Girls as a Memetic Infection IV
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
15.11.02
2.11.02
Escritores são um porre e falam uma língua bastante particular, mas às vezes é divertido escrever sobre eles. Reúni as três partes de Pulp Hack em um negócio que pretende ser impresso. Se você quer uma cópia, me escreva com seu endereço postal.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
29.10.02
Parábola III
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
28.9.02
25 Fatos Inventados - e Não-Contraditórios - Sobre Mim Mesmo
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
19.9.02
13.9.02
Diálogo Recursivo II - Delectatio Morosa
em 13.09.02
- Gostou?
- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.
- Ah! O filme é legal.
- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.
- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!
- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!
- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.
- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.
- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?
- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.
- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?
- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.
- O que você queria dizer, então?
- Que eu queria uma história simples.
- Como "simples"?
- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.
- Você ainda está falando do filme?
- Ah! Sei lá.
em 13.09.02
- Gostou?
- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.
- Ah! O filme é legal.
- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.
- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!
- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!
- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.
- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.
- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?
- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.
- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?
- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.
- O que você queria dizer, então?
- Que eu queria uma história simples.
- Como "simples"?
- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.
- Você ainda está falando do filme?
- Ah! Sei lá.
5.9.02
26.8.02
Girls as a Memetic Infection III
em 26.08.02
Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.
Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.
Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.
Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.
Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.
Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.
Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.
Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.
Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.
(continua)
em 26.08.02
Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.
Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.
Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.
Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.
Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.
Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.
Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.
Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.
Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.
(continua)
19.8.02
7.8.02
Girls as a Memetic Infection II
em 07.08.02 - (com meus cumprimentos a Grant Morrison)
Achavam que era amor. Mas não passava de ficção científica. Não que se pudesse notar a diferença. Essa era a idéia desde os planos, quando foi pensada para ser uma musa.
A idéia de criá-la foi de um diretor num departamento literário de um desses complexos de entretenimento. Sua linha de trabalho não permitia que criasse uma única “estrela”. Mesmo com a mudança de foco cada vez mais acentuada dos escritos para o escritor, vender livros ainda não era a mesma coisa que vender um filme ou a mais nova banda de J-Pop. Ter a aparência e estar carregado dos memes corretos não adianta muita coisa quando a maior parte do trabalho é feita num quarto fechado.
As técnicas do engenheiros meméticos eram muito eficientes em criar hype, mas não funcionavam muito bem para escrever livros. Individualmente, cada uma das idéias circulava bastante. Só que a história não funcionava e isso era tão perceptível que os memes nem chegam a se multiplicar. Pior ainda: eles ganhavam – como são criados para fazer – vida própria e deixavam o livro para trás.
O tal diretor percebeu o que eles precisavam: um meme que atraísse escritores.
Na verdade, um único meme não iria funcionar. Depois dos cursos de escrita de ficção, normalmente vinculados aos de crítica literária, qualquer escritor que juntasse três sentenças direitinho era capaz de desmontar um único meme em segundos. Além disso, técnicas de defesa memética começaram a se tornar corriqueiras justamente entre o perfil de consumo dos escritores.
A solução para o problema era clássica: o Cavalo de Tróia. Os memes viriam embalados em algo indispensável. Nem foi preciso pesquisa de mercado para decidir qual seria o veículo.
Claro, as primeiras meninas levariam anos para ficar prontas – no mínimo uns 15, com tratamentos hormonais e tudo. Mas, se as coisas dessem certo, elas seriam as máquinas perfeitas para identificar escritores e poetas. Além, de um jeito ou outro, garantir suas fidelidades aos seus editores.
Em retrospecto, tudo foi muito mais simples do que deveria ter sido. Não foi mais complicado criar as dez meninas do que seria criar qualquer outro grupo de crianças. O isolamento relativo no qual elas cresceram ajudou, do mesmo modo que as técnicas roubadas do exército, e a seleção dos embriões com as características desejáveis evitou revoltas ou tentativas de fuga. Afinal, elas não sabiam muito bem o que era planejado para elas.
Neurolinguística. Técnicas de meditação. Etiqueta corporativa. Mensagens subliminares. Tantra. Semiótica. Modulação de voz. Dança. A dose certa de musculação. Os cuidados com a pele. As experiências certas nas ruas. As memórias implantadas de estupros e paixões não correspondidas. As doses certas de Sol. Futilidade planejada. A quantidade exata de atenção e indiferença...
Milhares de anos de pesquisa. Milhões de dólares em tecnologia. Tudo para criar uma tropa de meninas fofas.
Os coitados não tiveram nenhuma chance.
(continua)
em 07.08.02 - (com meus cumprimentos a Grant Morrison)
Achavam que era amor. Mas não passava de ficção científica. Não que se pudesse notar a diferença. Essa era a idéia desde os planos, quando foi pensada para ser uma musa.
