21.5.02

Mantra 2
em 21.05.02

Tudo é ficção. Nem tudo se presta à ficção.
Mantra 1
em 21.05.02

I can't write for shit.

8.5.02

Formatura
em 08.05.02

- Então é isso.

Ela não conseguia pensar em mais nada enquanto passeava pelos corredores do prédio quase vazio. Se procurasse um pouco mais, chegaria à conclusão que o que pensava de fato é "e agora?", mas escondia o medo do futuro em uma falsa saudade.

Na verdade, se importava muito pouco com o prédio, as pessoas ali ou os anos que passou lá. Sempre pensou naquele tempo ali como uma mistura de prisão e ferramenta para seus vôos futuros. E só. Não era nada simpático de admitir, então fazia de conta que ia sentir alguma falta de lá.

O pior é que, passando pelas pessoas que nunca julgou significantes, começava mesmo a sentir saudades. Não delas - ou das poucas que chegaram a ganhar nomes - mas da proteção do lugar. De saber que era melhor que os outros, de saber o lugar que estava na cadeia alimentar através da qual teimava em entender o mundo.

Passou tempo demais pensando em escapar para traçar algum plano. Agora se sentia desprotegida, desorientada e vazia.

O pior é que só conseguia pensar em uma saída: o mestrado.

30.4.02

Gentileza sob o Sol
30.04.02

Não consigo me livrar de você sob o sol. Por mais que tente, você contra o carro, o ar de desolação, o olhar no nada persistem. São a marca de um jogo encerrado. Ou outro – muito menos agradável – que começa. Você brilhando ao sol marcou o início do pior dos jogos: gentileza.

Sei que não era para mim que você estava lá. Que não era nenhum comunicado de fatos, mas a simples constatação de um estado em especial, sem se importar com quem assistia. Desolação ou vertigem, a razão não era importante. Mas era algo que não deveria ter visto.

Sabia que – de todos – era o único proibido de me aproximar. As regras da gentileza são muito claras, apesar de impossíveis de serem seguidas. Sufocar a curiosidade, ignorar a humanidade, tentar me desfazer do carinho. Fingir desprezar sua imagem sob o sol.

Tudo em nome do bom tom, do correto: das regras da gentileza.

15.4.02

Parábola I
Em 15.04.02

Há muito, Chuang Tzu tinha um discípulo que procurava no corpo a chave do espírito e na luta o caminho da paz. Ele sabia que estaria pronto quando fosse capaz de, com um golpe do seu punho, parar por um momento todo o rio Amarelo.

Chuang Tzu só permitiu a ele uma chance de tentar, pois sabia que o mundo não pode ser a vítima da vaidade do homem.

Depois de anos, o discípulo foi até o mestre, dizendo estar pronto para o teste. O mestre assentiu: ele estava pronto.

O discípulo andou até a margem do rio e desferiu seu golpe.

Nada. Era como se o golpe nunca tivesse sido recebido.

O discípulo foi até Chuang Tzu, sabendo que havia desperdiçado toda a sua vida. "Mas o senhor não julgou que eu estava pronto, mestre", foi a pergunta.

"Estar pronto não significa vencer," disse Chuang Tzu.

11.4.02

Reciprocidade
Em 11.04.02

Tudo que eu queria era reciprocidade.

De qualquer tipo, de todos os tipos. Claro que, inicialmente, dos sentimentos positivos. Reciprocidade de curiosidades, de olhares, de interesses. A ansiedade pelo momento em que ele me olharia como há tempos eu já o via em segredo. O processo lento de torná-lo meu, até que ele achasse que se apaixonou por mim – pela simplicidade sem sentido que ele teima em enxergar – e se aproximasse.

Foi assim que, por um tempo, aconteceu. Ele acreditou que tinha encontrado sua história simples : “menina conhece menino, menina se apaixona, menino se apaixona, felizes para sempre”. A história que ele tanto repetia para mim, como um elogio. Ele nunca soube, mas me ofendia a cada vez que ele repetia o slogan. “Nada demais”, dizia, no fim das contas.

Mas era recíproco. Ele me amava e era suficiente. Por todas as razões erradas, mas era o suficiente. Ele me amava por ficar quieta, por não entender, por cozinhar e mil outras coisa. Mas, mais que tudo, por deixá-lo em paz. Por não ser ela.

