21.9.03
Houve uma época em que eu colocava meus experimentos com fotografia e photoshops aqui. Atualmente, eles estão Aoristo.Fotolog. Por esses dias, imagens tiradas com uma câmera digital sem nenhum visor funcional.
4.9.03
Girls as a Memetic Infection VI
em 03.09.03
Todas suas defesas se anulavam quando pensava nela como uma história. E essa era a única tentação a que nunca conseguia resistir. Afinal, forçar sentidos em palavras e eventos desconexos era a única coisa que sabia fazer. E a história com ela vinha tão pronta - tão história - que mal resistia ao desejo de saber o final.
Na verdade, ele podia prever o final sem muitos problemas. Mesmo quando ainda faltavam tantas providências e preparativos, já tinha plena consciência da última frase, anotada num e-mail antigo.
Era feita para ele. Ou alguém como ele. Não acreditava mais em individualidades absolutas depois dela. "Um memeplexo complementar pesquisado e construído para minha faixa de consumo." Raciocínio incômodo e recorrente, mas impossível de evitar. Idéias sobre narrativas se aplicavam tão perfeitamente à situação, cheia de estruturas e reviravoltas, que eram mais que auto-engano, que uma desculpa para poder se embrenhar mais nas lembranças dela. Como se precisasse.
As técnicas antimemes não pareciam funcionar contra ela. Podia desligar propagandas de refrigerante, ir aos shows da música pop mais pegajosa e sair sem lembrar um acorde, perceber com clareza as gírias emergentes ou o ponto de saturação de uma moda. Mas algo nela fazia com que as idéias persistissem.
Inicialmente atribuiu a persistência das memórias ao fato de já estarem fixadas. Os memes já estavam lá, instalados, contaminando outros pensamentos com seus tentáculos. Eram muito bem construídos e já estavam instalados em memórias demais e apagá-las era impossível. Como todas as outras que já estavam grudadas nele.
Acreditava que todas as memórias eram indeléveis. Ou uma parte significativa delas. Mesmo que tivesse esquecido as correspondências entre moedas, capitais e países, algumas coisas persistiam. Slogans publicitários, as musiquinhas que aprendeu na escola, a vergonha antiga ao acordar de um sonho esquecido. Coisas sedimentadas demais, que flutuavam à mente sem nenhuma razão discernível. Ouvira falar de pessoas que esqueciam acontecimentos antigos e importantes. Enterravam lembranças sob outras, cardumes no quarto em vez do tio nu, um processo natural. Mas que plenamente possível de ser disparado, se podia acreditar nas "memórias" dos abduzidos e em alguns arquivos que encontrou na Europa Oriental.
A essa altura - quando identificar e desmontar memes era tão natural quanto focar a visão - acreditava em qualquer coisa. Tudo se resumia, então, a cercar as memórias de associações pouco prováveis, limitando ao acesso a elas, aos poucos substituindo-as pelas associações obscuras. Um processo lento, comparável à terapia de aversão - mas muito mais complicado que estabelecer uma relação entre o banho com vermes e a masturbação que um folheto mórmon sugerira certa vez.
Seu problema não era criar novas associações, mas apagá-las. Criar membranas surreais que o protegeriam de lidar com as memórias dela. Testou o método - criado ao mesmo tempo que implementado - apagando uma música de um desenho animado que vira na infância. Gravou um vídeo de si mesmo, escondeu em algum canto estranho da casa, programou a agenda para lembrá-lo num dia qualquer e começou a trabalhar.
Recebeu uma mensagem - enviada por amigo interessado - mencionando o tal episódio. E nada: não consegui recordar a música. Versos de Ginsberg iam às bocas das figuras toscamente animadas. Não acreditou direito no que estava acontecendo e só ao ver a fita, teve consciência de que havia conseguido.
Ela era grande demais na mente dele, muito espalhada por todas as suas memórias para que simples poemas isolados resolvessem a situação. Precisava de uma teia de significados tão grande e complexa quanto a que tentava substituir.
O problema foi resolvido quando encontrou, no meio de seus romance enciclopédicos, um que tratava de conspirações. Três amigos que inventavam todas as conspirações existentes, as relações entre elas, as farsas que as escondiam, os livros que as detalhavam. Desta vez, não anotaria nada, não programaria nenhum aviso para lembrá-lo do que seria esquecido quando terminasse o Método.
Não sabia mais quanto tempo havia passado. Só sabia da paranóia que permeava todas suas ações. Lembrava dos templários ao comprar comida congelada, de imagens maçônicas ao acordar com alguma mulher e sabia que aquelas imagens não faziam muito sentido.
Procurou a ajuda de um freudiano dos bons. Em seis meses lembrava-se dela como se nunca a tivesse esquecido.
Mas ainda sabia de cor o nome dos conspiradores.
(continua...)
em 03.09.03
Todas suas defesas se anulavam quando pensava nela como uma história. E essa era a única tentação a que nunca conseguia resistir. Afinal, forçar sentidos em palavras e eventos desconexos era a única coisa que sabia fazer. E a história com ela vinha tão pronta - tão história - que mal resistia ao desejo de saber o final.
