Amor de Menina
em 08.03.04
A Sofia era uns dois anos mais velha que eu, talvez menos, e tinha entrado na faculdade mais ou menos esse tempo antes. Acho que eu estava no meio do segundo ano quando soube dela. Um professor distribuiu uns roteiros de uma turma mais avançada para a gente analisar. Ele era daqueles substitutos que colocam a turma para trabalhar nas teses deles, torcendo o programa pra caralho e fodam-se as disciplinas. Era uma disciplina de crítica e ele resolveu encaixar os estudos de gênero dele de qualquer jeito.
Ele distribuiu os roteiros de uns curtas, sem nome dos autores, e a gente tinha que escrever sobre o autor. Sexo, background, influências e o diabo a partir dos roteiros. Eu peguei um roteiro que se resumia a uma série de conversas entre casais misturados com monólogos sobre as elipses e o não dito. Lembro de, lendo a sinopse, achar que era um filme de mulherzinha mal comida, cheio de blábláblá e falando dO Amor. Mas fui lendo e percebendo que não era assim. Era um filme de um homem, provavelmente mais velho, lá pelos quarenta. E muito triste.
Porque os homens, nessas coisas, normalmente são tratados como uns imbecis, correndo atrás de buceta e fazendo merda a torto. Um negócio Homer Simpson. E nesse roteiro não, os caras eram muito bem feitos, adultos, adolescentes ou velhos.
Eu fiquei impressionado com o quão bem ele escrevia as mulheres. Não havia muito antagonismo ou aqueles scripts predeterminados. Cada discussão era uma situação, parte de uma história que se desenrolava além da tela.
Daí eu sentei e escrevi. Que o autor era provavelmente um homem, depois dos quarenta, divorciado. Criado só pela mãe no meio de irmãs ou com treinamento em psicologia. Que ele provavelmente via o cinema como uma forma de teatro - poucos cortes, câmera parada - e provavelmente acreditava no diretor como o autor do filme.
Errei tudo, tirando a parte do diretor como autor.
O professor tinha pedido para os autores escreverem umas linhas sobre eles e os roteiros sem se identificarem. O meu roteirista era uma menina um pouco mais velha que eu, que adorava Greenway, Lynch e Acossado - "mas só Acossado". "Sei que não dá para dizer isso pelo roteiro", o texto dizia. "mas eu escolhi escrever um roteiro possível de ser filmado no pouco tempo desses nossos semestres abreviados."
Eu fiquei chocado. Eu nunca tinha me sentido tão bem retratado "num filme". Ninguém expunha tão bem o desencaixe que eu tentava tratar nas minhas histórias. E era uma mulher.
Até ali eu nunca tinha considerado as mulheres grande coisa. Colocando assim fica meio ridículo, mas até ali eu considerava - regra geral - mulheres menos inteligentes e interessantes que os homens. Nada biológico, eu achava, mas o problema social não ia ser resolvido tão cedo. Elas eram menos aventureiras, menos originais. Talhadas para serem ajudantes, não líderes. Eu não lembrava de nenhuma mulher na minha realidade imediata que tivesse preocupação de se expressar, criar seus projetos.
Para mim, a questão era ainda mais profunda. Na minha experiência, as mulheres estavam mais interessadas em reagir conta um modelo imaginário de homem - opressor, machão - do que em entender quem nasceu depois do feminismo. Me pareciam querer excluir os homens da possibilidade de um convívio mais próximo, reservando a um espaço determinado, como - rezam as lendas - os homens faziam com as mulheres até os anos 50. E eu percebia isso mesmo nas mulheres mais próximas, nas minhas namoradas. Pessoas inteligentes e sensíveis, mas que tinham um ódio não articulado dos homens.
O roteiro da Sofia me fez repensar tudo isso. Ainda pensava nas mulheres daquele jeito, mas a existência de uma exceção me dava alguma esperança e me enchia de curiosidade sobre a autora desconhecida.
Não lembro bem o motivo, mas demorei um bom tempo até começar a procurar quem tinha escrito o roteiro. Acho que teve uma greve ou coisa assim. Mas nesse meio tempo eu lia o roteiro várias vezes e ficava imaginando como seria a autora. Não conseguia formar uma imagem que se fixasse a partir da minha imaginação. A única constante é que ela tinha uma voz bonita, falava baixo e devagar e usava aqueles óculos com aros de plástico preto - uma aposta bem razoável, já que até tinha um povo que não tinha nenhum problema de vista mas usava aquilo para parecer mais cool. Entre uma e outra leitura, as impressões da primeiro momento foram crescendo dentro de mim. Passei o roteiro para uns amigos, conversei com eles a respeito. Um até disse que eu tinha melhorado muito do último e se surpreendeu quando eu disse que não era meu, mas de uma mulher que eu não sabia o nome. Engraçado que o roteiro nunca era de uma "menina", mas de uma "mulher" que eu imaginava ter mais ou menos minha idade. E, na minha cabeça, qualquer mulher da minha idade que eu não estivesse insultando ainda era uma menina.
Depois de um tempo, eu meio que esqueci o roteiro. Não de todo. O filme abriria com um trecho de Ana Cristina César - "Não é automatismo. Juro. É jazz do coração" - e eu achei depois um livro dela num sebo, que até tinha o poema. Acabei lendo poesia e feminina - coisas que antes me dariam coceira. Qualquer coisa para me ajudar a entender a autora.
Quando as aulas voltaram, eu imaginei um jeito rápido de descobrir de quem era o roteiro. Fiz uma cópia d afolha de rosto e coloquei no mural onde avisavam das festas e coisas assim, com uma nota perguntando de quem era. Fiquei meio puto de não ter pensado em anda assim antes, ter perdido tanto tempo imaginando como encontrar, como descobrir sobre quem escreveu.
Se me perguntassem na época eu não saberia dizer por que eu fiquei tão interessado em descobrir quem tinha escrito aquilo. Eu não falava muito sobre o assunto, andava meio isolado das coisas, fazendo uns trabalhos com imagens reaproveitadas, coisas distorcidas, que me colocavam muito tempo na frente do computador em casa, sem precisar lidar com equipe nem nada. Ficava em casa, navegando na Internet, brincando com efeitos de montagem, tentando colar cenas de comerciais e outras coisas de domínio vagamente público num filme que causasse certas impressões, preferencialmente opostas ao clima de felicidade dos comerciais. Por conta de um romance que eu tinha lido e do tempo extra da greve.
Eu pensava muito naquele roteiro, lia e relia com a mesma sofreguidão contida com que eu passava de blog em blog em fotolog, procurando me distrair de um sentimento difuso de perda que eu sentia. No roteiro, na autora fugidia dele eu iria encontrar alguma resposta.
Demorou uns dias para aparecer qualquer resposta sobre o papel no mural. Eu olhava com mais freqüência do que checava e-mail, acho. Até que tinha um nome lá, escrito no papel mesmo. Sofia Kelcher, um site com textos de ficção apontado no Google, nenhuma informação pessoal. Fui lendo as coisas, a maioria no mesmo nível do roteiro e fui ficando fascinado por ela. Juntava os pedacinhos - as palavras repetidas, as citações escondidas, as variações de registro - e ia montando um retrato da autora de voz bonita, num exercício semelhante ao que eu tinha feito antes, mas mais importante. Necessário até.
Eu cheguei a sonhar com ela. Não conseguia me lembrar de um corpo ou rosto, mas só da sensação de paz que ela de sonho me dava. Maluquice total. Era uma coisa muito esquisita. Acho que foi a primeira vez que eu comecei a admirar uma mulher. E eu nem conhecia. Talvez isso deixasse mais fácil, eu podia pegar qualquer figura e despejar todos os signos que eu tinha colhido, encaixar tudo que achava ter descoberto em uma figura imaginária perto de perfeita. Perfeita mesmo, com aqueles defeitos que amaciam as arestas de caráter que só gente chata tem. Na minha cabeça ela era alta, com porte de modelo, mas sem a cara de lobotomizada que a fome deixa nelas ao vivo. Algo bem impossível, bem fútil.
A beleza sempre foi o valor mais importante de uma mulher para mim. Eu não admitia, mas era. Eu não me lembro de ter achado uma mulher sexualmente interessante quando ela não se encaixava fisicamente num cânone maluco que eu tinha. E um cânone bastante exigente, ainda por cima. Eu me enganava dizendo que outras coisas eram importante, mas até minhas amigas-só-amigas tinham que estar dentro daquele padrão. Puta, eu era muito doente.
