2.1.03

Diálogo Recursivo IV: Clichês
em 02.01.03

- Não é você. Sou eu.

- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.

- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.

- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?

- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.

- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.

- Eu também vou sentir saudades de você.

- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.

- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.

- Eu ficaria menos chateado se tentasse.

- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.

- O nome disso é "seduzir".

- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.

- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.

- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.

- Como se me importasse sua vida e suas complicações.

- Como é?

- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.

- É. Os motivos para você desistir.

- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.

- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.

- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.

- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.

- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.

- Vamos ver.

- Você vai ver.

- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.

- Eu não vou desistir de você ainda.

- Só não vai adiantar.

- Então tá. Até.

- Ah, vem cá.

17.12.02

Sonho I
em 17.12.02

A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.

Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.

Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.

Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.

Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.

Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.

9.12.02

Girls as a Memetica Infection V
em 09.11.02

Tudo se tornava ficção com ela por perto.

Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.

E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.

A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.

Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.

Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.

Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.

Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.

Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.

Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.

2.12.02

Diálogo Recursivo III - Déjà Vu
em 02.12.02

- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?

- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.

- É?

- Não há mais nada que você não saiba.

- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.

- Seria óbvio, se prestasse atenção.

- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!

- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.

- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.

- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.

- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!

- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.

- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?

- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.

- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.

- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.

15.11.02

Girls as a Memetic Infection IV
em 15.10.02

Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.

Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.

Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.

Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.

Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.

Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.

Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.

Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.

Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.

2.11.02

Escritores são um porre e falam uma língua bastante particular, mas às vezes é divertido escrever sobre eles. Reúni as três partes de Pulp Hack em um negócio que pretende ser impresso. Se você quer uma cópia, me escreva com seu endereço postal.

As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.

Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.

29.10.02

Parábola III
em 22.10.02

Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.

Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.

Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.

A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.

Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.

Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.

28.9.02

25 Fatos Inventados - e Não-Contraditórios - Sobre Mim Mesmo
Em 28.09.02

1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.

13.9.02

Diálogo Recursivo II - Delectatio Morosa
em 13.09.02

- Gostou?

- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.

- Ah! O filme é legal.

- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.

- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!

- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!

- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.

- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.

- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?

- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.

- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?

- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.

- O que você queria dizer, então?

- Que eu queria uma história simples.

- Como "simples"?

- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.

- Você ainda está falando do filme?

- Ah! Sei lá.

26.8.02

Girls as a Memetic Infection III
em 26.08.02

Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.

Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.

Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.

Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.

Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.

Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.

Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.

Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.

Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.

(continua)

7.8.02

Girls as a Memetic Infection II
em 07.08.02 - (com meus cumprimentos a Grant Morrison)

Achavam que era amor. Mas não passava de ficção científica. Não que se pudesse notar a diferença. Essa era a idéia desde os planos, quando foi pensada para ser uma musa.

A idéia de criá-la foi de um diretor num departamento literário de um desses complexos de entretenimento. Sua linha de trabalho não permitia que criasse uma única “estrela”. Mesmo com a mudança de foco cada vez mais acentuada dos escritos para o escritor, vender livros ainda não era a mesma coisa que vender um filme ou a mais nova banda de J-Pop. Ter a aparência e estar carregado dos memes corretos não adianta muita coisa quando a maior parte do trabalho é feita num quarto fechado.

As técnicas do engenheiros meméticos eram muito eficientes em criar hype, mas não funcionavam muito bem para escrever livros. Individualmente, cada uma das idéias circulava bastante. Só que a história não funcionava e isso era tão perceptível que os memes nem chegam a se multiplicar. Pior ainda: eles ganhavam – como são criados para fazer – vida própria e deixavam o livro para trás.
O tal diretor percebeu o que eles precisavam: um meme que atraísse escritores.

Na verdade, um único meme não iria funcionar. Depois dos cursos de escrita de ficção, normalmente vinculados aos de crítica literária, qualquer escritor que juntasse três sentenças direitinho era capaz de desmontar um único meme em segundos. Além disso, técnicas de defesa memética começaram a se tornar corriqueiras justamente entre o perfil de consumo dos escritores.