Na verdade, ele podia prever o final sem muitos problemas. Mesmo quando ainda faltavam tantas providências e preparativos, já tinha plena consciência da última frase, anotada num e-mail antigo.
Era feita para ele. Ou alguém como ele. Não acreditava mais em individualidades absolutas depois dela. "Um memeplexo complementar pesquisado e construído para minha faixa de consumo." Raciocínio incômodo e recorrente, mas impossível de evitar. Idéias sobre narrativas se aplicavam tão perfeitamente à situação, cheia de estruturas e reviravoltas, que eram mais que auto-engano, que uma desculpa para poder se embrenhar mais nas lembranças dela. Como se precisasse.
As técnicas antimemes não pareciam funcionar contra ela. Podia desligar propagandas de refrigerante, ir aos shows da música pop mais pegajosa e sair sem lembrar um acorde, perceber com clareza as gírias emergentes ou o ponto de saturação de uma moda. Mas algo nela fazia com que as idéias persistissem.
Inicialmente atribuiu a persistência das memórias ao fato de já estarem fixadas. Os memes já estavam lá, instalados, contaminando outros pensamentos com seus tentáculos. Eram muito bem construídos e já estavam instalados em memórias demais e apagá-las era impossível. Como todas as outras que já estavam grudadas nele.
Acreditava que todas as memórias eram indeléveis. Ou uma parte significativa delas. Mesmo que tivesse esquecido as correspondências entre moedas, capitais e países, algumas coisas persistiam. Slogans publicitários, as musiquinhas que aprendeu na escola, a vergonha antiga ao acordar de um sonho esquecido. Coisas sedimentadas demais, que flutuavam à mente sem nenhuma razão discernível. Ouvira falar de pessoas que esqueciam acontecimentos antigos e importantes. Enterravam lembranças sob outras, cardumes no quarto em vez do tio nu, um processo natural. Mas que plenamente possível de ser disparado, se podia acreditar nas "memórias" dos abduzidos e em alguns arquivos que encontrou na Europa Oriental.
A essa altura - quando identificar e desmontar memes era tão natural quanto focar a visão - acreditava em qualquer coisa. Tudo se resumia, então, a cercar as memórias de associações pouco prováveis, limitando ao acesso a elas, aos poucos substituindo-as pelas associações obscuras. Um processo lento, comparável à terapia de aversão - mas muito mais complicado que estabelecer uma relação entre o banho com vermes e a masturbação que um folheto mórmon sugerira certa vez.
Seu problema não era criar novas associações, mas apagá-las. Criar membranas surreais que o protegeriam de lidar com as memórias dela. Testou o método - criado ao mesmo tempo que implementado - apagando uma música de um desenho animado que vira na infância. Gravou um vídeo de si mesmo, escondeu em algum canto estranho da casa, programou a agenda para lembrá-lo num dia qualquer e começou a trabalhar.
Recebeu uma mensagem - enviada por amigo interessado - mencionando o tal episódio. E nada: não consegui recordar a música. Versos de Ginsberg iam às bocas das figuras toscamente animadas. Não acreditou direito no que estava acontecendo e só ao ver a fita, teve consciência de que havia conseguido.
Ela era grande demais na mente dele, muito espalhada por todas as suas memórias para que simples poemas isolados resolvessem a situação. Precisava de uma teia de significados tão grande e complexa quanto a que tentava substituir.
O problema foi resolvido quando encontrou, no meio de seus romance enciclopédicos, um que tratava de conspirações. Três amigos que inventavam todas as conspirações existentes, as relações entre elas, as farsas que as escondiam, os livros que as detalhavam. Desta vez, não anotaria nada, não programaria nenhum aviso para lembrá-lo do que seria esquecido quando terminasse o Método.
Não sabia mais quanto tempo havia passado. Só sabia da paranóia que permeava todas suas ações. Lembrava dos templários ao comprar comida congelada, de imagens maçônicas ao acordar com alguma mulher e sabia que aquelas imagens não faziam muito sentido.
Procurou a ajuda de um freudiano dos bons. Em seis meses lembrava-se dela como se nunca a tivesse esquecido.
Mas ainda sabia de cor o nome dos conspiradores.
(continua...)
2.4.03
As Cidades e o Desejo 6
em 14.03.03
(Com meus respeitos a Calvino)
No meio de uma enorme planície permamentemente nevada, encontra-se *****. Ou uma parte de *****, um porto onde aqueles que conhecem a história da cidade esperam que a outra metade apareça no céu. Há muito tempo, a cidade era apenas sua parte flutuante - mantida por algum feitiço já esquecido - e um pequeno escritório em terra, onde os interessados pediam os vistos que garantiria-lhes sua visita.
Conforme os relatos das maravilhas da cidade - frutos revigorantes, tecidos mil vezes mais macios que a seda, ninfas sussurrantes e a mais bela das vistas - foram se espalhando, os burocratas foram afundados em pedidos. Os visitantes se viram forçados a esperar no campo gelado, em uma fila que podia durar meses. Com a espera, vieram comerciantes, estalagens, artistas, todo tipo de coisa que acabou por criar na cidade de baixo um festival permanente.