E a situação tinha se invertido. Eu estava apaixonado por algo incorpóreo, mais essencial. Coisas que eu nunca tinha me preocupado de fato em enxergar em uma mulher. E sem um corpo, uma foto que fosse para prender tudo aquilo.
O fim da busca foi bastante decepcionante, bem simples na verdade. Foi só perguntar por ela para alguém da mesma turma e me apontaram uma menina miúda, com jeito desorientado e os obrigatórios óculos de aro grosso, roupas meio amassadas no fim do corredor. Eu tinha me esbarrado com ela antes pelo prédio, claro, mas nunca registrei nada além de... Nada, eu não tinha nenhuma memória dela.
Senti uma puta decepção. A minha Sofia era bem mais que aquilo, bem mais bonita e - principalmente - mais bem vestida. Mas ao mesmo tempo ela me parecia tão real e inapelável que qualquer uma das meninas que eu tinha conhecido antes, tão mais imponente por saber que tinha muita coisa ali dentro que não consegui virar as costas. Não consegui nem fazer uma piadinha para mim mesmo sobre a mochila detonada e destoante que ela carregava.
Eu vi algo que não estava de todo ali - uma promessa de completude, de tranqüilidade, o sonho que eu tive, a beleza própria que eu inventei na hora. E tive que me aproximar.
8.3.04
3.3.04
21 Dias: Beat Takeshi
em 03.03.04
O dedo faltando e as tatuagens não chamariam atenção em outro ambiente. Se a mama-san entendesse português sem gestos e a filha não tivesse tanto sotaque, o homem com um pedaço de dragão estampado nas mãos não seria nada de extraordinário.
Mas ele entra no restaurante como se fosse muito maior do que um japonês baixinho. Senta sem se curvar ou responder as saudações da velha e da menina. As duas espalham a refeição na bancada - maior do que todas as outras no restaurante - sem que ele precise dizer uma só palavra. Ele ataca primeiro a garrafa de saquê, esquecendo todo o resto.
Um celular toca no bolso do terno, sendo atendido com uma rispidez anormal, sem mushi-mushi. Ele levanta sem pagar e avança em direção a porta, só parando para apontar os quatro dedos da mão direita para a menina, enquanto a metralha com gritos.
em 03.03.04
O dedo faltando e as tatuagens não chamariam atenção em outro ambiente. Se a mama-san entendesse português sem gestos e a filha não tivesse tanto sotaque, o homem com um pedaço de dragão estampado nas mãos não seria nada de extraordinário.
Mas ele entra no restaurante como se fosse muito maior do que um japonês baixinho. Senta sem se curvar ou responder as saudações da velha e da menina. As duas espalham a refeição na bancada - maior do que todas as outras no restaurante - sem que ele precise dizer uma só palavra. Ele ataca primeiro a garrafa de saquê, esquecendo todo o resto.
Um celular toca no bolso do terno, sendo atendido com uma rispidez anormal, sem mushi-mushi. Ele levanta sem pagar e avança em direção a porta, só parando para apontar os quatro dedos da mão direita para a menina, enquanto a metralha com gritos.
29.2.04
21 Dias: Romance Frustrado
em 02.02.04
Os dois andam juntos sob a chuva fina, fim de tarde. Conhecidos há pouco, quando a chuva ainda era torrencial. Conversas elípticas, risos fáceis, biografias trocadas em poucas quadras. E o nome se encaixando com as estações.
O caderno que escorrega para o chão, tentando os dois a escorregarem juntos para os primeiros encontros das comédias românticas. Desastrado, ele antecipa o esbarrão ao ser gentil. Oportunidade de se perder nas poças azuis no que ela traz no rosto.
Mas o esbarrão vem de outro lado, espalhando lama e realidade entre os dois.
em 02.02.04
Os dois andam juntos sob a chuva fina, fim de tarde. Conhecidos há pouco, quando a chuva ainda era torrencial. Conversas elípticas, risos fáceis, biografias trocadas em poucas quadras. E o nome se encaixando com as estações.
O caderno que escorrega para o chão, tentando os dois a escorregarem juntos para os primeiros encontros das comédias românticas. Desastrado, ele antecipa o esbarrão ao ser gentil. Oportunidade de se perder nas poças azuis no que ela traz no rosto.
Mas o esbarrão vem de outro lado, espalhando lama e realidade entre os dois.
7.1.04
Girls as a Memetic Infection VII
em 06.01.04
Se um paranóico é alguém que conhece todos os fatos, por que sua apofenia não podia ser algo semelhante? O reconhecimento simples de uma verdade evidente. Não era sua percepção que conectava tudo a ela, mas a história que a deslocava para o centro de todos os acontecimentos.
Era muito claro para qualquer um que entendesse como os eventos se desenrolam que não fora no metrô que a história dos dois havia começado. Ali era o ponto de virada, o chamado para a aventura. E nenhuma história que se preza podia começar assim, sem uma amostra do vida anterior vazia do seu protagonista. Fora naquele momento que ela explodira, forçando sua presença sobre todas as pessoas na estação e todos os outros assuntos.
Mas - ele tinha certeza agora - faltava um primeiro ato.
Antes dela, quando a companhia da namorada anterior não provocava nada além de uma solidão difusa. Os dois sentados num telhado, observando o céu noturno colorido pelas luzes da cidade. A percepção que não se completavam mais já presente nele ao ponto de não poder ser ignorada, mas ainda nova demais para que tocassem no assunto. Foi ali que ela apareceu, enquanto abraçava a ex-paixão tentando aquecê-la e se livrar da culpa de saber que não era exatamente aquela que queria ali.
Lembrava a cena incluindo coisas que não sabia na época, deslocando fatos ligeiramente no tempo. Adiantava alguns, puxando para a manhã seguinte o encontro na estação. Criava uma montagem paralela de uma conversa no telhado carregada de intenções, sentidos velados e meias verdades - mas que só podia acontecer na cabeça dele, ou a ilusão forçada que ainda gostava da outra lá se desfaria na hora - e a concepção e treinamento delas. A estrela cadente se despedaçando no céu era sempre emoldurada pela narração de um telejornal. Tudo antes do título, enquanto os créditos ainda corriam na tela.
A verdade é que foi a ex-paixão que apontou a estrela no céu, um só corpo deixando um traço brilhante enquanto lutava contra a atmosfera. "Olha! Faz um pedido!!" Ele conhecia o protocolo, apesar de nunca ter visto uma estrela cadente - lembrava de ter pensado que nunca vira uma delas fora da ficção, onde nunca eram o pedaço de pedra que deviam ser, mas sempre coisas mais interessantes.
Olhou para ela, fascinada com a visão, pulando e dizendo para ele fazer o desejo. A namorada sorridente desfez por um momento a sensação de perda de algo importante que sempre provocava. Começou a transformar seu desejo em palavras - algo como prolongar para semore aquele fascínio ela - mas o grito o interrompeu. Olhou para o céu, onde o meteorito se espatifara em uma manada de pedaços brilhantes. E desejou com todas as forças encontrar alguém que o completasse.
Quando olhou de novo para a ex-paixão, percebeu nos olhos dela que só o desejo dele iria se realizar. Era um dos poucos pontos da história do qual não tinha plena certeza. Podia ser só o ego brincando com a memória, mas a culpa que ainda sentia tanto tempo depois diziam que não. Enxergou nos olhos dela que poderiam ficar juntos para sempre. Seria um bom fim para outra história.
Só descobriu no dia seguinte que não desejara para uma estrela cadente, mas um satélite antigo retornando para casa, o coração radiativo morto há muito. Era por isso que não conseguia aceitar que os eventos eram aleatórios, que uma parada para comprar o jornal ou um beijo mais longo pudessem ter colocado tudo a perder. Os temas eram recorrentes e tudo se encaixava com uma perfeição impossível nos documentários.
Uma estrela falsa só podia atender o desejo com um amor artificial
em 06.01.04
Se um paranóico é alguém que conhece todos os fatos, por que sua apofenia não podia ser algo semelhante? O reconhecimento simples de uma verdade evidente. Não era sua percepção que conectava tudo a ela, mas a história que a deslocava para o centro de todos os acontecimentos.