A solução para o problema era clássica: o Cavalo de Tróia. Os memes viriam embalados em algo indispensável. Nem foi preciso pesquisa de mercado para decidir qual seria o veículo.

Claro, as primeiras meninas levariam anos para ficar prontas – no mínimo uns 15, com tratamentos hormonais e tudo. Mas, se as coisas dessem certo, elas seriam as máquinas perfeitas para identificar escritores e poetas. Além, de um jeito ou outro, garantir suas fidelidades aos seus editores.

Em retrospecto, tudo foi muito mais simples do que deveria ter sido. Não foi mais complicado criar as dez meninas do que seria criar qualquer outro grupo de crianças. O isolamento relativo no qual elas cresceram ajudou, do mesmo modo que as técnicas roubadas do exército, e a seleção dos embriões com as características desejáveis evitou revoltas ou tentativas de fuga. Afinal, elas não sabiam muito bem o que era planejado para elas.

Neurolinguística. Técnicas de meditação. Etiqueta corporativa. Mensagens subliminares. Tantra. Semiótica. Modulação de voz. Dança. A dose certa de musculação. Os cuidados com a pele. As experiências certas nas ruas. As memórias implantadas de estupros e paixões não correspondidas. As doses certas de Sol. Futilidade planejada. A quantidade exata de atenção e indiferença...

Milhares de anos de pesquisa. Milhões de dólares em tecnologia. Tudo para criar uma tropa de meninas fofas.

Os coitados não tiveram nenhuma chance.

(continua)

5.8.02

Fragmento a ser encaixado em algum lugar
em 05.08.02

O problema em transformar biografia em ficção é que a realidade é muito mais recursiva que qualquer história. Cedo ou tarde, o autor se vê novamente em algo escrito por ele e, em lugar de viver o momento, pensa em revisar os escritos.

31.7.02

A Verdadeira Origem da Internet
em 31.07.02

Um dia um general se fez a seguinte pergunta:
-Se tiver uma guerra nuclear, vamos ficar presos aqui sem mulher. Não passará muito tempo e nossa pornografia estratégica será totalmente consumida pelo uso. Como podemos resolver esse problema?

O resto vocês já sabem.

19.7.02

Girls as a Memetic Infection I
em 26.06.02

“Você tem que esquecer essa mulher.”

Já estava cansado de ouvir a frase. Amigos, pais, conhecidos e amigas disponíveis e dispostas não cansavam de repetir o que ele já sabia. Mas não era só a repetição que incomodava. O fato é que esquecer a tal mulher não era nada simples.

Não era culpa dele, do seu comportamento obsessivo e muito menos de paixão. Era uma constatação simples e óbvia a respeito dela e do efeito que ela fora planejada para causar naquela fatia do mercado na qual ele se encaixava. Mais que uma pessoa, ela era um meme.

Chamá-la de meme era a maneira preferida dele falar sobre quem tirava seu sono por esses dias. Principalmente pela economia: grande parte do seu círculo já estava familiarizado com o termo e suas implicações. Cerca de metade das pessoas que diziam para ele sair, ver um filme, ficar com outra – enfim, pensar em outra coisa – balançavam a cabeça para o que acreditavam ser uma desculpa esfarrapada. Uns poucos, que acreditavam e não se interessavam por esses assuntos, misturavam pena à reprovação.

Outros – principalmente seus pais – debochavam da idéia. Perguntavam seguidamente o que é esse negócio de – “como é mesmo, meu filho?” – meme, preferencialmente naquelas reuniões familiares chatas a que era obrigado a comparecer. O chacoalhar de cabeças após as explicações era o mesmo, quase sempre seguido de algum comentário sobre como esses jovens ficam inventando nome novo para tudo.

Os poucos que sobravam eram seus preferidos. Eram aqueles que entendiam dessas coisas e faziam a pergunta que ele se coçava para ouvir: “como assim?”. Mesmo com a repulsa profunda que sentia por si mesmo ao se transformar num marionete das idéias que a construíram, era um prazer imenso falar sobre ela. Os participantes ligavam suas semióticas, estéticas, psicologias e teorias da percepção, enquanto em algum lugar um engenheiro memético gritava bingo.

Mesmo longe ela continuava se espalhando. Era uma obra-prima.

(continua)