Muitos ainda vão à cidade, atraídos pelas banais histórias de uma terra em eterna festa. Alguns ainda se lembram da cidade flutuante, mas desistem de visitá-la antes mesmo de tentar. Uns poucos perseveram.
E para eles ***** guarda seus segredos.
em 14.03.03
(Com meus respeitos a Calvino)
No meio de uma enorme planície permamentemente nevada, encontra-se *****. Ou uma parte de *****, um porto onde aqueles que conhecem a história da cidade esperam que a outra metade apareça no céu. Há muito tempo, a cidade era apenas sua parte flutuante - mantida por algum feitiço já esquecido - e um pequeno escritório em terra, onde os interessados pediam os vistos que garantiria-lhes sua visita.
Conforme os relatos das maravilhas da cidade - frutos revigorantes, tecidos mil vezes mais macios que a seda, ninfas sussurrantes e a mais bela das vistas - foram se espalhando, os burocratas foram afundados em pedidos. Os visitantes se viram forçados a esperar no campo gelado, em uma fila que podia durar meses. Com a espera, vieram comerciantes, estalagens, artistas, todo tipo de coisa que acabou por criar na cidade de baixo um festival permanente.
Muitos ainda vão à cidade, atraídos pelas banais histórias de uma terra em eterna festa. Alguns ainda se lembram da cidade flutuante, mas desistem de visitá-la antes mesmo de tentar. Uns poucos perseveram.
E para eles ***** guarda seus segredos.
17.2.03
Diálogo Recursivo V: Impasses
em 17.02.03
- "Quero estar só com você". Foi isso que você disse, não foi?
- Foi. Mas tem muito tempo. Hoje as coisas são mais complexas que isso.
- Só que você nunca se desdisse. Eu pensava que ainda era assim.
- Ainda é.
- E por que você está com ela?
- Eu não estou. Estou com você. Ele foi só um acidente.
- Acidente... Não é você que não acredita em acidentes?
- ...
- E por que a mentira?
- Não é isso que você quer saber, é?
- É. Não. Você sabe o que eu quero saber.
- É só perguntar.
- Eu já perguntei. Você é que não respondeu. Por que você está com ela.
- Eu respondi. Eu não estou com ela, estou com você.
- Mas não está só comigo. Não mais.
- E não é isso que você sempre quis? Não é o que você me empurrava para fazer desde que nós começamos? Cada vez que conversamos, cada vez que acordamos juntos. A cada sábado que você tinha mais o que fazer e meus convites eram incômodos.
- Eu nunca quis que você tivesse outras pessoas. Só não queria me prender a ninguém.
- Você sempre quis que eu tivesse outras pessoas. Mas para mitigar suas culpas, para livrar suas noites, quando fosse conveniente. Só que agora é conveniente para mim.
- Nós devíamos terminar tudo agora.
- Deixe de ser idiota. Isso não vai resolver nada.
- O que me apaixonou em você foi sua segurança. A certeza de que você agüentaria tudo que eu fizesse, que sempre me perdoraria. Que me amaria apesar de tudo.
- Se foi isso, você passou seu tempo comigo enganada. Eu sempre disse que minha paciência tinha limite.
- Você ainda quer estar comigo?
- Eu ainda quero estar só com você.
- Então desista dela.
- Se você estiver disposta a parar de fugir de mim. Eu amo você, mas estou cansado das escolhas. Você é quem decide como as coisas vão ser.
- E se eu não quiser?
- Então tudo já está resolvido.
em 17.02.03
- "Quero estar só com você". Foi isso que você disse, não foi?
- Foi. Mas tem muito tempo. Hoje as coisas são mais complexas que isso.
- Só que você nunca se desdisse. Eu pensava que ainda era assim.
- Ainda é.
- E por que você está com ela?
- Eu não estou. Estou com você. Ele foi só um acidente.
- Acidente... Não é você que não acredita em acidentes?
- ...
- E por que a mentira?
- Não é isso que você quer saber, é?
- É. Não. Você sabe o que eu quero saber.
- É só perguntar.
- Eu já perguntei. Você é que não respondeu. Por que você está com ela.
- Eu respondi. Eu não estou com ela, estou com você.
- Mas não está só comigo. Não mais.
- E não é isso que você sempre quis? Não é o que você me empurrava para fazer desde que nós começamos? Cada vez que conversamos, cada vez que acordamos juntos. A cada sábado que você tinha mais o que fazer e meus convites eram incômodos.
- Eu nunca quis que você tivesse outras pessoas. Só não queria me prender a ninguém.
- Você sempre quis que eu tivesse outras pessoas. Mas para mitigar suas culpas, para livrar suas noites, quando fosse conveniente. Só que agora é conveniente para mim.
- Nós devíamos terminar tudo agora.
- Deixe de ser idiota. Isso não vai resolver nada.
- O que me apaixonou em você foi sua segurança. A certeza de que você agüentaria tudo que eu fizesse, que sempre me perdoraria. Que me amaria apesar de tudo.
- Se foi isso, você passou seu tempo comigo enganada. Eu sempre disse que minha paciência tinha limite.
- Você ainda quer estar comigo?
- Eu ainda quero estar só com você.
- Então desista dela.