A idéia de criá-la foi de um diretor num departamento literário de um desses complexos de entretenimento. Sua linha de trabalho não permitia que criasse uma única “estrela”. Mesmo com a mudança de foco cada vez mais acentuada dos escritos para o escritor, vender livros ainda não era a mesma coisa que vender um filme ou a mais nova banda de J-Pop. Ter a aparência e estar carregado dos memes corretos não adianta muita coisa quando a maior parte do trabalho é feita num quarto fechado.
As técnicas do engenheiros meméticos eram muito eficientes em criar hype, mas não funcionavam muito bem para escrever livros. Individualmente, cada uma das idéias circulava bastante. Só que a história não funcionava e isso era tão perceptível que os memes nem chegam a se multiplicar. Pior ainda: eles ganhavam – como são criados para fazer – vida própria e deixavam o livro para trás.
O tal diretor percebeu o que eles precisavam: um meme que atraísse escritores.
Na verdade, um único meme não iria funcionar. Depois dos cursos de escrita de ficção, normalmente vinculados aos de crítica literária, qualquer escritor que juntasse três sentenças direitinho era capaz de desmontar um único meme em segundos. Além disso, técnicas de defesa memética começaram a se tornar corriqueiras justamente entre o perfil de consumo dos escritores.
A solução para o problema era clássica: o Cavalo de Tróia. Os memes viriam embalados em algo indispensável. Nem foi preciso pesquisa de mercado para decidir qual seria o veículo.
Claro, as primeiras meninas levariam anos para ficar prontas – no mínimo uns 15, com tratamentos hormonais e tudo. Mas, se as coisas dessem certo, elas seriam as máquinas perfeitas para identificar escritores e poetas. Além, de um jeito ou outro, garantir suas fidelidades aos seus editores.
Em retrospecto, tudo foi muito mais simples do que deveria ter sido. Não foi mais complicado criar as dez meninas do que seria criar qualquer outro grupo de crianças. O isolamento relativo no qual elas cresceram ajudou, do mesmo modo que as técnicas roubadas do exército, e a seleção dos embriões com as características desejáveis evitou revoltas ou tentativas de fuga. Afinal, elas não sabiam muito bem o que era planejado para elas.
Neurolinguística. Técnicas de meditação. Etiqueta corporativa. Mensagens subliminares. Tantra. Semiótica. Modulação de voz. Dança. A dose certa de musculação. Os cuidados com a pele. As experiências certas nas ruas. As memórias implantadas de estupros e paixões não correspondidas. As doses certas de Sol. Futilidade planejada. A quantidade exata de atenção e indiferença...
Milhares de anos de pesquisa. Milhões de dólares em tecnologia. Tudo para criar uma tropa de meninas fofas.
Os coitados não tiveram nenhuma chance.
(continua)
5.8.02
Fragmento a ser encaixado em algum lugar
em 05.08.02
O problema em transformar biografia em ficção é que a realidade é muito mais recursiva que qualquer história. Cedo ou tarde, o autor se vê novamente em algo escrito por ele e, em lugar de viver o momento, pensa em revisar os escritos.
em 05.08.02
O problema em transformar biografia em ficção é que a realidade é muito mais recursiva que qualquer história. Cedo ou tarde, o autor se vê novamente em algo escrito por ele e, em lugar de viver o momento, pensa em revisar os escritos.
31.7.02
A Verdadeira Origem da Internet
em 31.07.02
Um dia um general se fez a seguinte pergunta:
-Se tiver uma guerra nuclear, vamos ficar presos aqui sem mulher. Não passará muito tempo e nossa pornografia estratégica será totalmente consumida pelo uso. Como podemos resolver esse problema?
O resto vocês já sabem.
em 31.07.02
Um dia um general se fez a seguinte pergunta:
-Se tiver uma guerra nuclear, vamos ficar presos aqui sem mulher. Não passará muito tempo e nossa pornografia estratégica será totalmente consumida pelo uso. Como podemos resolver esse problema?
O resto vocês já sabem.
19.7.02
Girls as a Memetic Infection I
em 26.06.02
“Você tem que esquecer essa mulher.”
Já estava cansado de ouvir a frase. Amigos, pais, conhecidos e amigas disponíveis e dispostas não cansavam de repetir o que ele já sabia. Mas não era só a repetição que incomodava. O fato é que esquecer a tal mulher não era nada simples.
Não era culpa dele, do seu comportamento obsessivo e muito menos de paixão. Era uma constatação simples e óbvia a respeito dela e do efeito que ela fora planejada para causar naquela fatia do mercado na qual ele se encaixava. Mais que uma pessoa, ela era um meme.
