleatório, quem atingiu a simplicidade que eu procurava. Pós-louca, pós-prestações do carro do analista, pós-eu. Ela se livrou dos excessos. E eu nem completei minhas faltas.
Em 14.01.02
Eu queria simplicidade.
Nada das complicações da mulher com que passei tanto tempo. Linda, brilhante, louca e cheia de neuroses reais e inventadas, que pagavam as prestações do carro do analista. Nada das nossas complicações acumuladas com o passar dos anos e anos juntos e das complexidades e mágoas que obrigatoriamente acompanham. Mais nada daquilo. Algo simples: “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. Tão sem complicações, volteios ou floreados que não serviria de roteiro para a mais insossa das comédias românticas. Bem diferente do que eu tive com ela.
E foi mais ou menos isso que aconteceu. Algo simples, com uma pessoa simples de prazeres simples. Nada de passar noites brigando, realmente achando importante se aquelazinha do livro traiu ou não traiu, ou sussurrando idéias no escuro no lugar das jurinhas de amor com que se ocupava a maioria. Não era mais isso que queria, como estava acostumado. Mas simplicidade. Acho que foi isso que me fascinou na outra lá.
Havia uma promessa de simplicidade em torno dela. Algo que dizia que tudo seria tranqüilo com ela. Um ar quase pastoril, com aqueles olhos pacientes. Sem complicações, ela se apaixonaria e eu me renderia, mais fascinado pela promessa de nada demais que realmente interessado. Exatamente como aconteceu. Ela não era linda ou brilhante ou louca – eu nem mesmo a achava capaz de alguma neurose. Para simplificar ainda mais as coisas, não era nem pobre nem rica e ganhava mais ou menos o mesmo que eu.
Não era só a simplicidade de alguma coisa nova, a falta de bagagem comum que nós tínhamos. Na verdade o mérito era todo dela. Ela era simples. Algo impossível de explicar. O máximo que poderia iluminar é dizer que ela é sem sofisticação, mas normalmente isso implica em falta de educação ou ignorância; não era o caso. Ela sabia o suficiente, nada além. Não adianta. Ela era simples e pronto.
Com o tempo, descobri que ela foi simples desde que nasceu. Os próprios pais dela se espantavam com isso. A mãe, nada simples, acrescentava bobagens orientais à mistura de corujice e decepção tentando explicar de onde vinha a simplicidade da filha. “Às vezes parece uma santa”. Mas ela nunca parecia uma santa. Acho que nunca conheci ninguém tão humano. O estranho que a simplicidade dela nunca se traduziu em leveza. Para mim, ela trazia a impressão de algo que se arrastava, que nunca acordava, alguma criatura imensa dormindo no fundo do mar. Estranho que é mais fácil explicar isso que simplicidade.
Na verdade, faltava alguma coisa nela. Ou antes muitas coisas. Era por isso que ela se arrastava, era por isso que ela pesava. Por isso que nunca me apaixonei por ela. Ela não era simples por ter deixado de lado aquilo que era excesso, que não servia mais, que não era dela. Ela era simples como o desenho da casinha acompanhada de arvorezinha e nuvenzinha que as crianças fases: uma coisa que ainda não se tornou nada que possa ser realmente julgado.
E nunca foi isso que eu quis. Não sei como pude confundir as duas coisas. Como pude confundir incompletude com perfeição, falta com minimalismo. E não sei quando me dei conta do meu erro. Acho que não houve nenhuma revelação, nenhum momento onde as coisas ficaram claras. Mas sim aquela progressão cretina, onde as pistas vão se acumulando até que você chega no final do filme e se sente uma besta de não ter percebido quem era o assassinato na metade. Todas as pistas estavam lá. Nas histórias sem graça, nas memórias adolescentes sem desequilíbrios, na vontade de lavar a louça e cozinhar porque é assim que ela devia fazer. Eu nem sei mais quando as coisas terminaram.
O pior é perceber, num encontro aleatório, quem atingiu a simplicidade que eu procurava. Pós-louca, pós-prestações do carro do analista, pós-eu. Ela se livrou dos excessos. E eu nem completei minhas faltas.
9.1.02
Amores Fugidios IV: Despertar
Despertaram aconchegados - de modo inocente - como irmãos, não amantes. A cama era grande, proporcional ao quarto de paredes brancas na manhã de domingo. Ficaram desorientados até que o constrangimento os acordou por completo.
Ela e ele, desorientados e preguiçosos, iam fazendo sentido das coisas. Lembrando onde estavas, da festa de sábado dos drinks em copos bonitos e de fragmentos de conversa. E percebendo as roupas fechadas, batom e cabelos relativamente no lugar.
Atrasaram o primeiro olhar, a primeira palavra, estudados de modo a criar distância e pedir desculpas. Falharam. Algo em seus olhos sonolentos os entregava. Convidaram-se para o café na copa bagunçada.
Após os restos, se esgueiraram pela casa, mal contendo o riso pela situação. Um voltou para a cama, o outro para casa. O telefone dela ficou no guardanapo, sobre a mesa.
Despertaram aconchegados - de modo inocente - como irmãos, não amantes. A cama era grande, proporcional ao quarto de paredes brancas na manhã de domingo. Ficaram desorientados até que o constrangimento os acordou por completo.
Ela e ele, desorientados e preguiçosos, iam fazendo sentido das coisas. Lembrando onde estavas, da festa de sábado dos drinks em copos bonitos e de fragmentos de conversa. E percebendo as roupas fechadas, batom e cabelos relativamente no lugar.
Atrasaram o primeiro olhar, a primeira palavra, estudados de modo a criar distância e pedir desculpas. Falharam. Algo em seus olhos sonolentos os entregava. Convidaram-se para o café na copa bagunçada.
Após os restos, se esgueiraram pela casa, mal contendo o riso pela situação. Um voltou para a cama, o outro para casa. O telefone dela ficou no guardanapo, sobre a mesa.
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