Era muito claro para qualquer um que entendesse como os eventos se desenrolam que não fora no metrô que a história dos dois havia começado. Ali era o ponto de virada, o chamado para a aventura. E nenhuma história que se preza podia começar assim, sem uma amostra do vida anterior vazia do seu protagonista. Fora naquele momento que ela explodira, forçando sua presença sobre todas as pessoas na estação e todos os outros assuntos.
Mas - ele tinha certeza agora - faltava um primeiro ato.
Antes dela, quando a companhia da namorada anterior não provocava nada além de uma solidão difusa. Os dois sentados num telhado, observando o céu noturno colorido pelas luzes da cidade. A percepção que não se completavam mais já presente nele ao ponto de não poder ser ignorada, mas ainda nova demais para que tocassem no assunto. Foi ali que ela apareceu, enquanto abraçava a ex-paixão tentando aquecê-la e se livrar da culpa de saber que não era exatamente aquela que queria ali.
Lembrava a cena incluindo coisas que não sabia na época, deslocando fatos ligeiramente no tempo. Adiantava alguns, puxando para a manhã seguinte o encontro na estação. Criava uma montagem paralela de uma conversa no telhado carregada de intenções, sentidos velados e meias verdades - mas que só podia acontecer na cabeça dele, ou a ilusão forçada que ainda gostava da outra lá se desfaria na hora - e a concepção e treinamento delas. A estrela cadente se despedaçando no céu era sempre emoldurada pela narração de um telejornal. Tudo antes do título, enquanto os créditos ainda corriam na tela.
A verdade é que foi a ex-paixão que apontou a estrela no céu, um só corpo deixando um traço brilhante enquanto lutava contra a atmosfera. "Olha! Faz um pedido!!" Ele conhecia o protocolo, apesar de nunca ter visto uma estrela cadente - lembrava de ter pensado que nunca vira uma delas fora da ficção, onde nunca eram o pedaço de pedra que deviam ser, mas sempre coisas mais interessantes.
Olhou para ela, fascinada com a visão, pulando e dizendo para ele fazer o desejo. A namorada sorridente desfez por um momento a sensação de perda de algo importante que sempre provocava. Começou a transformar seu desejo em palavras - algo como prolongar para semore aquele fascínio ela - mas o grito o interrompeu. Olhou para o céu, onde o meteorito se espatifara em uma manada de pedaços brilhantes. E desejou com todas as forças encontrar alguém que o completasse.
Quando olhou de novo para a ex-paixão, percebeu nos olhos dela que só o desejo dele iria se realizar. Era um dos poucos pontos da história do qual não tinha plena certeza. Podia ser só o ego brincando com a memória, mas a culpa que ainda sentia tanto tempo depois diziam que não. Enxergou nos olhos dela que poderiam ficar juntos para sempre. Seria um bom fim para outra história.
Só descobriu no dia seguinte que não desejara para uma estrela cadente, mas um satélite antigo retornando para casa, o coração radiativo morto há muito. Era por isso que não conseguia aceitar que os eventos eram aleatórios, que uma parada para comprar o jornal ou um beijo mais longo pudessem ter colocado tudo a perder. Os temas eram recorrentes e tudo se encaixava com uma perfeição impossível nos documentários.
Uma estrela falsa só podia atender o desejo com um amor artificial
15.11.03
Ruído Branco
em 15.11.03 - com meus cumprimentos a Warren Ellis
Há décadas eu não ouço o silêncio, desde que acordei nessa cidade. Não escuto mais a ausência que destaca o barulho dos grilos, de um cachorro uivando à distância, dos pássaros acordando quando eu estou indo dormir ou de algum casal mais empolgado na noite. Mesmo quando tudo está silencioso e todos dormem, eu não consigo ouvir os sons que antes me incomodavam tanto.
Só o maldito zumbido. A freqüência da eletricidade vibrando nos fios, nas pessoas, nas embalagens dos alimentos, em todos os lugares. Mesmo no meio do barulho de uma rua lotada, no meio do tagarelar de milhares de vozes, não consigo desligar o zumbido. Ele está em mim.
Não estava, antes de ser congelado. Antes do adiamento da minha cura, as cidades já vibravam, mas em outro ritmo, em outra freqüência. Os fios de alta tensão, os poucos computadores ligados, os ventiladores e aparelhos de ar condicionado. Mais espaçadas, as fontes de barulho não formavam a massa de som que formam hoje. O zumbido ainda descansava às vezes.
E havia lugares aos quais ele era incapaz de chegar. À beira do mar, à cama do sexo, ao chuveiro. Hoje, o zumbindo está comigo, com todos. Nos nossos telefones embutidos, que captam os fios que vazam eletromagnetismo. Nos implantes que monitoram as funções vitais. Nos amantes e seus aumentos de memórias.
Quando refizeram meu corpo embutiram em mim todas as curas e sensores hoje habituais. Ninguém aqui se lembra de tempos mais silenciosos, só nós saídos do freezer - e só os muito ricos têm alguma credibilidade aqui. Nós nos lembramos do silêncio.
Alguns chegam a furar seus tímpanos para calar o tinnitus. Não adianta nada. A maldita vibração continua ali, sensível em todos os movimentos, no toque dos sensores sob a pele. Mesmo se não fosse assim, os médicos reconstróem os ouvidos. Descongelados têm bons planos de saúde, que nos forçam a tratamentos que não queremos.
Eu queria só queria poder ouvir sua respiração no escuro.
em 15.11.03 - com meus cumprimentos a Warren Ellis
Há décadas eu não ouço o silêncio, desde que acordei nessa cidade. Não escuto mais a ausência que destaca o barulho dos grilos, de um cachorro uivando à distância, dos pássaros acordando quando eu estou indo dormir ou de algum casal mais empolgado na noite. Mesmo quando tudo está silencioso e todos dormem, eu não consigo ouvir os sons que antes me incomodavam tanto.
Só o maldito zumbido. A freqüência da eletricidade vibrando nos fios, nas pessoas, nas embalagens dos alimentos, em todos os lugares. Mesmo no meio do barulho de uma rua lotada, no meio do tagarelar de milhares de vozes, não consigo desligar o zumbido. Ele está em mim.
Não estava, antes de ser congelado. Antes do adiamento da minha cura, as cidades já vibravam, mas em outro ritmo, em outra freqüência. Os fios de alta tensão, os poucos computadores ligados, os ventiladores e aparelhos de ar condicionado. Mais espaçadas, as fontes de barulho não formavam a massa de som que formam hoje. O zumbido ainda descansava às vezes.
E havia lugares aos quais ele era incapaz de chegar. À beira do mar, à cama do sexo, ao chuveiro. Hoje, o zumbindo está comigo, com todos. Nos nossos telefones embutidos, que captam os fios que vazam eletromagnetismo. Nos implantes que monitoram as funções vitais. Nos amantes e seus aumentos de memórias.
Quando refizeram meu corpo embutiram em mim todas as curas e sensores hoje habituais. Ninguém aqui se lembra de tempos mais silenciosos, só nós saídos do freezer - e só os muito ricos têm alguma credibilidade aqui. Nós nos lembramos do silêncio.
Alguns chegam a furar seus tímpanos para calar o tinnitus. Não adianta nada. A maldita vibração continua ali, sensível em todos os movimentos, no toque dos sensores sob a pele. Mesmo se não fosse assim, os médicos reconstróem os ouvidos. Descongelados têm bons planos de saúde, que nos forçam a tratamentos que não queremos.
Eu queria só queria poder ouvir sua respiração no escuro.
3.11.03
Sigilismo - Capítulo I
Preso à máquina de escrever, ele começa a traçar seu caminho para fora dali. Ainda é muito cedo, mas ele sabe que em pouco tempo seus dedos vão estar doloridos pela falta de costume nessas antigüidades. Engrenagens que empurram os tipos gastos em direção à fita. A pancada contra o papel. O pequeno choque a cada vez que as palavras se movem. "Não é a melhor forma de escrever", pensa o escritor, que nunca usou outra coisa além de caneta ou computadores para escrever. Mas, se pudesse escolher alguma coisa, escolheria não estar ali.
Tinha que escrever seu caminho para fora. De uma forma compreensível o suficiente, proibindo sua caligrafia terrível. Caneta e papel permitiriam a sua mente passear por aí, diminuindo os efeitos do encanto. Precisava se concentrar nas palavras, tornar cada uma especial com seu esforço. Os dedos que logo começariam a doer seriam sacrifício o suficiente.