- Se você estiver disposta a parar de fugir de mim. Eu amo você, mas estou cansado das escolhas. Você é quem decide como as coisas vão ser.
- E se eu não quiser?
- Então tudo já está resolvido.
9.2.03
Sonho II
em 09.02.03
O azul do mar - exatamente seu tom favorito - não é nada natural. E a água não costumava ir até ali, até a calçada, ou ser tão parada. Sentado ali, na beira da piscina que ultrapassa o horizonte, você percebe que há algo errado. Como se o mundo tivesse mudado de repente enquanto você não prestava atenção. Mesmo assim, o sol se pondo causa uma certa paz.
Um bebê ou uma criança se aproxima, falando algo que você não consegue entender, mas é muito importante. Se ela parasse de desaparecer quando você se concentra nela, seria muito mais fácil entender. Ela fita seus olhos com uma piedade que destrói você e pula na água. A criança afunda devagar até o fundo e é possível vê-la durante todo o percurso, apesar das águas escuras. Você percebe que a criança precisa de ajuda e mergulha atrás dela.
No fundo, há restos bem conservados de uma cidade vagamente grega, mas cheia das imagens da vida moderna. Se não fosse o peso diferente e uns cardumes aqui e ali, você nunca perceberia que está sob a água. Procurando pela criança, você encontra um amor antigo, chorando tranqüila - lágrimas distintas da água. Você se aproxima, limpa uma lágrima e pergunta se está tudo bem. Ela responde e você se beijam.
Você percebe que precisa respirar e a convida para ir com você. Ela diz que não pode, mas você deve ir assim mesmo. "Nos vemos depois", você ouve enquanto flutua numa velocidade absurda. O impulso é suficiente para jogá-lo metros acima da água, como os saltos dos golfinhos. Enquanto enche os pulmões, você enxerga o bebê, voando ao longe. Enquanto desce, você procura pela mulher que deixou no fundo. A água vai ficando cada vez mais escura, os pulmões vão ardendo e você não consegue encontrá-la.
em 09.02.03
O azul do mar - exatamente seu tom favorito - não é nada natural. E a água não costumava ir até ali, até a calçada, ou ser tão parada. Sentado ali, na beira da piscina que ultrapassa o horizonte, você percebe que há algo errado. Como se o mundo tivesse mudado de repente enquanto você não prestava atenção. Mesmo assim, o sol se pondo causa uma certa paz.
Um bebê ou uma criança se aproxima, falando algo que você não consegue entender, mas é muito importante. Se ela parasse de desaparecer quando você se concentra nela, seria muito mais fácil entender. Ela fita seus olhos com uma piedade que destrói você e pula na água. A criança afunda devagar até o fundo e é possível vê-la durante todo o percurso, apesar das águas escuras. Você percebe que a criança precisa de ajuda e mergulha atrás dela.
No fundo, há restos bem conservados de uma cidade vagamente grega, mas cheia das imagens da vida moderna. Se não fosse o peso diferente e uns cardumes aqui e ali, você nunca perceberia que está sob a água. Procurando pela criança, você encontra um amor antigo, chorando tranqüila - lágrimas distintas da água. Você se aproxima, limpa uma lágrima e pergunta se está tudo bem. Ela responde e você se beijam.
Você percebe que precisa respirar e a convida para ir com você. Ela diz que não pode, mas você deve ir assim mesmo. "Nos vemos depois", você ouve enquanto flutua numa velocidade absurda. O impulso é suficiente para jogá-lo metros acima da água, como os saltos dos golfinhos. Enquanto enche os pulmões, você enxerga o bebê, voando ao longe. Enquanto desce, você procura pela mulher que deixou no fundo. A água vai ficando cada vez mais escura, os pulmões vão ardendo e você não consegue encontrá-la.
2.1.03
Diálogo Recursivo IV: Clichês
em 02.01.03
- Não é você. Sou eu.
- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.
- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.
- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?
- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.
- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.
- Eu também vou sentir saudades de você.
- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.
- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.
- Eu ficaria menos chateado se tentasse.
- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.
- O nome disso é "seduzir".
- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.
- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.
- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.
- Como se me importasse sua vida e suas complicações.
- Como é?
- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.
- É. Os motivos para você desistir.
- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.
- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.
- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.
- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.
- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.
- Vamos ver.
- Você vai ver.
- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.
- Eu não vou desistir de você ainda.
- Só não vai adiantar.
- Então tá. Até.
- Ah, vem cá.
em 02.01.03
- Não é você. Sou eu.
- Puta que pariu. Você podia pelo menos arrumar algo mais original para dizer.
- Mas é verdade. Eu adoro você, mas não estou em condições de me envolver com ninguém agora.
- Tá. Tem mais alguma dessas coisas genéricas a me dizer?
- Pára com isso! Você está me deixando mal. Não precisa fiar triste.
- Claro que preciso ficar triste. É bem difícil encontrar alguém como você.
- Eu também vou sentir saudades de você.
- Vai nada. Ou não estaria me dispensando por impedimentos imaginários.
- Não são imaginários. São coisas minhas que não consigo explicar.
- Eu ficaria menos chateado se tentasse.