Hoje penso se não fiz e enxerguei tudo errado nele. Sempre busquei reciprocidade, manter os dois sem dívidas entre nós, sem raivas, sem nada que pudesse desfazer o equilíbrio. Demorei tempo demais para descobrir que ele não funciona assim. Que ninguém além de mim funciona assim. Quando percebi que estávamos perto demais de só existir indiferença, acabei com um saldo que acabou com tudo. Não consegui não sentir nada por ele.

Mesmo agora, quando não há mais nada, continuo sentindo coisas demais por ele. Raiva, saudades, pena... Até amor. E nada. Nenhuma reciprocidade.

Nem no telefone.
Perfil Pictórico
Em 11.04.02

3.4.02

Pulp Hack

Barato, barato. Como um romance de banca. Muito barato. Sujo e sujando os dedos, como todas as coisas que vendiam nas bancas de revista da cidade. Como a própria cidade. Era assim que o escritor queria se sentir, martelando na máquina de escrever. Nada de computadores. Computadores são limpos como hospitais, frios como a noite e várias outras metáforas que ele ficava tentando se convencer que eram verdadeiras enquanto os dedos doíam, nas pancadas fortes para compensar a fita gasta.

As coisas se complicavam ao se somar o whisky que teimava em beber para parecer mais barato. A bebida travava em sua garganta e dava trabalho de botar na garrafinha de metal, mas era isso que seus heróis dentro e fora dos livros bebiam e diziam beber. Não importava o preço. Pagaria o quanto fosse necessário pela bebida barata como as putas que ele pensava de modo meio distante em contratar algum dia. Já tinha até feito as contas. As putas baratas corretas iam custar ainda mais caro que a bebida barata correta. O vestido anos 40, o chapéu e os cigarros sem dúvida seriam cobrados como um fetiche.

Bebia, bebia e martelava na máquina. Tentava escorrer a consciência como o sangue e as metáforas baratas nas ruas da cidade nua. Mas não conseguia desligar suas neuroses pós-industriais. E o calor, que o fazia suar como um dedo-duro dentro da cadeia, como devia suar na Califórnia.

Martelava, prendia os dedos e dava ânsias a cada gole, mas não conseguia ser pulp. Era impossível ser barato. Conseguiu se escorar até o banheiro, se desviando das luzes que colocou pelo caminho para conseguir a iluminação correta. Vomitou e desmaiou ao lado da privada, sabendo que nunca seria pulp. No mínimo um Raymond Chandler.

E teria que viver com isso.
Digitais



Foto: Iuri Rubim




16.3.02

Perfeição
em 16.03.02

Eu queria perfeição.

Procurei tanto por perfeição, alguém sem excessos ou faltas. Para isso. O pior é que desta vez eu achei mesmo que havia encontrado perfeição. Ou, melhor, que experimentaria - possuiria - perfeição. E não posso reclamar que foi mais um engano. É a primeira vez que me decepciono assim. Um sentimento novo, pelo menos. Como se eu precisasse.

A idéia de perfeição sempre foi algo maior que uma preocupação. Ou foi minha principal preocupação. Desde que posso me lembrar, as fotos nas revistas de moda, nas propagandas de produtos de beleza, nas pinturas renascentistas... Tudo isso me causava uma angústia profunda. Estava certo que nunca me encontraria com aquela perfeição. Até porque nunca me iludi a respeito dos poderes de maquiagens e uma boa iluminação. Mesmo assim nunca me livrei da idéia de experimentar a perfeição. Não para mim, claro, mas em alguém. As pessoas perfeitas não são necessariamente as mais interessantes, pelo pouco que pude perceber nas poucas que conheci. Minhas imperfeições realçam meu caráter.

"Pessoas", como se fosse isso que me interessasse. É idiotice minha tentar me enganar, é de corpos que estou falando. A casca, a embalagem perfeita. Não é tão fácil de encontrar quanto parece à primeira vista. Corpos incluem rostos, vozes, posturas, maneiras de falar, tons, roupas. Variáveis demais para serem conseguidas em academias e caras demais para mesas de operações. A maioria das pessoas não quer perfeição, harmonia - mas o nariz da novela, a barriga da revista, as roupas da moda.

Na maioria das outras poucas vezes que encontrei pessoas perfeitas - e minha profissão se presta a isso - elas tinham um defeito que prejudicava suas posturas e vozes. Elas sabiam que eram perfeitas. Falavam alto demais, ou naquela voz pateticamente arroucada de quem quer seduzir todos ao redor, ficavam com o nariz empinado, atrapalhando a posição natural dos músculos faciais perfeitos. Claro, encontrei uma ou duas outras perfeições, mas elas não demonstraram interesse em minhas propostas veladas.