Apreciava a ironia. Finalmente tinha o tempo e o motivo para escrever. A vontade era pouca, o prêmio não era lá grande coisa, mas a oportunidade não podia ser desperdiçada. Mais que isso, tinha um cliente esperando que prestasse contas dos seus progressos, que explicasse tudo que acontecera nos últimos meses. Para isso, era necessário criar com palavras sua saída dali. Construir o lugar onde estava, esculpir rachaduras nas paredes que permitiriam que escapasse.
Fora por se deixar levar pelas palavras que acabara ali, preso por elas. Perdera seu foco, envolvido pela prosa e idéias de outros, esquecera quem era. Agora, ao se impor sobre as palavras, forçá-las a se dobrar sob sua vontade, sairia dali.
Não havia motivo para pressa, reconheceu quando seus dedos começaram a doer. O tempo não passava com a mesma velocidade ali. Enquanto lá dentro horas, dias e semana pareciam se acumular sem nenhuma mudança visível, lá fora - lá fora? - o tempo ficaria parado enquanto não passassem as páginas do livro.
Por sorte ele não cobrava por dia.
Sigilismo é o título provisório da minha tentativa de romance para o National Novel Writing Month. Este é o primeiro capítulo até agora. Tudo é temporário e pode ser modificado. Existe a possibilidade de que trechos selecionados apareçam aqui durante novembro.
Preso à máquina de escrever, ele começa a traçar seu caminho para fora dali. Ainda é muito cedo, mas ele sabe que em pouco tempo seus dedos vão estar doloridos pela falta de costume nessas antigüidades. Engrenagens que empurram os tipos gastos em direção à fita. A pancada contra o papel. O pequeno choque a cada vez que as palavras se movem. "Não é a melhor forma de escrever", pensa o escritor, que nunca usou outra coisa além de caneta ou computadores para escrever. Mas, se pudesse escolher alguma coisa, escolheria não estar ali.
Tinha que escrever seu caminho para fora. De uma forma compreensível o suficiente, proibindo sua caligrafia terrível. Caneta e papel permitiriam a sua mente passear por aí, diminuindo os efeitos do encanto. Precisava se concentrar nas palavras, tornar cada uma especial com seu esforço. Os dedos que logo começariam a doer seriam sacrifício o suficiente.
Apreciava a ironia. Finalmente tinha o tempo e o motivo para escrever. A vontade era pouca, o prêmio não era lá grande coisa, mas a oportunidade não podia ser desperdiçada. Mais que isso, tinha um cliente esperando que prestasse contas dos seus progressos, que explicasse tudo que acontecera nos últimos meses. Para isso, era necessário criar com palavras sua saída dali. Construir o lugar onde estava, esculpir rachaduras nas paredes que permitiriam que escapasse.
Fora por se deixar levar pelas palavras que acabara ali, preso por elas. Perdera seu foco, envolvido pela prosa e idéias de outros, esquecera quem era. Agora, ao se impor sobre as palavras, forçá-las a se dobrar sob sua vontade, sairia dali.
Não havia motivo para pressa, reconheceu quando seus dedos começaram a doer. O tempo não passava com a mesma velocidade ali. Enquanto lá dentro horas, dias e semana pareciam se acumular sem nenhuma mudança visível, lá fora - lá fora? - o tempo ficaria parado enquanto não passassem as páginas do livro.
Por sorte ele não cobrava por dia.
9.10.03
Transparências
em 09.10.03
Quando eu era criança, não bem criança. Crianças não se ligam para sexo e meninos não prestam atenção nas meninas até elas estarem mais velhas e apaixonadas pelos meninos mais velhos, que tomam foras das meninas da sua idade e são obrigados a ficar com as meninas mais novas. Enfim.
No início da minha adolescência, eu não ligava para as meninas. Não é que eu fosse muito novo ou desligado delas ou bicha - naquele tempo a televisão não era igual a hoje para ensinar essas coisas para as crianças - eu só não me interessava pelas meninas. Até tinha vontade de ver como elas eram debaixo das roupas, mas depois de ver umas revistas de sacanagem que um tio meu me deu eu perdi a vontade. Nem peito direito elas tinham. Elas, as mulheres que eu conhecia, pareciam não ter nenhum mistério. Eram como a minha mãe. Um dia eu ia ter que me casar com uma e fazer umas coisas para garantir a roupa lavada e a comida na mesa. Mas elas não tinham graça, sabe.
Eu gostava mesmo é de saber como as coisas eram por dentro. Adorava desmontar os brinquedos, abrir a televisão, essas coisas de moleque. A maior parte do tempo eu passava escondido numa oficina perto de casa, ajudando o dono, o seu Pituca com uns carros. Eu ajudava para poder mexer neles. Me sentia todo importante, como se alguém tivesse me contando um segredo bem grande. Até hoje meio que me sinto assim quando mexo num carro. Claro que me contam segredos bem maiores, mas até encherem os carros dessas peças de computador eu mesmo arrumava os meus. Deixava ele parado durante a semana e pegava o da mulher ou do menino, esperando chegar o fim de semana para arrumar. Era uma das coisas que eu queria fazer com meu menino, mas ele nunca gostou.
Pois eu estava dizendo que não ligava para as meninas, achava perda de tempo. Era mais de desmontar um relógio que ficar correndo atrás de menina maluca, cheia de frescura e sem graça. Até o dia que me machuquei na oficina pensava assim.
Eu estava tirando a roda de um carro e tinha um parafuso muito difícil. Eu não era um desses mopleques criados por vó, mas só tinha treze anos, ainda era meio mirrado, sabe? Não queria pedir ajuda - adorava quando o seu Pituca me dava os parabéns porque tinha feito algo difícil para alguém do meu tamanho - daí inventei de subir naquela chave para girar o parafuso com meu peso. Já tinha feito aquilo umas vezes, numa o Pituca até me deu um cascudo porque eu ia entortar a chave dele, por isso tirei todos os outros parafusos antes de tirar aquele. Sabia que ele ia ter que dar uma saidinha, a menina que ele comia sem a patroa saber tinha passado por lá, daí esperei. Mal ele saiu da oficina, pulei em cima da chave, para girar com meu peso. Só que o seu Pituca voltou para pegar um negócio, eu me assustei e enfiei a chave na minha perna.
Era daquelas chaves em cruz, com uma ponta de chave de fenda. Pois foi bem essa que enfiei na perna. E entrou fundo, na parte de baixo da perna. Fiquei meio preso por ela, e a perna foi abrindo. Até em cima, perto do joelho, um puta rasgo. Fundo, sangrando pra caralho. O Pituca viu, me xingou, me colocou no carro e me levou para o hospital.
Não me lembro de muita coisa. Lembro de esperar um tempo e da minha mãe chegando e fazendo escândalo ? igualzinho a minha mulher faz com os meninos - falando pra diabo e eu sem ouvir nada, com a perna doendo, sem querer chorar na frente do Pituca de novo - já tinha chorado que chega no carro. Mas lembro de uma menina que estava com o omoplata partido. Lembro que ela era maior que eu e que esperava com muita dignidade, sentada direito e tudo, com uma tipóia de pano de toalha.
A menina entrou antes de mim e eu xingando baixinho, pensando que eu devia ir antes - eu, não ela, estava sangrando. Mas ele foi para uma sala, e voltou rapidinho, mesmo para quem estava com a perna sangrando pra caralho.
O médico me chamou, a mãe e o Pituca me apoiaram até a sala e o médico olhou a perna, limpou, deu anestesia e começou a costurar, falando comigo calmo, sem a gritaria da mãe. Enquanto ele me costurava, chegou um sujeito com um negócio na mão que eu nunca tinha visto antes e colocou no meu lado na maca. Tipo uma foto, só que grande. Fiquei espiando e o médico percebeu. Ele perguntou se eu nunca tinha visto um raio-x antes e eu disse que nem tinha visto aquele ainda. Minha mãe disse para eu deixar de ser grosso, se eu não estivesse na frente do doutor eu ia ver. O médico já estava mais cheio que eu e pediu pra mãe e pro seu Pituca saírem da sala, que ele queria conversar comigo.