- É como se eu ficasse evitando gostar de você, me segurando por medo de machucar você. Mas você foi me envolvendo aos pouquinhos, mesmo que eu não quisesse.
- O nome disso é "seduzir".
- Não. Eu queria dizer de um jeito ruim.
- Ah, tá. Como se eu tivesse forçado você a qualquer coisa.
- Pára com isso. Eu não posso ficar com você agora. Minha vida está complicada demais.
- Como se me importasse sua vida e suas complicações.
- Como é?
- Pouco me importa sua decisão. O que você quer ou não. Você devia tomar cuidado com o que fala, se quer que eu desista de fato. Você já disse que gosta de mim. Que fica se segurando para não gostar mais. Que está confusa.
- É. Os motivos para você desistir.
- Nada disso. Os motivos para eu insistir. Você quer, mas tem medo. Ou teria agido de outro modo. E eu estou pouco me fodendo para seus medos. Nós vamos ficar juntos e pronto. Você não tem escolha.
- Claro que tenho. Não entendo essa sua insistência.
- Vai entender. Porque você é indecisa, volúvel, cheia de vontades contraditórias. E eu não. Sou muito decidido com as coisas importantes.
- As ?coisas importantes?? Você mal me conhece.
- E?! A questão toda se resume a uma disputa de força de vontade. Não de quereres, de possibilidades. E essa você já perdeu.
- Vamos ver.
- Você vai ver.
- Se você gosta de mim, devia me esquecer, moço.
- Eu não vou desistir de você ainda.
- Só não vai adiantar.
- Então tá. Até.
- Ah, vem cá.
17.12.02
Sonho I
em 17.12.02
A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.
Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.
Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.
Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.
Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.
Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.
em 17.12.02
A iluminação é difusa, meio mole. Mais ou menos como se saísse da parte mais baixa das paredes. Mesmo assim, o quarto está escuro. Não é possível ver nada nele, exceto ela e você. Você acha que é você, pelo menos. Não consegue lembrar como ele era, mas ele se sente como você se sente.
Ela brilha sobre a cama. As formas e feições são indistintas, como se você a visse através de um filtro fotográfico ou uma coluna de vapor. E não consego reconhecê-la. Mesmo assim você se sente muito confortável com ela, apesar de saber que ela não é uma só pessoa. E ela é mais bonita que todas as mulheres que a formam.
Até você perceber a barriga. Redonda e linda, com um bebê de uns seis meses dentro. Ela não estava nua antes, estava? Ela não estava grávida quando você entrou no quarto, a barriga surgiu de forma repentina. Mas ela é tão linda e viva que você não liga para a estranheza.
Você tenta segurar o desejo de tocar a barriga dela. Até que ela pede que você se aproxime e não só coloque as mãos, mas também encoste o ouvido nela e ouça o que o bebê tem a dizer. Nada memorável, sá as baboseiras que um bebê poderia dizer.
Abraçado à barriga dela, você pergunta de quem é o filho. "Seu". E é o momento mais erótico da sua vida.
Mesmo que você não lembre de ter fodido aquela mulher.
9.12.02
Girls as a Memetica Infection V
em 09.11.02
Tudo se tornava ficção com ela por perto.
Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.
E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.
A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.
Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.
Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.
Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.
Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.
Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.
Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.
em 09.11.02
Tudo se tornava ficção com ela por perto.
Era assim que se sentia, depois de ter fugido da ex-namorada e começado - em passos decididamente hesitantes - a se aproximar da garota da estação. Claro, a energia que aparecia do nada a cada nova paixão era um fenômeno conhecido e recorrente. Mesmo que há anos não tivesse uma paixão - ou princípio de paixão - sem culpas, ainda se lembrava bem como eram essas coisas.
E, com ela, tudo era diferente. Ao contrário de todas as outras que, independente da intensidade, o colocavam num estado propício à inspiração, mas que no fim das coisas só dificultavam o trabalho fundamental a qualquer escrita que prestasse, ela tinha um efeito diferente. Era como se as histórias já saíssem dela prontas. Como se ele só estivesse anotando algo que - discretamente - ela ditava nas ações, olhares e gestos.
A impressão era essa, mas sabia que quem escrevia era ele. As palavras vinham fáceis como nunca antes, mas eram palavras dele. Reconhecia suas frases, pausas e manias sem sentido. Mas percebia algo novo ali: a confiança de ter uma fã que de fato apreciava os escritos, não o escritor.
Ainda se sentia estranho com a facilidade que as coisas aconteceram. A velocidade absurda que, mesmo na época, a intimidade entre os dois se estabelecera. Hoje, com a consciência de que não poderia ser de outra forma, se perguntava como podiam prever um encaixe tão perfeito ao crià-la. Sabia que não era um alvo específico e que - se não estivesse naquela estação - ela encontraria outro como ele antes do fim do dia.
Por coisas assim que ia perdendo a fé na individualidade, subjetividade, no "único humano de cada um" como dizia um amigo "conectado ao universo". Depois dela, ficava imaginando quantas formas possíveis existiam e quão raro era o molde do seu tipo. Mas - na época - se sentia único e necessário. E mais talentoso e competente do que realmente podia ser.