Até hoje não tinha encontrado a perfeição ideal - ignorante de si e disposta. Quando a encontrei, sabia que seria minha melhor chance, mesmo que levasse - como levou - tempo. Claro, a pele não era do tom ideal, mas era absurdamente bem feita e uniforme. Como vinil, o contraste ideal. E o tato correspondia.

Eu odeio saber que o toque final que me permitiu experimentá-la foi o que trincou sua perfeição. O braço machucado estava errado, algo que contaminou a pele de todo o corpo. Me preocupei mais em não encontrar outro daqueles que em sentir.

Claro que agora posso contar com replays, mas replays disso. Não há mais a possibilidade de perfeição aqui.

E eu queria só perfeição.

27.2.02

Bicicleta
Em 27.02.02

Eu queria uma bicicleta.

Papai Noel não existe. O homem na tv tá sendo preso por que disse que Papai Noel não existe e se Papai Noel existisse ele não ia preso, só ficava sem presente porque tinha mentido. Se Papai Noel não existe ele não vai preso porque não fez nada errado e a polícia não prende quem não fez nada errado e só que faz alguma coisa errada vai preso porque a polícia não é igual a mamãe, que brigou comigo e puxou minha orelha por que o vaso caiu no chão e quebrou e eu nem tava em casa e se estava, tava vendo tv quietinho e a gata que ela diz que não existe que deve ter quebrado se tiver alguém igual à mamãe na polícia nem dá pra saber se Papai Noel existe ou não.

Nem que eu quebrei o vaso. Papai Noel existe senão não tinha visto eu quebrando o vaso e tinha trazido minha bicicleta e não esses bonecos que são legais mas não são uma bicicleta e eu não posso andar na rua e depois tirar a rodinha e pular a rampa e andar com o José que é o menino mais legal por que é grande mas mesmo assim conversa comigo.

Eu só queria uma bicicleta. Mamãe me prometeu que Papai Noel trazia uma bicicleta se eu me comportasse vem, estudasse direitinho, tomasse banho escovasse os dentes e tudo isso. Daí eu fiz e no dia do Natal eu não ganhei a bicicleta, mas uns bonecos e uma roupa que me espeta todo e eu nem queria. Eu vi na tv que Papai Noel não existe, se existisse eu ganhava minha bicicleta e os bonecos e uma roupa que não pinica e não tem botão.

Não preciso mais me comportar se Papai Noel não existe. Só ele sabe de tudo a mamãe não só preciso fazer de conta na frente dela e quando ela presta atenção. Ela diz que o papai me vê o tempo todo lá de onde ele está mas se Papai Noel não me vê não é o papai que vai ver. Então eu posso fazer o que eu quiser se ninguém estiver olhando e ninguém vai me ver.

Vai ser legal fazer tudo que eu quiser se ninguém me ver fazendo mas eu queria mais a bicicleta e que Papai Noel existisse.


Em algum ponto de 2000


23.2.02

Digressões Sem Nicotina
Em 22.04.99

Mais uma vez, passei meu dia em casa.

Mais um dia pulando aulas, pensando sobre o tempo, lendo, brincando com imagens... Imagino a imagem de uma câmera além do teto do meu quarto me filmando: eu deitado na cama, de camisa regata, fumando. (Não que eu fume, use camisa regata ou mesmo tenha certeza de que o quarto e corpo na imagem são meus).

Me peguei, durante a tarde, ouvindo discos que não ouvia há algum tempo. E outros que ouço quase demais: o primeiro Garbage, Protection, Lost Highway, os três Cowboy Junkies e até um Suzanne Vega (e não o melhor deles).

Foi ouvindo “Light my Fire”, numa versão do Massive Attack que um pensamento que começou a se formar ontem se calcificou: as músicas que eu amo nos discos raramente são as por quais me apaixono à primeira vista (à perpétua exceção de “The Perfect Drug”).
Troquei “Only Happy When it Rains” por “Fix me Now”. “Teardrop” por “Inertia Creeps”, “Head Like a Hole” por “Down in It”. E, apesar de muitas vezes me esquecer de ouvir “Common Disaster”, paro tudo para ouvir “Bea’s Song” (btw, com licença).

(retornando...)