Ele fez umas perguntas e disse que ia ter que tomar umas injeções. Daí ele perguntou se eu queria ver o raio-x. Ele me explicou que era um jeito de ver os ossos, mostrou até a fratura, que mal dava para ver. Eu perguntei quem era e ele disse que era da menina na sala de espera.
Eu nunca tinha pensado no que a gente tinha por dentro. Muito menos que as meninas tinham algo por dentro, já que emperequitavam tanto o lado de fora. Fiquei fascinado e, quando saí da sala e o doutor chamou a menina - não lembro o nome dela, só lembro que ele falou bem alto, um nome estranho mas bonito - eu manquei mais devagar do que precisava, me coloquei na frente dela e encarei. Parei e me senti muito íntimo dela, que estava muito mais bonita do que quando entrei na sala. Até pensei em esbarrar nela, mas faltou coragem.
Depois daquele dia, quando melhorei e voltei para a escola, eu comecei a ver a graça das meninas. E até me aproximei de uma ou outra, as mais magrelas, onde dava para ver um ossinho aqui e outro ali. Nada melhor que sentir os ossos com meus dedos, perceber que elas tinham algo ali dentro. E era fácil. Elas protegiam era as carnes. A bunda, os seios eram proibidos, mas nunca vi uma menina dar um tapa na mão nos ombros.
De vez em quando eu ia no hospital, conversar com o médico e olhar uns raios-x. Os dos caras eram legais, mas eu conseguia saber logo quando era de uma mulher. Dava uma vontade de tocar, colocar as coisas no lugar com as mãos, rasgar a carne e encaixar os pedaços dos ossos. Saia dali cheio de energia, era meu filme de sacanagem, acho que por isso decidi ser médico.
Raio-x não era algo comum igual hoje. Se fosse, acho que ia ser segurança que era mais fácil. Mas era difícil, tinha que ser médico ou enfermeiro para ver raio-x. Ou técnico em raio-x, mas eu não sabia disso na época. Foi sorte, senão eu não tinha me esforçado para me formar.
Eu achava que meu negócio, minha tara, eram os ossos. Mas quando eu via uma mulher grávida - e osso é a última coisa que dá para ver numa mulher grávida - eu tinha a mesma vontade de tocar o que tinha dentro. Quando ouvi falar de ultra-som, resolvi que era nisso que eu ia me especializar. Diagnóstico por imagem.
Tem uns bestas que ficam pensando que ginecologista que tem sorte, que vê buceta o dia todo. Só que esquecem que quem vai no ginecologista não tá lá muito bem. E como os caras são visados. Se pegam um batendo uma entre as consultas, já foi o emprego.
Quem tem sorte sou eu. Quase tudo que eu faço - eu nem quase faço mais, ensino - fica o registro em vídeo ou papel. Ressonâncias, endoscopias, contrastes, ultra-som e o diabo. Eu posso levar para casa, ver quantas vezes eu quiser. Acho que nem passa pela cabeça dela porque eu faço isso, mas a verdade é que eu sou bom pra caralho e tenho sorte de misturar diversão e trabalho dum jeito invisível.
E o site não vai mal. Daqui a pouco vou tirar tanto nele quanto no hospital e na faculdade. Só fico esperando o dia em que uma dessas revistas vai escrever sobre o assunto e uma porrada de gente vai descobrir ficar de pau duro com a idéia.
Eu sei que tem mais gente esperando pelo segredo.
em 09.10.03
Quando eu era criança, não bem criança. Crianças não se ligam para sexo e meninos não prestam atenção nas meninas até elas estarem mais velhas e apaixonadas pelos meninos mais velhos, que tomam foras das meninas da sua idade e são obrigados a ficar com as meninas mais novas. Enfim.
No início da minha adolescência, eu não ligava para as meninas. Não é que eu fosse muito novo ou desligado delas ou bicha - naquele tempo a televisão não era igual a hoje para ensinar essas coisas para as crianças - eu só não me interessava pelas meninas. Até tinha vontade de ver como elas eram debaixo das roupas, mas depois de ver umas revistas de sacanagem que um tio meu me deu eu perdi a vontade. Nem peito direito elas tinham. Elas, as mulheres que eu conhecia, pareciam não ter nenhum mistério. Eram como a minha mãe. Um dia eu ia ter que me casar com uma e fazer umas coisas para garantir a roupa lavada e a comida na mesa. Mas elas não tinham graça, sabe.
Eu gostava mesmo é de saber como as coisas eram por dentro. Adorava desmontar os brinquedos, abrir a televisão, essas coisas de moleque. A maior parte do tempo eu passava escondido numa oficina perto de casa, ajudando o dono, o seu Pituca com uns carros. Eu ajudava para poder mexer neles. Me sentia todo importante, como se alguém tivesse me contando um segredo bem grande. Até hoje meio que me sinto assim quando mexo num carro. Claro que me contam segredos bem maiores, mas até encherem os carros dessas peças de computador eu mesmo arrumava os meus. Deixava ele parado durante a semana e pegava o da mulher ou do menino, esperando chegar o fim de semana para arrumar. Era uma das coisas que eu queria fazer com meu menino, mas ele nunca gostou.
Pois eu estava dizendo que não ligava para as meninas, achava perda de tempo. Era mais de desmontar um relógio que ficar correndo atrás de menina maluca, cheia de frescura e sem graça. Até o dia que me machuquei na oficina pensava assim.
Eu estava tirando a roda de um carro e tinha um parafuso muito difícil. Eu não era um desses mopleques criados por vó, mas só tinha treze anos, ainda era meio mirrado, sabe? Não queria pedir ajuda - adorava quando o seu Pituca me dava os parabéns porque tinha feito algo difícil para alguém do meu tamanho - daí inventei de subir naquela chave para girar o parafuso com meu peso. Já tinha feito aquilo umas vezes, numa o Pituca até me deu um cascudo porque eu ia entortar a chave dele, por isso tirei todos os outros parafusos antes de tirar aquele. Sabia que ele ia ter que dar uma saidinha, a menina que ele comia sem a patroa saber tinha passado por lá, daí esperei. Mal ele saiu da oficina, pulei em cima da chave, para girar com meu peso. Só que o seu Pituca voltou para pegar um negócio, eu me assustei e enfiei a chave na minha perna.
Era daquelas chaves em cruz, com uma ponta de chave de fenda. Pois foi bem essa que enfiei na perna. E entrou fundo, na parte de baixo da perna. Fiquei meio preso por ela, e a perna foi abrindo. Até em cima, perto do joelho, um puta rasgo. Fundo, sangrando pra caralho. O Pituca viu, me xingou, me colocou no carro e me levou para o hospital.
Não me lembro de muita coisa. Lembro de esperar um tempo e da minha mãe chegando e fazendo escândalo ? igualzinho a minha mulher faz com os meninos - falando pra diabo e eu sem ouvir nada, com a perna doendo, sem querer chorar na frente do Pituca de novo - já tinha chorado que chega no carro. Mas lembro de uma menina que estava com o omoplata partido. Lembro que ela era maior que eu e que esperava com muita dignidade, sentada direito e tudo, com uma tipóia de pano de toalha.
A menina entrou antes de mim e eu xingando baixinho, pensando que eu devia ir antes - eu, não ela, estava sangrando. Mas ele foi para uma sala, e voltou rapidinho, mesmo para quem estava com a perna sangrando pra caralho.
O médico me chamou, a mãe e o Pituca me apoiaram até a sala e o médico olhou a perna, limpou, deu anestesia e começou a costurar, falando comigo calmo, sem a gritaria da mãe. Enquanto ele me costurava, chegou um sujeito com um negócio na mão que eu nunca tinha visto antes e colocou no meu lado na maca. Tipo uma foto, só que grande. Fiquei espiando e o médico percebeu. Ele perguntou se eu nunca tinha visto um raio-x antes e eu disse que nem tinha visto aquele ainda. Minha mãe disse para eu deixar de ser grosso, se eu não estivesse na frente do doutor eu ia ver. O médico já estava mais cheio que eu e pediu pra mãe e pro seu Pituca saírem da sala, que ele queria conversar comigo.
Ele fez umas perguntas e disse que ia ter que tomar umas injeções. Daí ele perguntou se eu queria ver o raio-x. Ele me explicou que era um jeito de ver os ossos, mostrou até a fratura, que mal dava para ver. Eu perguntei quem era e ele disse que era da menina na sala de espera.