Foi nesses dias que - estimulado por ela - começou um primeiro romance, que nunca pensou que ia funcionar, mas funcionou. Apesar de muito distante dos dias que vivia, a história era de uma honestidade incrível. Estavam lá expostas as possibilidades que passavam por sua cabeça se nunca tivesse visto a menina na estação. O cinza nas coisas, a lentidão das horas, a falta de sentido e os dinossauros.
Morria de medo de dinossauros, então transformou todas as idéias que o incomodavam em dinossaurinhos mal domesticados que ficavam enchendo os protagonistas. Como aqueles anjos e diabos dos desenhos animados, mas com mordidas e venenos em lugar de palavras.
Se sentia orgulhoso da idéia e mais ainda da forma de desenvolvê-la, que impediu que o romance se tornasse um drama insuportável ou que caísse na tão irritante biografia mal disfarçada. Ainda assim se sentia excessivamente exposto. Em outros tempos, os dinossauros o protegeriam dos olhares curiosos. Roubariam o foco das suas inseguranças para a metáfora palhaça.
Mas ela identificou seu medo de perdê-la assim que o primeiro tiranossauro apareceu.
2.12.02
Diálogo Recursivo III - Déjà Vu
em 02.12.02
- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?
- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.
- É?
- Não há mais nada que você não saiba.
- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.
- Seria óbvio, se prestasse atenção.
- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!
- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.
- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.
- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.
- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!
- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.
- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?
- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.
- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.
- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.
em 02.12.02
- Você quase não fala mais comigo. Antes, era tão falante. Tagarelava sem parar, sempre com um comentário, uma piada, uma provocação. Tem algo errado com a gente?
- Não. Só tenho menos a dizer. Perdi um pouco a vontade de falar.
- É?
- Não há mais nada que você não saiba.
- Há muita coisa que eu não sei. Não sei mais o que você está pensando, em quem está pensando. Ou como está pensando.
- Seria óbvio, se prestasse atenção.
- Prestar atenção no quê? Você não me diz nada! Passa o tempo todo naquele quarto, lendo. Ou escrevendo e rabiscando coisas para o filme. O máximo que me diz é que vai viajar não sei pra onde, que saiu tal dinheiro ou me mostra algo que fez. Nada sobe você!
- Desisti de falar de mim quando você começou a esquecer.
- Eu nunca esqueci nada do que você me disse.
- Esqueceu. As menores coisas. As que mostravam que você prestava atenção.
- E, em vez de me lembrar, você desiste de falar?!
- As coisas em si não eram importantes, mas era importante que você lembrasse.
- Às vezes você é insuportável! Se as coisas não eram importantes, por que é importante que eu lembre delas? Por que você não me fala mais nada sobre as coisas que são importantes, diabo?
- Porque eu não preciso falar para você sobre o importante, as coisas grandes. Eu falo delas o tempo todo. Penso nelas o tempo todo. Basta entrar no quarto, ver as orelhas dos livros. Prestar atenção no que estou fazendo.
- O que você faz não tem nada a ver com a gente. Aliás, não tem nada a ver com mais nada. É só um amontoado de idéias sem sentido, cenas pela metade, umas coisas que não se completam. Nada com nada! Cada vez mais chato, mais arrastado, mais distante de tudo, fechado em si.
- Eu só escrevo sobre nós dois. Antes você sabia disso.
15.11.02
Girls as a Memetic Infection IV
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
em 15.10.02
Estranho que os sonhos só começassem a desenovelar agora, tantos meses depois. Percebia que ela não era tão perfeita assim. Tinha pelo menos esse defeito de fabricação. Os sonhos - implantados pouco a pouco - deveriam ter explodido no instante que decidiu deixá-la.
Talvez fosse melhor tê-los enfrentado na época, quando todos os outros problemas afloraram e estava contaminado dos memes dela ao ponto de não poder ouvir nenhuma música, andar por quase todos os lugares ou pronunciar a maior parte do seu vocabulário de três línguas. Conseguira de tal modo amarrá-lo que nada podia ser feito sem se esbarrar em alguma idéia semeada por ela.
Mas os sonhos teimavam em aflorar agora. Sem motivo aparente. Quando achava que estava se livrando das idéias dela - ou que elas estavam diluídas além de uma percepção consciente, mesmo que ainda estivessem ao fundo de todos os seus raciocínios de uma forma que nada tinha de natural.
Tivera que ir embora antes, para um país estranho que nunca teve vontade de morar, inventando um projeto para o qual não estava qualificado ou tinha interesse. Aprender mais duas línguas e um outro alfabeto. Ler todos os autores que nunca teve tempo ou desejo e assistir grande parte dos arquivos de propaganda comunista. Tudo para afogá-la.
Sabia que não tinha conseguido. Mas - ao aumentar o número de possibilidades e interações na sua mente e sua literatura - era menos provável encontrá-la em seus devaneios. Era disso que tinha medo de fato, já que a possibilidade de um encontro aleatório era quase nula: ela nunca o procuraria de qualquer outra forma. E agora os malditos sonhos. Recolocando tudo de volta na moldura criada por ela. Fazendo as novas idéias caírem para sua esfera de influência. Desfazendo as defesas que ele tinha criado.