Chamá-la de meme era a maneira preferida dele falar sobre quem tirava seu sono por esses dias. Principalmente pela economia: grande parte do seu círculo já estava familiarizado com o termo e suas implicações. Cerca de metade das pessoas que diziam para ele sair, ver um filme, ficar com outra – enfim, pensar em outra coisa – balançavam a cabeça para o que acreditavam ser uma desculpa esfarrapada. Uns poucos, que acreditavam e não se interessavam por esses assuntos, misturavam pena à reprovação.
Outros – principalmente seus pais – debochavam da idéia. Perguntavam seguidamente o que é esse negócio de – “como é mesmo, meu filho?” – meme, preferencialmente naquelas reuniões familiares chatas a que era obrigado a comparecer. O chacoalhar de cabeças após as explicações era o mesmo, quase sempre seguido de algum comentário sobre como esses jovens ficam inventando nome novo para tudo.
Os poucos que sobravam eram seus preferidos. Eram aqueles que entendiam dessas coisas e faziam a pergunta que ele se coçava para ouvir: “como assim?”. Mesmo com a repulsa profunda que sentia por si mesmo ao se transformar num marionete das idéias que a construíram, era um prazer imenso falar sobre ela. Os participantes ligavam suas semióticas, estéticas, psicologias e teorias da percepção, enquanto em algum lugar um engenheiro memético gritava bingo.
Mesmo longe ela continuava se espalhando. Era uma obra-prima.
(continua)
em 26.06.02
“Você tem que esquecer essa mulher.”
Já estava cansado de ouvir a frase. Amigos, pais, conhecidos e amigas disponíveis e dispostas não cansavam de repetir o que ele já sabia. Mas não era só a repetição que incomodava. O fato é que esquecer a tal mulher não era nada simples.
Não era culpa dele, do seu comportamento obsessivo e muito menos de paixão. Era uma constatação simples e óbvia a respeito dela e do efeito que ela fora planejada para causar naquela fatia do mercado na qual ele se encaixava. Mais que uma pessoa, ela era um meme.
Chamá-la de meme era a maneira preferida dele falar sobre quem tirava seu sono por esses dias. Principalmente pela economia: grande parte do seu círculo já estava familiarizado com o termo e suas implicações. Cerca de metade das pessoas que diziam para ele sair, ver um filme, ficar com outra – enfim, pensar em outra coisa – balançavam a cabeça para o que acreditavam ser uma desculpa esfarrapada. Uns poucos, que acreditavam e não se interessavam por esses assuntos, misturavam pena à reprovação.
Outros – principalmente seus pais – debochavam da idéia. Perguntavam seguidamente o que é esse negócio de – “como é mesmo, meu filho?” – meme, preferencialmente naquelas reuniões familiares chatas a que era obrigado a comparecer. O chacoalhar de cabeças após as explicações era o mesmo, quase sempre seguido de algum comentário sobre como esses jovens ficam inventando nome novo para tudo.
Os poucos que sobravam eram seus preferidos. Eram aqueles que entendiam dessas coisas e faziam a pergunta que ele se coçava para ouvir: “como assim?”. Mesmo com a repulsa profunda que sentia por si mesmo ao se transformar num marionete das idéias que a construíram, era um prazer imenso falar sobre ela. Os participantes ligavam suas semióticas, estéticas, psicologias e teorias da percepção, enquanto em algum lugar um engenheiro memético gritava bingo.
Mesmo longe ela continuava se espalhando. Era uma obra-prima.
(continua)
Diálogo Recursivo I
em 19.07.02, com desculpas a todos os envolvidos
- Nem tudo é biografia, sabia?
- Como se nada fosse...
- Muito pouco é. E nunca é a melhor parte. As coisas interessantes são interessantes de serem vividas, não necessariamente narradas. Soam clichê, remix, dèjá vu...
- Você não fala de outra coisa a não ser de nós. Mesmo quando não fala de nós, está falando. Está lá: mas elipses, na frase quase dita.
- Eu não falo de nada além de mim. Você é ocasional. E você deveria me conhecer melhor. Você sabe o que está acontecendo. Sempre sabe. Ou eu pelo menos espero que saiba. Sou muito claro e óbvio para você. Ou me sinto assim, pelo menos.
- Há muito tempo você não é claro para mim. Queria que ainda fosse.
- Eu não. Detesto a sensação de estar em suas mãos. Queria que você ainda entendesse, mas gosto de sua incerteza. Da simetria.
- É difícil não ler aquilo que você escreve como biografia. É estranho aceitar que as histórias vêm do nada.
- Não vêm do nada. Vêm de outras histórias, de idéias que circulam, das frases que ouvi.
- E por que todas elas se parecem? Por que todas me dizem algo sobre você?
- Porque eu escrevo sobre mim, de uma ou outra forma. Biografia é a menor das preocupações. Você já devia saber que o importante é o imaginário, não os correlativos objetivos. Os eventos que aconteceram ou deixaram de acontecer são só circunstanciais.