Eu nunca tinha pensado no que a gente tinha por dentro. Muito menos que as meninas tinham algo por dentro, já que emperequitavam tanto o lado de fora. Fiquei fascinado e, quando saí da sala e o doutor chamou a menina - não lembro o nome dela, só lembro que ele falou bem alto, um nome estranho mas bonito - eu manquei mais devagar do que precisava, me coloquei na frente dela e encarei. Parei e me senti muito íntimo dela, que estava muito mais bonita do que quando entrei na sala. Até pensei em esbarrar nela, mas faltou coragem.
Depois daquele dia, quando melhorei e voltei para a escola, eu comecei a ver a graça das meninas. E até me aproximei de uma ou outra, as mais magrelas, onde dava para ver um ossinho aqui e outro ali. Nada melhor que sentir os ossos com meus dedos, perceber que elas tinham algo ali dentro. E era fácil. Elas protegiam era as carnes. A bunda, os seios eram proibidos, mas nunca vi uma menina dar um tapa na mão nos ombros.
De vez em quando eu ia no hospital, conversar com o médico e olhar uns raios-x. Os dos caras eram legais, mas eu conseguia saber logo quando era de uma mulher. Dava uma vontade de tocar, colocar as coisas no lugar com as mãos, rasgar a carne e encaixar os pedaços dos ossos. Saia dali cheio de energia, era meu filme de sacanagem, acho que por isso decidi ser médico.
Raio-x não era algo comum igual hoje. Se fosse, acho que ia ser segurança que era mais fácil. Mas era difícil, tinha que ser médico ou enfermeiro para ver raio-x. Ou técnico em raio-x, mas eu não sabia disso na época. Foi sorte, senão eu não tinha me esforçado para me formar.
Eu achava que meu negócio, minha tara, eram os ossos. Mas quando eu via uma mulher grávida - e osso é a última coisa que dá para ver numa mulher grávida - eu tinha a mesma vontade de tocar o que tinha dentro. Quando ouvi falar de ultra-som, resolvi que era nisso que eu ia me especializar. Diagnóstico por imagem.
Tem uns bestas que ficam pensando que ginecologista que tem sorte, que vê buceta o dia todo. Só que esquecem que quem vai no ginecologista não tá lá muito bem. E como os caras são visados. Se pegam um batendo uma entre as consultas, já foi o emprego.
Quem tem sorte sou eu. Quase tudo que eu faço - eu nem quase faço mais, ensino - fica o registro em vídeo ou papel. Ressonâncias, endoscopias, contrastes, ultra-som e o diabo. Eu posso levar para casa, ver quantas vezes eu quiser. Acho que nem passa pela cabeça dela porque eu faço isso, mas a verdade é que eu sou bom pra caralho e tenho sorte de misturar diversão e trabalho dum jeito invisível.
E o site não vai mal. Daqui a pouco vou tirar tanto nele quanto no hospital e na faculdade. Só fico esperando o dia em que uma dessas revistas vai escrever sobre o assunto e uma porrada de gente vai descobrir ficar de pau duro com a idéia.
Eu sei que tem mais gente esperando pelo segredo.
21.9.03
Houve uma época em que eu colocava meus experimentos com fotografia e photoshops aqui. Atualmente, eles estão Aoristo.Fotolog. Por esses dias, imagens tiradas com uma câmera digital sem nenhum visor funcional.
4.9.03
Girls as a Memetic Infection VI
em 03.09.03
Todas suas defesas se anulavam quando pensava nela como uma história. E essa era a única tentação a que nunca conseguia resistir. Afinal, forçar sentidos em palavras e eventos desconexos era a única coisa que sabia fazer. E a história com ela vinha tão pronta - tão história - que mal resistia ao desejo de saber o final.
Na verdade, ele podia prever o final sem muitos problemas. Mesmo quando ainda faltavam tantas providências e preparativos, já tinha plena consciência da última frase, anotada num e-mail antigo.
Era feita para ele. Ou alguém como ele. Não acreditava mais em individualidades absolutas depois dela. "Um memeplexo complementar pesquisado e construído para minha faixa de consumo." Raciocínio incômodo e recorrente, mas impossível de evitar. Idéias sobre narrativas se aplicavam tão perfeitamente à situação, cheia de estruturas e reviravoltas, que eram mais que auto-engano, que uma desculpa para poder se embrenhar mais nas lembranças dela. Como se precisasse.
As técnicas antimemes não pareciam funcionar contra ela. Podia desligar propagandas de refrigerante, ir aos shows da música pop mais pegajosa e sair sem lembrar um acorde, perceber com clareza as gírias emergentes ou o ponto de saturação de uma moda. Mas algo nela fazia com que as idéias persistissem.
Inicialmente atribuiu a persistência das memórias ao fato de já estarem fixadas. Os memes já estavam lá, instalados, contaminando outros pensamentos com seus tentáculos. Eram muito bem construídos e já estavam instalados em memórias demais e apagá-las era impossível. Como todas as outras que já estavam grudadas nele.
Acreditava que todas as memórias eram indeléveis. Ou uma parte significativa delas. Mesmo que tivesse esquecido as correspondências entre moedas, capitais e países, algumas coisas persistiam. Slogans publicitários, as musiquinhas que aprendeu na escola, a vergonha antiga ao acordar de um sonho esquecido. Coisas sedimentadas demais, que flutuavam à mente sem nenhuma razão discernível. Ouvira falar de pessoas que esqueciam acontecimentos antigos e importantes. Enterravam lembranças sob outras, cardumes no quarto em vez do tio nu, um processo natural. Mas que plenamente possível de ser disparado, se podia acreditar nas "memórias" dos abduzidos e em alguns arquivos que encontrou na Europa Oriental.
A essa altura - quando identificar e desmontar memes era tão natural quanto focar a visão - acreditava em qualquer coisa. Tudo se resumia, então, a cercar as memórias de associações pouco prováveis, limitando ao acesso a elas, aos poucos substituindo-as pelas associações obscuras. Um processo lento, comparável à terapia de aversão - mas muito mais complicado que estabelecer uma relação entre o banho com vermes e a masturbação que um folheto mórmon sugerira certa vez.
Seu problema não era criar novas associações, mas apagá-las. Criar membranas surreais que o protegeriam de lidar com as memórias dela. Testou o método - criado ao mesmo tempo que implementado - apagando uma música de um desenho animado que vira na infância. Gravou um vídeo de si mesmo, escondeu em algum canto estranho da casa, programou a agenda para lembrá-lo num dia qualquer e começou a trabalhar.
Recebeu uma mensagem - enviada por amigo interessado - mencionando o tal episódio. E nada: não consegui recordar a música. Versos de Ginsberg iam às bocas das figuras toscamente animadas. Não acreditou direito no que estava acontecendo e só ao ver a fita, teve consciência de que havia conseguido.
Ela era grande demais na mente dele, muito espalhada por todas as suas memórias para que simples poemas isolados resolvessem a situação. Precisava de uma teia de significados tão grande e complexa quanto a que tentava substituir.
O problema foi resolvido quando encontrou, no meio de seus romance enciclopédicos, um que tratava de conspirações. Três amigos que inventavam todas as conspirações existentes, as relações entre elas, as farsas que as escondiam, os livros que as detalhavam. Desta vez, não anotaria nada, não programaria nenhum aviso para lembrá-lo do que seria esquecido quando terminasse o Método.
Não sabia mais quanto tempo havia passado. Só sabia da paranóia que permeava todas suas ações. Lembrava dos templários ao comprar comida congelada, de imagens maçônicas ao acordar com alguma mulher e sabia que aquelas imagens não faziam muito sentido.
Procurou a ajuda de um freudiano dos bons. Em seis meses lembrava-se dela como se nunca a tivesse esquecido.
Mas ainda sabia de cor o nome dos conspiradores.
(continua...)
em 03.09.03
Todas suas defesas se anulavam quando pensava nela como uma história. E essa era a única tentação a que nunca conseguia resistir. Afinal, forçar sentidos em palavras e eventos desconexos era a única coisa que sabia fazer. E a história com ela vinha tão pronta - tão história - que mal resistia ao desejo de saber o final.
Na verdade, ele podia prever o final sem muitos problemas. Mesmo quando ainda faltavam tantas providências e preparativos, já tinha plena consciência da última frase, anotada num e-mail antigo.