Ainda gostava - e precisava - falar dela com alguma freqüência, mas conseguia controlar as linhas de raciocínio. Como se dividisse os pensamentos em duas partes: uma ia na frente, guiando a outra para longe das áreas que dariam idéias para escrever. Se era isso que ela queria dele, era isso que nunca mais teria.
Ainda não tinha conseguido se convencer - e os sonhos dificultavam ainda mais - que era só isso que ela queria. Mesmo agora, se prendia à esperançaa fútil que as idéias e textos fossem só o rumo geral que a programaram para tomar. Tentava se convencer que ele era dispensável, só um veículo para o que ela precisava. Mas não conseguia.
Mesmo agora - depois de tudo - ainda se sentia mais idéias que corpo. Ainda sentia o orgulho de lembrar dela chorando com as palavras que criou para que chorasse, ou largando um texto incômodo onde previa que ela o faria. Eram as idéias que ele amava que ela amasse.
Enquanto não se livrasse disso, ainda seria dela.
2.11.02
Escritores são um porre e falam uma língua bastante particular, mas às vezes é divertido escrever sobre eles. Reúni as três partes de Pulp Hack em um negócio que pretende ser impresso. Se você quer uma cópia, me escreva com seu endereço postal.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
As pessoas que pediram o segundo número do Aoristo receberam - ou devem receber até terça - um envelope que também tem Pulp Hack. Se você pediu e não receber até lá, me avise - e mande seu endereço de novo.
Os três zines estão disponíveis na rede, corrigidos e iguais as versões distribuídas.
29.10.02
Parábola III
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
em 22.10.02
Havia, no tempo em que céus e terras ainda não eram bem separados, um dragão enlouquecido. Nascido já adulto das pinturas de Chang Seng-Yu, faltava-lhe a sabedoria e comedimento de seus pares. Se comportava como uma criança, com o poder para mover céus e terras.
Era necessário prendê-lo novamente na pintura. Bastaria que alguém conseguisse roubar sua pérola e ordenasse que ele retornasse ao painel de onde nascera. Tarefa simples para um exército, mas eles estavam envolvidos em uma guerra distante.
Sobravam apenas alguns guerreiros esparsos, que passavam seus dias orando que o dragão nunca se aproximasse de sua cidade. Orar, afinal, era muito mais eficiente que atacar a fera brincalhona.
A situação progrediu por meses, até que um guerreiro desertor voltou das batalhas. Não podendo mais viver com a agonia de sua vergonha, decidiu que subjulgaria o dragão.
Atacou a criança de forma traiçoeira, num conflito breve, que terminou com um simples olhar da criatura.
Transformado em névoa, o guerreiro cumprira seu objetivo.
28.9.02
25 Fatos Inventados - e Não-Contraditórios - Sobre Mim Mesmo
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
Em 28.09.02
1. A data do meu aniversário foi escolhida por conveniência política.
2. Eu nunca minto. E estou sempre certo.
3. Fui abduzido aos 10 anos de idade. Antes disso, eu tinha dois redemoinhos no cabelo. Hoje, não tenho nenhum e não consigo me lembrar do nome de nenhum dos meus amigos de infância. Ninguém acredita em mim, mas é verdade.
4. Não durmo direito desde a primeira - e única - vez que pulei de pára-quedas, em 1998. Tive problemas para abrir o negócio e sempre sonho com a situação. O resultado é diferente do que de fato ocorreu.
5. Parei de comer carne de porco quando vi "Babe".
6. Eu nunca me apaixonei.
7. Meu livro preferido é "Cem Anos de Solidão".
8. O primeiro livro que ganhei foi "O Pequeno Príncipe", logo depois de nascer. Antes de ultrassonografias para determinar o sexo do bebê serem comuns, minha avó materna estava certa que eu seria uma menina. Apesar de me recusar a devolver quando minha primeira prima nasceu (eu tinha dez anos), até hoje não li o livro - uma ediçãoo muito bonita, em francês.
9. Perdi minha virgindade aos catorze anos. Ela tinha trinta e era amiga de uma tia. Ela não me beijou.
10. Meu primeiro beijo foi aos 17. Acho que gostei mais dele que da "primeira vez".
11. Eu não me entendo com computadores.
12. Meu incisivo frontal esquerdo e o lateral direito são próteses. Bêbado, fui defender uma garota em um show. Depois da briga, tentei beijá-la e ela me empurrou. Bati a boca na calçada.
13. Apesar de já ter sido preso por vandalismo, eu nunca roubei.
14. Tenho medo de lagartixa.
15. Uma vez, viajando de carro, meu pai ficou detido por horas. Ele carregava uma arma, mas esqueceu o porte. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos horas esperando no carro atá que a coisa fosse esclarecida.
16. Eu sei dançar tango.
17. Eu bebia desde de cedo e tinha certeza que ia ganhar um carro quando fizesse dezoito anos, então nem me preocupoava com isso. O que eu realmente esperava era fazer dezoito anos logo para poder disparar uma arma. Exigência da minha mãe que eu esperasse até então.
18. Minha matéria preferida na escola era matemática. Estranhamente fui fazer odontologia. Até hoje dá vontade de largar o curso para ser engenheiro.