Esse tipo de bobagem me fez, sei lá por que razões, refletir sobre que coisas vão se tornando permanentes em nossas vidas (mais especificamente, em minha vida). As coisas mais improváveis. E raramente aquelas que esperamos.

Eu esperava ainda acreditar piamente na Ciência, ainda ser amigo de determinadas pessoas, ainda usar cabelo comprido (idéia que hoje coça)...

E esperava já ter me despedido do tesouro sob minha cama, ter esquecido quem é Neil Gaiman, não mais ver Salvador À Noite. E definitivamente, não esperava ver as fuças de alguns de vocês depois de quase (ou mais) de dez anos.

E o que espero hoje? Fingir que sou outra pessoa em alguns sábados por mais dois ou três anos, esperar ansiosamente cada encomenda de quadrinhos por mais umas duas décadas, me formar algum dia...

Não ouso imaginar muito além disso. Não consigo me imaginar sem óculos ou empregado corretamente. Não consigo imaginar meu rosto ou roupas em três anos. Não consigo imaginar nenhum panorama plausível para mim, nem identificar minha cena obrigatória.
Fico pensando em qualquer mundo viver. Eu, imóvel em mim, em vários mundos.

Por que diabos é mais fácil imaginar mundos que nós mesmos?

Às vezes acho que deveria fumar. Mentolados são melhores que pensamentos.

20.2.02

Algodão Doce
Em 20.02.02

Eu só queria era um algodão doce.

Um pouco de açúcar para me animar. Esquecer um pouco da dieta e da alimentação correta. Ando tanto precisando me animar... Salada e peixe grelhado são ótimos; ver a barriga lisinha também – ou tão lisa quanto pode ficar. Pra depois ouvir uma história de simplicidade. Fica sempre faltando alguma coisa. Não é nem o sabor ou o dulçor, é mais a animação.

Dá pra perceber que quem me olha pensa o mesmo que eu: que algodão doce é coisa de criança. Que uma senhora de quase trinta não devia mexer com essas coisas. Dane-se. Eu queria algodão doce justamente por ser coisa de criança. Doce, colorido, impressionante e vazio. Calorias vazias, melhor. Quando eu era criança eles não eram tão grandes assim. Mal comecei a comer e já estou com sede, cansada. Mas não quero água. Quero aquele restinho que fica grudado no palito. Por que não para de me olhar? Ninguém mais entende o prazer de um algodão doce.

Algodão doce é bem melhor que chocolate. Chocolate é coisa de mulher largada, de trintona triste e me nego a assumir qualquer um dos dois papéis. Ficar assistindo filmes água com açúcar e chorando na frente da TV, bebendo vinho por faltar coragem pra beber algo que funcione... Tudo muito clichê. Se é pra encher a cara de açúcar, melhor algodão doce. Muito mais divertido, muito mais simples e bem menos arriscado. Afinal, cedo ou tarde o vendedor vai ter que ir embora. Eu podia passar a noite toda comendo chocolate. Mas depois de um algodão doce quem é que vai querer saber de açúcar?

Esse negócio dá mais sede do que eu lembrava. Também, deve ter quase dez vezes o tamanho do último que eu comi. Aliás, quando foi isso? Deve ter mais de dez anos, eu nem estava com ele ainda. Eles não tinham essas cores tão bonitas. Ou acho que estava. Foi aquela vez no parque de diversões? Lembro de ficar com o rosto grudado, sem um banheiro para poder lavar. Que coisa mais clichê ir namorar em roda gigante. Não, acho que foi maçã-do-amor. Mas eu nem gosto de maçã!

Eu devo estar muito engraçada, toda suja. Dá pra sentir os pedacinhos de algodão colados no rosto. Eu devia ir lavar, mas combinei de encontrar ela aqui. E ainda tenho muito chão pela frente, só dá pra ver o palito na pontinha. Então nada de dois beijinhos. Não suporto mesmo. Coisa mais sem graça, igual a outra lá. “Simplicidade”. E isso lá é motivo? Por que ele não admite logo que quer alguém mais nova e menos neurótica? E precisava me chamar de neurótica? Ele quer é uma mulherzinha clichê igual ela, que cozinhe e limpe e tenha filhos por ser a coisa a se fazer. Eu disse que ele vai se arrepender. Eu sei que vai. Deixa só eu terminar meu algodão doce.

7.2.02

Sen-ryu Pré-Carnaval
em 07.02.02

Me pego observando,
Da janela do ônibus,
Que não sei participar