Era feita para ele. Ou alguém como ele. Não acreditava mais em individualidades absolutas depois dela. "Um memeplexo complementar pesquisado e construído para minha faixa de consumo." Raciocínio incômodo e recorrente, mas impossível de evitar. Idéias sobre narrativas se aplicavam tão perfeitamente à situação, cheia de estruturas e reviravoltas, que eram mais que auto-engano, que uma desculpa para poder se embrenhar mais nas lembranças dela. Como se precisasse.
As técnicas antimemes não pareciam funcionar contra ela. Podia desligar propagandas de refrigerante, ir aos shows da música pop mais pegajosa e sair sem lembrar um acorde, perceber com clareza as gírias emergentes ou o ponto de saturação de uma moda. Mas algo nela fazia com que as idéias persistissem.
Inicialmente atribuiu a persistência das memórias ao fato de já estarem fixadas. Os memes já estavam lá, instalados, contaminando outros pensamentos com seus tentáculos. Eram muito bem construídos e já estavam instalados em memórias demais e apagá-las era impossível. Como todas as outras que já estavam grudadas nele.
Acreditava que todas as memórias eram indeléveis. Ou uma parte significativa delas. Mesmo que tivesse esquecido as correspondências entre moedas, capitais e países, algumas coisas persistiam. Slogans publicitários, as musiquinhas que aprendeu na escola, a vergonha antiga ao acordar de um sonho esquecido. Coisas sedimentadas demais, que flutuavam à mente sem nenhuma razão discernível. Ouvira falar de pessoas que esqueciam acontecimentos antigos e importantes. Enterravam lembranças sob outras, cardumes no quarto em vez do tio nu, um processo natural. Mas que plenamente possível de ser disparado, se podia acreditar nas "memórias" dos abduzidos e em alguns arquivos que encontrou na Europa Oriental.
A essa altura - quando identificar e desmontar memes era tão natural quanto focar a visão - acreditava em qualquer coisa. Tudo se resumia, então, a cercar as memórias de associações pouco prováveis, limitando ao acesso a elas, aos poucos substituindo-as pelas associações obscuras. Um processo lento, comparável à terapia de aversão - mas muito mais complicado que estabelecer uma relação entre o banho com vermes e a masturbação que um folheto mórmon sugerira certa vez.
Seu problema não era criar novas associações, mas apagá-las. Criar membranas surreais que o protegeriam de lidar com as memórias dela. Testou o método - criado ao mesmo tempo que implementado - apagando uma música de um desenho animado que vira na infância. Gravou um vídeo de si mesmo, escondeu em algum canto estranho da casa, programou a agenda para lembrá-lo num dia qualquer e começou a trabalhar.
Recebeu uma mensagem - enviada por amigo interessado - mencionando o tal episódio. E nada: não consegui recordar a música. Versos de Ginsberg iam às bocas das figuras toscamente animadas. Não acreditou direito no que estava acontecendo e só ao ver a fita, teve consciência de que havia conseguido.
Ela era grande demais na mente dele, muito espalhada por todas as suas memórias para que simples poemas isolados resolvessem a situação. Precisava de uma teia de significados tão grande e complexa quanto a que tentava substituir.
O problema foi resolvido quando encontrou, no meio de seus romance enciclopédicos, um que tratava de conspirações. Três amigos que inventavam todas as conspirações existentes, as relações entre elas, as farsas que as escondiam, os livros que as detalhavam. Desta vez, não anotaria nada, não programaria nenhum aviso para lembrá-lo do que seria esquecido quando terminasse o Método.
Não sabia mais quanto tempo havia passado. Só sabia da paranóia que permeava todas suas ações. Lembrava dos templários ao comprar comida congelada, de imagens maçônicas ao acordar com alguma mulher e sabia que aquelas imagens não faziam muito sentido.
Procurou a ajuda de um freudiano dos bons. Em seis meses lembrava-se dela como se nunca a tivesse esquecido.
Mas ainda sabia de cor o nome dos conspiradores.
(continua...)
2.4.03
As Cidades e o Desejo 6
em 14.03.03
(Com meus respeitos a Calvino)
No meio de uma enorme planície permamentemente nevada, encontra-se *****. Ou uma parte de *****, um porto onde aqueles que conhecem a história da cidade esperam que a outra metade apareça no céu. Há muito tempo, a cidade era apenas sua parte flutuante - mantida por algum feitiço já esquecido - e um pequeno escritório em terra, onde os interessados pediam os vistos que garantiria-lhes sua visita.
Conforme os relatos das maravilhas da cidade - frutos revigorantes, tecidos mil vezes mais macios que a seda, ninfas sussurrantes e a mais bela das vistas - foram se espalhando, os burocratas foram afundados em pedidos. Os visitantes se viram forçados a esperar no campo gelado, em uma fila que podia durar meses. Com a espera, vieram comerciantes, estalagens, artistas, todo tipo de coisa que acabou por criar na cidade de baixo um festival permanente.
Muitos ainda vão à cidade, atraídos pelas banais histórias de uma terra em eterna festa. Alguns ainda se lembram da cidade flutuante, mas desistem de visitá-la antes mesmo de tentar. Uns poucos perseveram.
E para eles ***** guarda seus segredos.
em 14.03.03
(Com meus respeitos a Calvino)
No meio de uma enorme planície permamentemente nevada, encontra-se *****. Ou uma parte de *****, um porto onde aqueles que conhecem a história da cidade esperam que a outra metade apareça no céu. Há muito tempo, a cidade era apenas sua parte flutuante - mantida por algum feitiço já esquecido - e um pequeno escritório em terra, onde os interessados pediam os vistos que garantiria-lhes sua visita.
Conforme os relatos das maravilhas da cidade - frutos revigorantes, tecidos mil vezes mais macios que a seda, ninfas sussurrantes e a mais bela das vistas - foram se espalhando, os burocratas foram afundados em pedidos. Os visitantes se viram forçados a esperar no campo gelado, em uma fila que podia durar meses. Com a espera, vieram comerciantes, estalagens, artistas, todo tipo de coisa que acabou por criar na cidade de baixo um festival permanente.
Muitos ainda vão à cidade, atraídos pelas banais histórias de uma terra em eterna festa. Alguns ainda se lembram da cidade flutuante, mas desistem de visitá-la antes mesmo de tentar. Uns poucos perseveram.
E para eles ***** guarda seus segredos.
17.2.03
Diálogo Recursivo V: Impasses
em 17.02.03
- "Quero estar só com você". Foi isso que você disse, não foi?
- Foi. Mas tem muito tempo. Hoje as coisas são mais complexas que isso.
- Só que você nunca se desdisse. Eu pensava que ainda era assim.
- Ainda é.
- E por que você está com ela?
- Eu não estou. Estou com você. Ele foi só um acidente.
- Acidente... Não é você que não acredita em acidentes?
- ...
- E por que a mentira?
- Não é isso que você quer saber, é?
- É. Não. Você sabe o que eu quero saber.
- É só perguntar.
- Eu já perguntei. Você é que não respondeu. Por que você está com ela.
- Eu respondi. Eu não estou com ela, estou com você.
- Mas não está só comigo. Não mais.
- E não é isso que você sempre quis? Não é o que você me empurrava para fazer desde que nós começamos? Cada vez que conversamos, cada vez que acordamos juntos. A cada sábado que você tinha mais o que fazer e meus convites eram incômodos.
- Eu nunca quis que você tivesse outras pessoas. Só não queria me prender a ninguém.
- Você sempre quis que eu tivesse outras pessoas. Mas para mitigar suas culpas, para livrar suas noites, quando fosse conveniente. Só que agora é conveniente para mim.
- Nós devíamos terminar tudo agora.
- Deixe de ser idiota. Isso não vai resolver nada.
- O que me apaixonou em você foi sua segurança. A certeza de que você agüentaria tudo que eu fizesse, que sempre me perdoraria. Que me amaria apesar de tudo.
- Se foi isso, você passou seu tempo comigo enganada. Eu sempre disse que minha paciência tinha limite.
- Você ainda quer estar comigo?
- Eu ainda quero estar só com você.
- Então desista dela.
- Se você estiver disposta a parar de fugir de mim. Eu amo você, mas estou cansado das escolhas. Você é quem decide como as coisas vão ser.