19. A coisa mais triste que vi na vida foi uma amiga minha depois de fazer um aborto. Eu disse para ela que admitiria o filho, mas ela não acreditou.
20. Quando eu era criança queria ser padre, jogador de futebol ou piloto de avião.
21. Loiras - mesmo as oxigenadas - fazem muito mais o meu tipo que as morenas. Se forem bem bronzeadinhas, então...
22. Minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha quinze anos. Eu fiquei morando com meu pai.
23. Eu bati o carro uma vez. Voltando de uma festa, dormi no volante. Não aconteceu nada comigo, mas foi perda total.
24. Eu nunca quebrei um osso.
25. Quando eu jogo futebol, gosto mesmo é de ser goleiro.
19.9.02
13.9.02
Diálogo Recursivo II - Delectatio Morosa
em 13.09.02
- Gostou?
- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.
- Ah! O filme é legal.
- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.
- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!
- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!
- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.
- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.
- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?
- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.
- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?
- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.
- O que você queria dizer, então?
- Que eu queria uma história simples.
- Como "simples"?
- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.
- Você ainda está falando do filme?
- Ah! Sei lá.
em 13.09.02
- Gostou?
- Já estou de saco cheio dessas coisas. Desses joguinhos pós-modernos.
- Ah! O filme é legal.
- Mas é só tirar a montagem, o jeito de narrar, que você tem um filme comum. Igual a um monte que eu já vi sem nem prestar atenção.
- Mas o modo de narrar é o filme! Se você tirar o modo de descrever as coisas Shakespeare é pior que qualquer novela das seis!
- Você sempre tem que radicalizar. Odeio quando você faz isso!
- Que radicalizar?! Você tentou fazer uma distinção entre o modo de narrar e o filme. Só quero mostrar como isso é impossível.
- Não venha me dizer o que eu tentei dizer ou fazer. Toda vez que a gente conversa é isso. "Você disse isso". "Você tentou aquilo". Já encheu o saco.
- Tá. Tá. O que você quis dizer, então?
- Que, se tirar o modo de narrar, o filme é igual a um monte de outros que já vi.
- Caralho! Não foi o que eu disse que você disse?
- Não. Você disse o que eu queria dizer. E errou.
- O que você queria dizer, então?
- Que eu queria uma história simples.
- Como "simples"?
- Sem complicações. Bonita. Que me envolvesse.
- Você ainda está falando do filme?
- Ah! Sei lá.
5.9.02
26.8.02
Girls as a Memetic Infection III
em 26.08.02
Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.
Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.
Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.
Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.
Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.
Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.
Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.
Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.
Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.
(continua)
em 26.08.02
Tinha que aceitar os fatos. Estava apaixonado.
Chegou à desagradável conclusão dois minutos depois do primeiro telefonema, sem muito se debater, poucos dias depois de vê-la pela primeira vez. Se fosse mais sincero, ou não cultivasse com tanto esforço uma camada de cinismo anti-romântico, aceitaria a situação ainda no primeiro dia, quando tudo que viu o lembrava da menina que acabara de encontrar. Só havia um detalhe a cuidar antes de poder se perder nela.
Hoje ele pensa que poderia ter se defendido. Mas os tempos eram outros, apesar de nem tão distantes. Na época, memes – “idéias como vírus”, frase que já tinha visto uma ou duas vezes – pareciam ridículos: mais ficção científica que uma possibilidade real. Mas naquele momento as coisas começavam a se confundir.
Não estava preparado quando a viu pela primeira vez. Não tinha nenhuma defesa ou vontade de se defender. Não existiam os manuais de segurança psíquica e muito menos as técnicas de combate memético - ou M2M, nos círculos que freqüentaria alguns anos depois, ao tentar se livrar dela.
Não pensou em se esconder ou fugir – o procedimento padrão quando não estava solteiro. Ao avistá-la na estação, já sabendo o quanto se sentiria mal, se aproximou sem pensar para observá-la. Ela, ao identificar um dos alvos programados, deu a ele uma única chance de escapar e baixou os olhos em vez de sorrir. Um gesto de piedade atípico, como ele descobria pouco depois.
Ele ainda pensa se, caso não fosse criada para aquele target, ela teria olhado para ele uma segunda vez. Era o tipo de pensamento que devia se concentrar para evitar agora. O tipo que ela foi criada para causar.
Seis minutos de conversa com as palavras sumindo nos trens e pessoas foram suficientes. Tudo que ela dizia se encaixava perfeitamente em algum lugar, fazia com que ele sentisse enormes possibilidades em si, como se tivesse recebido uma injeção de idéias. Estava tão envolvido que não lembrou os motivos para se sentir culpado ao pedir o telefone dela, certo que o número não tocaria em lugar algum.
Em casa, ignorou os recados e os compromissos: escreveu durante todo o fim de semana, como há muito não conseguia ou tentava fazer. Percebeu, ao revisar as histórias, que nenhuma delas era sobre a menina na estação. Todas eram sobre fins. Juntou todas num e-mail, escreveu “sinto muito” no cabeçalho e enviou para a – a partir daquele momento ex – namorada.
Discou o número. Ouviu que ela estava viajando, tirou o telefone da tomada e voltou a escrever.
(continua)
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