- E como vou saber quando são só idéias ou ser algo realmente aconteceu?
- Basta perguntar.
- Isto aqui aconteceu?
- Mais ou menos. Quem se importa? Agora é ficção. Nem eu, nem você, nem ninguém participou desta conversa.
em 19.07.02, com desculpas a todos os envolvidos
- Nem tudo é biografia, sabia?
- Como se nada fosse...
- Muito pouco é. E nunca é a melhor parte. As coisas interessantes são interessantes de serem vividas, não necessariamente narradas. Soam clichê, remix, dèjá vu...
- Você não fala de outra coisa a não ser de nós. Mesmo quando não fala de nós, está falando. Está lá: mas elipses, na frase quase dita.
- Eu não falo de nada além de mim. Você é ocasional. E você deveria me conhecer melhor. Você sabe o que está acontecendo. Sempre sabe. Ou eu pelo menos espero que saiba. Sou muito claro e óbvio para você. Ou me sinto assim, pelo menos.
- Há muito tempo você não é claro para mim. Queria que ainda fosse.
- Eu não. Detesto a sensação de estar em suas mãos. Queria que você ainda entendesse, mas gosto de sua incerteza. Da simetria.
- É difícil não ler aquilo que você escreve como biografia. É estranho aceitar que as histórias vêm do nada.
- Não vêm do nada. Vêm de outras histórias, de idéias que circulam, das frases que ouvi.
- E por que todas elas se parecem? Por que todas me dizem algo sobre você?
- Porque eu escrevo sobre mim, de uma ou outra forma. Biografia é a menor das preocupações. Você já devia saber que o importante é o imaginário, não os correlativos objetivos. Os eventos que aconteceram ou deixaram de acontecer são só circunstanciais.
- E como vou saber quando são só idéias ou ser algo realmente aconteceu?
- Basta perguntar.
- Isto aqui aconteceu?
- Mais ou menos. Quem se importa? Agora é ficção. Nem eu, nem você, nem ninguém participou desta conversa.
Álcool
em 23.10.01
Era o momento de decidir como enfrentaria a crise que se apresentava. Uma crise menor - já havia passado por outras bem mais graves antes e sabia disso -, mas uma crise de qualquer modo. E era ali, na frente da cristaleira cheia de bebidas que tinha que decidir como lidaria com os eventos recentes. Uísque ou vinho?
A decisão mais importante já havia sido tomada. Na verdade, nem era uma decisão. Era mais um hábito: se embebedar era quase uma obrigação após cada decepção amorosa. A questão era que tipo de bebida tomar. Isso determinava todo o resto.
A avaliação era feita a partir de uma série de variáveis mais ou menos objetivas que incluíam desde o estoque de bebidas no bar até o que realmente acreditava que sentia pela decepção em questão.
Para o caso em questão, inicialmente, pensou em beber martinis - que queriam dizer que ele ligaria para um daqueles interesses recorrentes e em recorrentes suspensões, procurando se consolar e fazendo de conta que as semanas anteriores não importavam nada. A trilha sonora seria cool jazz. Desistiu ao perceber que a vodka na garrafa não daria para mais que um drink e teria que mudar tudo - sentimentos, músicas e roupas - ou sair para comprar mais. Ambas as idéias pareciam igualmente repugnantes.
As escolhas, então se reduziam a duas: Uísque ou vinho?
em 23.10.01
Era o momento de decidir como enfrentaria a crise que se apresentava. Uma crise menor - já havia passado por outras bem mais graves antes e sabia disso -, mas uma crise de qualquer modo. E era ali, na frente da cristaleira cheia de bebidas que tinha que decidir como lidaria com os eventos recentes. Uísque ou vinho?
A decisão mais importante já havia sido tomada. Na verdade, nem era uma decisão. Era mais um hábito: se embebedar era quase uma obrigação após cada decepção amorosa. A questão era que tipo de bebida tomar. Isso determinava todo o resto.
A avaliação era feita a partir de uma série de variáveis mais ou menos objetivas que incluíam desde o estoque de bebidas no bar até o que realmente acreditava que sentia pela decepção em questão.
Para o caso em questão, inicialmente, pensou em beber martinis - que queriam dizer que ele ligaria para um daqueles interesses recorrentes e em recorrentes suspensões, procurando se consolar e fazendo de conta que as semanas anteriores não importavam nada. A trilha sonora seria cool jazz. Desistiu ao perceber que a vodka na garrafa não daria para mais que um drink e teria que mudar tudo - sentimentos, músicas e roupas - ou sair para comprar mais. Ambas as idéias pareciam igualmente repugnantes.
As escolhas, então se reduziam a duas: Uísque ou vinho?
13.7.02
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