- E se eu não quiser?
- Então tudo já está resolvido.
em 17.02.03
- "Quero estar só com você". Foi isso que você disse, não foi?
- Foi. Mas tem muito tempo. Hoje as coisas são mais complexas que isso.
- Só que você nunca se desdisse. Eu pensava que ainda era assim.
- Ainda é.
- E por que você está com ela?
- Eu não estou. Estou com você. Ele foi só um acidente.
- Acidente... Não é você que não acredita em acidentes?
- ...
- E por que a mentira?
- Não é isso que você quer saber, é?
- É. Não. Você sabe o que eu quero saber.
- É só perguntar.
- Eu já perguntei. Você é que não respondeu. Por que você está com ela.
- Eu respondi. Eu não estou com ela, estou com você.
- Mas não está só comigo. Não mais.
- E não é isso que você sempre quis? Não é o que você me empurrava para fazer desde que nós começamos? Cada vez que conversamos, cada vez que acordamos juntos. A cada sábado que você tinha mais o que fazer e meus convites eram incômodos.
- Eu nunca quis que você tivesse outras pessoas. Só não queria me prender a ninguém.
- Você sempre quis que eu tivesse outras pessoas. Mas para mitigar suas culpas, para livrar suas noites, quando fosse conveniente. Só que agora é conveniente para mim.
- Nós devíamos terminar tudo agora.
- Deixe de ser idiota. Isso não vai resolver nada.
- O que me apaixonou em você foi sua segurança. A certeza de que você agüentaria tudo que eu fizesse, que sempre me perdoraria. Que me amaria apesar de tudo.
- Se foi isso, você passou seu tempo comigo enganada. Eu sempre disse que minha paciência tinha limite.
- Você ainda quer estar comigo?
- Eu ainda quero estar só com você.
- Então desista dela.
- Se você estiver disposta a parar de fugir de mim. Eu amo você, mas estou cansado das escolhas. Você é quem decide como as coisas vão ser.
- E se eu não quiser?
- Então tudo já está resolvido.
9.2.03
Sonho II
em 09.02.03
O azul do mar - exatamente seu tom favorito - não é nada natural. E a água não costumava ir até ali, até a calçada, ou ser tão parada. Sentado ali, na beira da piscina que ultrapassa o horizonte, você percebe que há algo errado. Como se o mundo tivesse mudado de repente enquanto você não prestava atenção. Mesmo assim, o sol se pondo causa uma certa paz.
Um bebê ou uma criança se aproxima, falando algo que você não consegue entender, mas é muito importante. Se ela parasse de desaparecer quando você se concentra nela, seria muito mais fácil entender. Ela fita seus olhos com uma piedade que destrói você e pula na água. A criança afunda devagar até o fundo e é possível vê-la durante todo o percurso, apesar das águas escuras. Você percebe que a criança precisa de ajuda e mergulha atrás dela.
No fundo, há restos bem conservados de uma cidade vagamente grega, mas cheia das imagens da vida moderna. Se não fosse o peso diferente e uns cardumes aqui e ali, você nunca perceberia que está sob a água. Procurando pela criança, você encontra um amor antigo, chorando tranqüila - lágrimas distintas da água. Você se aproxima, limpa uma lágrima e pergunta se está tudo bem. Ela responde e você se beijam.
Você percebe que precisa respirar e a convida para ir com você. Ela diz que não pode, mas você deve ir assim mesmo. "Nos vemos depois", você ouve enquanto flutua numa velocidade absurda. O impulso é suficiente para jogá-lo metros acima da água, como os saltos dos golfinhos. Enquanto enche os pulmões, você enxerga o bebê, voando ao longe. Enquanto desce, você procura pela mulher que deixou no fundo. A água vai ficando cada vez mais escura, os pulmões vão ardendo e você não consegue encontrá-la.
em 09.02.03
O azul do mar - exatamente seu tom favorito - não é nada natural. E a água não costumava ir até ali, até a calçada, ou ser tão parada. Sentado ali, na beira da piscina que ultrapassa o horizonte, você percebe que há algo errado. Como se o mundo tivesse mudado de repente enquanto você não prestava atenção. Mesmo assim, o sol se pondo causa uma certa paz.
Um bebê ou uma criança se aproxima, falando algo que você não consegue entender, mas é muito importante. Se ela parasse de desaparecer quando você se concentra nela, seria muito mais fácil entender. Ela fita seus olhos com uma piedade que destrói você e pula na água. A criança afunda devagar até o fundo e é possível vê-la durante todo o percurso, apesar das águas escuras. Você percebe que a criança precisa de ajuda e mergulha atrás dela.
No fundo, há restos bem conservados de uma cidade vagamente grega, mas cheia das imagens da vida moderna. Se não fosse o peso diferente e uns cardumes aqui e ali, você nunca perceberia que está sob a água. Procurando pela criança, você encontra um amor antigo, chorando tranqüila - lágrimas distintas da água. Você se aproxima, limpa uma lágrima e pergunta se está tudo bem. Ela responde e você se beijam.
Você percebe que precisa respirar e a convida para ir com você. Ela diz que não pode, mas você deve ir assim mesmo. "Nos vemos depois", você ouve enquanto flutua numa velocidade absurda. O impulso é suficiente para jogá-lo metros acima da água, como os saltos dos golfinhos. Enquanto enche os pulmões, você enxerga o bebê, voando ao longe. Enquanto desce, você procura pela mulher que deixou no fundo. A água vai ficando cada vez mais escura, os pulmões vão ardendo e você não consegue encontrá-la.
2.1.03
Diálogo Recursivo IV: Clichês
em 02.01.03
- Não é você. Sou eu.
- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.
- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.
- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?
- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.
- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.
- Eu também vou sentir saudades de você.
- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.
- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.
- Eu ficaria menos chateado se tentasse.
- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.
- O nome disso é "seduzir".
- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.
- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.
- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.
- Como se me importasse sua vida e suas complicações.
- Como é?
- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.
- É. Os motivos para você desistir.
- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.
- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.
- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.
- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.
- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.
- Vamos ver.
- Você vai ver.
- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.
- Eu não vou desistir de você ainda.
- Só não vai adiantar.
- Então tá. Até.
- Ah, vem cá.
em 02.01.03
- Não é você. Sou eu.
- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.
- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.
- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?
- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.
- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.
- Eu também vou sentir saudades de você.
- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.
- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.
- Eu ficaria menos chateado se tentasse.
- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.
- O nome disso é "seduzir".
- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.
- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.
- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.
- Como se me importasse sua vida e suas complicações.
- Como é?
- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.
- É. Os motivos para você desistir.
- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.
- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.
- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.
- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.
- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.
- Vamos ver.
- Você vai ver.
- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.
- Eu não vou desistir de você ainda.
- Só não vai adiantar.
- Então tá. Até.
- Ah, vem cá.
17.12.02
Sonho I
em 17.12.02
A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.
Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.
Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.
Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.
Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.
Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.
em 17.12.02
A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.
Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.
Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.
Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.
Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.
Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.
9.12.02
Girls as a Memetica Infection V
em 09.11.02
Tudo se tornava ficção com ela por perto.
Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.
E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.
A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.
Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.
Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.
Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.
Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.
Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.
Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.
em 09.11.02
Tudo se tornava ficção com ela por perto.
Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.
E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.
A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.
Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.
Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.
Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.
Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.
Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.
Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.
2.12.02
Diálogo Recursivo III - Déjà Vu
em 02.12.02
- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?
- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.
- É?
- Não há mais nada que você não saiba.
- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.
- Seria óbvio, se prestasse atenção.
- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!
- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.
- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.
- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.
- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!
- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.
- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?
- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.
- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.
- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.
em 02.12.02
- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?
- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.
- É?
- Não há mais nada que você não saiba.
- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.
- Seria óbvio, se prestasse atenção.
- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!
- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.
- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.
- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.
- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!
- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.
- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?
- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.
- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.
- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.
15.11.02
Girls as a Memetic Infection IV
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
2.11.02
Escritores são um porre e falam uma língua bastante particular, mas às vezes é divertido escrever sobre eles. Reúni as três partes de Pulp Hack em um negócio que pretende ser impresso. Se você quer uma cópia, me escreva com seu endereço postal.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
29.10.02
Parábola III
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
28.9.02
25 Fatos Inventados - e Não-Contraditórios - Sobre Mim Mesmo
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
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